Tanque cheio.

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Eu estava lá, em minha primeira obrigação “responsável”. Estava contagiado por um sorriso e euforia estranha. Estou sorrindo por que é a primeira vez que faço isso, semana que vem estarei puto, de certo. Nesse novo cotidiano em que me via tudo era novidade, por muito tempo quis largar tudo e morar sozinho, e assim estava agora, na frente daquele tanque com meias e cuecas para lavar. Fui acumulando na semana, deixando elas numa parte de nomeei de “cemitério”.

Lá estavam minhas meias e cuecas que haviam sido utilizadas a semana inteira. Para ser mais exato, se tratava de uma mochila velha em que fui jogando as coisas que precisariam ser lavadas, ou jogadas fora. Exagero? Qualquer pessoa sã, ou uma dona de casa com mania de limpeza, jogaria fora minhas meias que o termo mais apropriado para defini-las seria deplorável.

Enfim, hora de lavar, iria aprender coisas novas como já tinha constatado em outras ocasiões, listarei algumas: Comida acaba, sempre acaba e se não acabar, estraga. Quando morava com minha mãe, leite, margarina, ovos, tudo brotava de forma mágica na minha geladeira. Eu disse tudo, até a água gelada, já hoje a maldita não faz nada mais da sua simples obrigação de gelar. Essa descoberta, semelhante à de uma criança de 5 anos que aprende que o papai Noel é aquele seu tio gordo e chato que ela não suporta, me fez descobrir outras coisas. Por exemplo, leite é caro, produtos ligths e que fazem bem à saúde são extremamente mais caros que os gordurosos mais gostosos e que muitas vezes comer deixa de ser prazer para se transformar em trabalhoso. Cozinhar, preparar por horas um prato para ser devorado em um minuto e ainda ter a louça para lavar… hoje penso muito antes de realizar uma refeição.

Entre outras coisas que averiguei em minhas aventuras solitárias de gente grande é que existe muita poeira no mundo, e por mais que você não seja fresco a ponto de se importar, ela fará de tudo para se multiplicar até tornar um vilão de filme B ou alienígena zumbi comedor de cérebros humanos. Acredite, ela irá te irritar.

Vamos ao tanque, e logo de cara percebi que não é nada inteligente tentar fumar e lavar ao mesmo tempo. Tudo bem, iniciante anote isso no seu caderninho de Sabedoria Popular. Sequei as mãos e anotei “nunca fumar enquanto lavar, dá merda”. Comecei pelas cuecas, não por preferência, mas sei que tecidos escuros tendem  manchar mais claros e meias são, quase que por definição, brancas. Foi divertido, não vou mentir, inclusive a parte em que me molhei inteiro por que abri demais a torneira. O grande problema foi as meias. Se por um lado à definição de meias chama o termo “branco” por outro às minhas, àquelas que estavam no tanque, eram pretas. Tenho um carinho especial por meias, tanto que nunca tiro uma do pé, minha mãe vivia me contando de um caso de um menino que tinha tido uma perna amputada porque vivia de meias, dizia ela que a luz ajudava o cálcio fixar no osso, e como o rapaz vivia de meias, os ossos dele ficaram fracos demais e ele acabou tendo câncer no pé. Agora imagine você ouvindo essa linda estória com oito anos, enfim.

Eu tinha entendido naquele momento o que fizera minha pobre mãe me relatar tão amarga estória. As meias ficam pretas, e mesmo que você esfregue, aquilo não sai. A prova disso foi o primeiro par que eu lavei, fiz um rombo em uma delas de tanto esfregar. Fui no caderninho de Sabedoria Popular a anotei “meias, principalmente àquelas com idade avançada, tendem a rasgar ao esfregar demais na hora da lavagem”. Durante as descobertas recorri várias vezes ao caderno da Sabedoria Popular com diversas anotações, “mancha de café é eterna”, “sabão de coco no olho dói. Muito.”, “não use roupas boas para lavar roupas, elas molham e precisam ser, ironicamente, lavadas” e outras que tive dúvida se anotava no caderno de Sabedoria Popular ou no do Reflexões, agora não me pergunte como manchei uma meia de café, nem como enfiei sabão no olho e muito menos como tive a proeza de lavar roupas num tanque com roupa de ir ao trabalho.

O processo era simples: passar sabão na parte do avesso das peças até elas ficarem repletas de sabão, após isso use o escovão, com força, caso a água que escorrer da peça for de coloração escurecida, parabéns, você está tendo êxito na lavagem eficaz. Terminando a etapa de esfregar dos dois lados à peça em questão, jogue água corrente em abundância, até não houver nenhum vestígio de espuma. Se durante a parte da retirada da espuma sair água com coloração escurecida, como anteriormente você ganha bônus na etapa da lavagem eficaz, isso também vale para o próximo passo, torcer muito, até alterar o seu estado de encharcado para então úmido. Seguindo essas diretrizes fui eliminando peça por peça, colocando elas no estado final (úmida e limpa) num balde, também limpo. Quando terminei estava bem visível o resultado. Minhas costas moídas, mãos enrugadas, e um balde com peças limpas e vivas, diferente de quando estavas no cemitério.

Faltava então o último passo para a ascensão da minha autonomia: estende-las num varal, como prova de minha independência, como se fossem troféus para que a vizinhança reconhecesse minha liberdade e maioridade. Seja como for, é difícil fazer isso quando se é desprovido de altura, as coisas poderiam ser mais baixas, digo, fáceis. Depois pensei que o varal é alto para reparar o dano causado à coluna quando se fica no tanque, ou seja, o último estágio é um alongamento para evitar os males da tarefa. Com as mãos secas acendi um cigarro e fiquei por trinta minutos olhando meu troféu no varal, corri para o caderninho de Sabedorias Populares, já procurando o caderninho de Reflexões e anotei “tudo para mim é possível, eu lavo minhas roupas”.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Hahhahahahahahahaha
    Ri mto com seu texto, cara!

    Mto bom!!

    “O homem precisa viajar… … precisa conhecer o frio, para desfrutar do calor. E o oposto, sentir a distância e desabrigo para estar bem, sobre o próprio teto…”.
    Amyr Klink

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