Quarta-feira

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Eu era um sujeito muito solitário, mas do tipo durão, daqueles que parecem sobreviver bem sem ninguém por perto. Trabalhava horas afinco, não era do tipo que falava, sempre ouvia muito mais. Quem me conhecia sabia que não era grosseria o silêncio. Eu era quietão, no máximo balançava a cabeça ou dava um suave sorriso, sem mostrar os dentes. A pouca abertura fazia que os outros me achassem um mistério, então as pessoas não costumavam brincar muito comigo, mas tinham curiosidade. No final das contas, eu realmente, era um mistério. Todas as pessoas mantinham por mim uma espécie de respeito, mas não chegava a ser. De qualquer forma, eu sempre fora muito solitário.
Por mais que não fosse tão perceptível, eu era humano. E tinha meus sentimentos e carências, como todas as pessoas, mas, não os demonstravam.
Sempre reparavam em meus cabelos, bem cortados, eram impecáveis, pareciam de comercial de shampoo. Eram negros e lisos, sempre curtos. Levemente raspado em baixo, o que fazia o cabelo modelar meu rosto, dando mais destaque à silhueta. Todos acreditavam que se eu acabasse de acordar, não seria problema algum ter que atender uma visita, eu estaria com os cabelos metodicamente penteados.
Não, de longe eu era um metrossexual, tampouco alguém que demonstrava preocupações com a aparência. Meus trajes, obrigatoriamente, eram calças jeans e alguma camiseta escura. Porém, os cabelos, sempre impecáveis. Já ouvi de mulheres perguntas se eu os tratava com leite de cabra.
Eu era um sujeito estranho. Sempre com fones de ouvido, parecia uma espécie de autista, sempre com respostas econômicas, nunca permitia continuidade em diálogos. Se olharem para mim e xingar-me, não surtiria efeito. E deixava clara a esquisitice: tinha que ir uma vez por semana no cabeleireiro. Cortava e lavava o cabelo, como uma espécie de toque, mania ou alguma doença nervosa.
Sabiam disso porque eu mesmo dizia. “Preciso ir embora, o cabeleireiro já irá fechar, tenho que cortar meu cabelo”. No começo todos se olhavam no escritório onde eu trabalhava, como se perguntassem, “Cortar o quê?”. Com o tempo o escritório inteiro sabia, quarta-feira era meu dia de cortar o cabelo. Ironicamente, isso visivelmente me fazia bem. Nas quintas, eu estava com um humor mais comum, ainda quieto, mas, do meu jeito, interagia.
O que não sabiam, era a relação entre eu e o corte de cabelo.
Dona Selma, sempre cortava meus cabelos com suas mãos de anjo, doces como o paraíso, naquele momento eu sentia o calor dos seus dedos tocarem fundo meu cérebro. A lavagem era sempre muito especial.
Tudo ficava distante, quase adormecia ali, com aqueles toques que relaxavam todos meus músculos. Tinha virado um dependente, necessitava daquelas mãos em mim, aquilo era minha válvula de escape, era meu único contato verdadeiro que tinha. Tamanho conforto só poderia ser comparado ao útero materno e ao orgasmo, eles têm muitas semelhanças.
Esse vínculo, quase que amoroso, tinha de ser repetido semanalmente, até mesmo Dona Selma argumentava que meu cabelo já estava curto, instruía apenas para lavar e pagava o valor do corte completo. Alguns homens recorriam às prostitutas para suprir suas carências e problemas sentimentais, eu recorria à Dona Selma.
Suas mãos eram recargas para minha frieza diária, com elas eu realmente não precisava de contato nenhum com o mundo. Às vezes eu ia mais de uma vez por semana, Dona Selma acreditava que eu tinha algum problema, e sempre ficava quieta enquanto lavava minha cabeça. Mas nossa intimidade já era tão grande, que palavras eram irrisórias perante o valor de seus toques.
Um dia a surpresa, Dona Selma sumira. Ninguém sabia me informar onde estaria Dona Selma. Eu pedi informações sobre ela, telefone, deveria haver algum registro, algum contato, alguém que fosse amiga dela e que sabia onde ela morava. Estava obstinado, iria encontrar Dona Selma.
Fiquei visivelmente transtornado no salão, as outras cabeleireiras queriam me atender, mas eu queria Selma, minha Selma. Eu entendi a conspiração, todos queriam afastar Selma de mim, queriam privar-me do único momento de afeto que eu tinha reservado para mim.
Depois de alguns meses acabei desistindo de encontra-la. Já havia, inclusive, oferecido até propina para receber informações, porém tudo em vão.
Hoje, pago prostitutas para lavar meus cabelos, porém minha vida nunca mais foi a mesma, nunca encontrei mãos tão macias quanto a de Selma.

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