Sem cigarros.

em

Todas as putas e os viados estavam na rua, fazendo serão até tarde aquele dia. Eu também estava lá, meu objetivo não era um boquete ou um tanto de drogas, mas estava entre estes que simpatizavam com os respectivos objetivos. Queimava lentamente um cigarro enquanto esperava Jonas, o maldito, pra variar, estava atrasado. Sempre me fazia esperar em lugares inadequados, eu, por minha vez, sempre seguia meu instinto inglês e pontual. Foi aí que ela, a criatura, parou do meu lado. “Tem um cigarro desse ai?”. Só virei meus, olhei de cima abaixo aquela voz que não havia conseguido decifrar idade, sexo, religião ou qualquer traço de personalidade. Vi uma criatura, foi a primeira palavra que veio de minha mente, e a mais lógica para a ocasião. “Tenho, peraí”. Respondi meio com mau humor.Todos sabiam que o governo resolveu aumentar o IPI para encarecer os cigarros, numa linha de raciocínio ilógica, onde por causa dos preços, drogados não iriam saciar seus vícios. Menos leite para as crianças e mais tabaco em casa. Muito experto da parte deles, assim, a diferença estará em contas na Suíça, todo o 1 bilhão arrecadado.

Nesse tempo ainda procurava os maços em meus bolsos, é sempre uma luta para achar qualquer coisa lá, a física quântica deve ter alguma explicação mais exata sobre isso. Enfim, achei, tirei do bolso e a novidade veio ao ar. O maço estava vazio. “Desculpe, pensei que tinha, acabou”. Eu também estava triste com a notícia, quando o cigarro acaba sem meu planejamento, provavelmente terei azar em alguma coisa próxima, no caso não foi diferente.

-Pode ser esse que você está fumando.

-Não, este não pode, é meu último, ele é importante.

-Poxa, deixe-me dar um trago então.

-Na boa, não, eu PRECISO desse cigarro, conversa acabada.

A criatura ficou visivelmente puta, comprimiu os olhinhos, que ficou como um risco de maquiagem barata e saiu andando firme, com os braços cruzados. Merda – pensei – cadê aquele desgraçado do Jonas. Segui com os olhos a criatura e ela estava com dois caras, dos grandes, conversando e olhando para mim. Vou me foder hoje, é melhor eu sair daqui. Fui andando caminho contrário, naquele momento nem me importava mais com o Jonas, queria salvar minha pele daquele cyber-traveco que conversava com skins.

Apertei o passo àquelas ruas ermas, escuras e sem vida. Tudo parecia uma ameaça. Até gosto da sensação, mas quando sei que ela é fruto de paranóia e não por estarem, realmente, atrás de mim. À medida que os meus passos ficavam mais rápidos, sentia a ressonância dos coturnos engraxados aumentar a frequência atrás de mim.

Merda, merda, merda e agora! Nenhum comércio, só alguns puteiros sujos, comércio de DST, não pensei duas vezes, entrei em um que o homem dizia “open bar até às 2h”. Fechou, é este. Entrei, limpei o suor do meu rosto e vi os depressivos e pervertidos lá, tentando salvar a noite. Encostei-me no bar, pedi um destilado e fiquei olhando à entrada, receando que os coturnos engraxados entrassem. “Sua Boazinha, senhor”. Virei a dose num gole só, sentindo ao mesmo tempo a canela e a cana forte. Melhor ficar no banheiro.

O banheiro era grande e tinha espelhos onde não deveriam ter, tentei entrar num reservado, tenho aversão a mictórios, mas me deparei com dois velhos se chupando. Bosta, entrei no segundo, me tranquei e fiquei ouvindo os gemidos dos velhos.

Passei um tempo ali dentro, com receio de sentar naquele vaso sanitário e esperar, lembrei-me de algo que me deixou preocupado, meus cigarros, havia acabado, precisava deles.

Resolvi sair do reservado, os gemidos já haviam cessado, realmente, quando sai não havia ninguém no lugar, mas mesmo assim, era meio freak. A cena me fez sorrir de satisfação, e, sai em direção ao bar, à segunda Boazinha.

Naquela altura estaria livre dos coturnos oxigenados, mas não foi bem o que aconteceu, ao sair do banheiro só senti um chute no peito, voei longe e bati na parede, sem ar. Estava sentado no chão, todo torto, me esforçando para respirar, mas ouvi um dizer ao outro. “Cuida dele você primeiro que eu fico na porta e não deixo ninguém entrar, deixa um pouco para mim hein”. Merda, eu, tão jovem, morrer de forma tão trágica.

-Você zoou minha amiga mermão!

-Eu… Não… – Pensei que conseguiria falar com mais facilidade, mas ainda estava sem ar.

-Zombou dela e não quis dar cigarro para ela – deferiu um chute dianteiro na minha costela.

Meu ar foi-se novamente, nem ao menos responder e tentar dobrar o cara eu iria conseguir. Nesse momento, pensei que eu teria que trabalhar no dia seguinte e que algumas pessoas ficariam preocupadas se eu sumisse. Merda, foda-se. Preciso me salvar dessa antes que esse cara me deforme, mas sabia que precisaria da sorte, aquela que meu maço de cigarros havia me tirado.

-Agora muleke, você vai ter que comer meu cu.

O ar até voltou, olhei pra ele de modo estranho, visivelmente desacreditando naquilo, com uma sobrancelha levantada, como os cães fazem ao ficarem confusos.

-Você vai me comer e depois vai comer me amigo seu viadinho.

É, ele falava sério e começou a abaixar a calça. Pediu para que eu levantasse, eu estava atônito, não ia dar pra fazer aquilo. Estava em pé com as mãos entre abertas, como se até meu corpo perguntasse “que merda é essa”. Ele ficou de quatro no chão e disse “me come”. Olhei para o lado, e vi o que parecia ser minha salvação. Uma lixeira, digna de puteiro, cromada, aparentemente pesada. Não pensei duas vezes, peguei aquilo e bati com o máximo de força que pude na cabeça do desgraçado. Fez um barulho tremendo. O cara de fora ia entrar para ver o que havia acontecido, eu corri e dei com a porta nele, o cara caiu feito bosta no chão e eu sai correndo, o segurança tentou me pegar, afinal, nem percebi que tinha saído sem pagar.

Forest Gump teria inveja, corri muito, até sentir o ácido láctico sendo bombeado nas minhas veias. Ouvi os passos atrás de mim, gritavam coisas, eu não prestava atenção, apenas corria mais e mais, estavam dois seguranças e um skinhead atrás de mim.

Sei que corri muito tempo, até quando não escutava mais nada atrás de mim, só parei quando tive muita certeza que naquele momento eles já teriam me esquecido. Preciso de um cigarro, preciso da minha sorte de volta. Meu celular tocou, atendi, era o Jonas, perguntando por que eu não estava no metrô.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Uma pitada de misto quente? (ou viajei?)

    Essas horas nossa adrenalina nos torna super heróis. Fazemos coisas incríveis!

    Acho que é hora de você parar de fumar. Não teria tido nenhum problema! E ainda salva A MINHA vida! rs!

    E antes comer um cú do que ser forçado a ter o seu comido. ú é ú! hahahahahah

    abraços, redator!

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