RESPOSTA CERTA

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Como todos que estão perdidos, eu só precisava de uma certeza para me encontrar. Uma informação na qual ele tivesse plena confiança. Caso ele não pudesse dizer exatamente onde, talvez pudesse indicar como chegar.

Hesitei em dizer que queria a verdade. Quase sempre a verdade é um fato óbvio, já sabido por todos, a única verdade ali era que eu estava perdida. A verdade é impessoal e toca a todos nos momentos de lucidez, por isso ela é simples e não dá espaço para explanações. É como o oxigênio que respiramos, essencial, invisível e constante. Precisamos da fé para humanizar a verdade e conseguir suportar sua presença sem que isso nos horrorize. Pedi para ele a resposta certa.

O rapaz abriu um sorriso radiante de simpatia, como que satisfeito com o que eu escolhi, pois aquilo, acima de tudo, demonstrava confiança. Nossas respostas são nossas crenças. Elas podem nos levar para qualquer lugar, tantos aos bons quanto aos ruins. Mas eu estava com um bom pressentimento. Eu estava esperançosa quanto ao meu novo destino, apesar de tudo, recomeçar, talvez com outras perguntas. A confiança precisa da inocência para criar suas raízes, alguém que se contamina demais com suas más experiências é infértil às sementes da esperança. Eu queria mudar este ciclo. O homem não me informou onde era minha rua, mas disse para eu ir em direção à praça e lá certamente alguém poderia me ajudar. O bairro era bastante agradável, resolvi que iria para casa e de carro iria a algum lugar que eu conhecesse. No caminho, as pessoas me davam bom dia, na praça, me informaram como faria para eu chegar em minha casa e um rapaz, sensibilizado por eu ser nova na região, até se ofereceu para me acompanhar caso eu estivesse insegura. Por um momento, aquele acolhimento fez com que eu esquecesse meus problemas.

Ao chegar em meu apartamento, uma senhora estava em minha porta. Ao me ver chegar, logo se identificou como sendo minha vizinha. Soube da minha mudança e, como tinha feito um bolo quentinho, resolveu me dar um pedaço de boas-vindas. Perguntei como ela soube da minha chegada, foi quando ela explicou que também tinha um recado. Ontem, um caminhão veio entregar a mudança, mas não havia ninguém para receber os rapazes. Eles pediram para avisar que o caminhão levaria os móveis para o depósito e voltaria hoje, pois eles não podiam esperar muito devido à agenda deles. Respirei fundo e pensei que minha vizinha deveria ter me procurado quando eu estava indo ao outro prédio. Um caso de desencontros.

Um alívio correu pelo meu corpo, que logo deu lugar ao susto do som do interfone tocando e me fazendo despertar. Eu estava no meu antigo apartamento, tinha adormecido entre as caixas etiquetadas. O interfone insistiu, atendi e era o caminhão da mudança para fazer a retirada. Eu tinha começado a entender o que tudo aquilo significava. Foi então que decidi: “Mudei de ideia e vou deixar essas coisas aqui, não vou levar. Mas fiquem tranquilos quanto ao pagamento do serviço, obrigada.”

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1 comentário Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Não podia deixar de comentar este texto também. Como todos os outros. MUITO bom!

    A vida é cercada de pessoas interessantes, fúteis e que gostam de aparecer. Poucas são as que entendem e sabem valorizar um bom texto ou um mente que considero brilhante.

    abraços, redator

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