O novato

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Era dia de festa, um churrasco de confraternização, uma desculpa para não trabalhar e ainda encher a cara. Tinham alugado uma casa com piscina, churrasqueira e um amplo local para a comemoração das festas de fim de ano. O evento do dia era um amigo secreto. Semanas antes, todos escreveram seus nomes em papéizinhos, depositaram em uma urna e retiraram os nomes, que seriam àqueles que deveriam dar presentes.

Todos chegaram com suas sacolinhas com os presentes e com roupa de banho por baixo das roupas, afinal, havia piscina, um dos critérios decisivos à escolha da casa. Marques era o mais novo da equipe, tanto em idade quanto em tempo na empresa. Um rapaz eficiente, nada excepcional, mas fazia bem seu trabalho. Não havia ninguém que não simpatizasse com ele, muito pelo contrário, a cada dia gostavam mais de Marques. Um sujeito sempre disposto ajudar os outros, que nunca perdia a paciência mesmo sobre o máximo de pressão. Um caráter admirável, que no ambiente de trabalho fizera a diferença.

Marques era um cara comunicativo, porém não falava dele e, hoje em dia, isso é um fator positivo para o desenvolvimento de diálogos. Dessa forma, cada vez mais Marques passava confiança, era um garoto jovem e com ar de um vasto repertório de sonhos, alguém não contaminado com a cegueira da sociedade moderna.

As pessoas chegaram e logo foram para a piscina. Todos repararam nas costas de Marques, uma tatuagem que tinha as letras “DCLXVI” com uma imagem muito estranha em cima. Ninguém sabia que Marques tinha tatuagem, mas não era nenhuma conclusão estranha de se ter, já que ele era todo “moderno” e exótico, porém nada extravagante, nada que beirasse ao ridículo. A conclusão poderia não ser estranha, mas com certeza, o desenho daquela tatuagem era. Um dos mais experientes lá, confiando na intimidade que todos tinham uns nos outros, indagou em alto e em bom som “O Marques, que merda é essa nas suas costas?”. Todos riram. Ele se virou com o mesmo rosto simpático de sempre e disse “relaxa, é apenas propaganda”.Todos voltaram a rir e o assunto foi esquecido.

Cris, um dos gerentes comerciais e também sócio da empresa, um daqueles caras que passam o dia inteiro sem fazer nada no trabalho e ganha muito mais que todos os outros funcionários que suam a camisa, anotou as letras que havia nas costas de Marques, afim de fazer algum trocadilho estúpido futuramente. Tipos como o desse homem, que ganham mais que seu esforço, quase sempre é, no mínimo, engraçado.

Dias depois, Cris encontrou este papel entre suas coisas, perguntou-se o que era aquilo e lembrou facilmente da ocasião. Como não fazia nada em sua sala e tinha um computador à sua disposição, ele então pesquisou aquelas letras na internet. A combinação dela aparecia em apenas uma referência em toda a rede mundial. Na Bíblia.

“E da boca do dragão, e da boca da besta, e da boca do falso profeta, vi saírem três espíritos imundos, semelhantes a rãs. Pois são espíritos de demônios, que operam sinais, os quais vão ao encontro dos reis de todo o mundo, para os congregar à Batalha do grande dia do Deus Todo-Poderoso, marcou-se o demônio e o Senhor proclamou: Aqueles que forem tocados pelo ardor das chamas do inferno, semelhante à imagem da besta, receberá o sinal DCLXVI, beberás do cálice da ira de Divina e será atormentado com o fogo e enxofre diante de todos os anjos. Este homem não deve permanecer no solo da criação, uma vez que amaldiçoará todos em sua volta”.

Cris tinha uma expressão assustada e estava com dúvidas sobre aquilo que lera. A única informação disponível na internet vinha de inúmeras fontes, mas sempre com o mesmo alerta.  Cris era ateu, não acreditava naquilo que não podia ver, logo, seu Deus eram valores bancários, extratos e planilhas financeiras. Mesmo tendo esta percepção, aquilo que descobrira o incomodava, não sabia como reagir naquela situação.

Pensou um pouco e mandou por e-mail para o diretor da empresa. “Olá Sérgio, tudo bom? Lembra aquela tatuagem estranha de Marques? Pesquisei na net e encontrei isso, veja aí. Achei estranho, o que você acha?”. Junto o link que trazia a informação daquela sigla.

Ao receber o e-mail Sérgio se encontrou com Cris, na sala dele, e comentaram o caso. Sergio parecia preocupado, não queria demonstrar que era supersticioso, mas seu desconforto era claro. Cris ficou mais tenso vendo aquele nervosismo e deu seriedade ao assunto.

Pensaram em como se livrar de Marques, apenas por medo de algo estar por trás daquilo. Estavam decididos, teriam que afasta-lo de suas vidas. Algo que não era tão fácil. Como justificar isso, com supertição? Não, os argumentos teriam que ser embasados. Afinal, o cara não era top, mas era bom. Pensariam em alguma forma.

Enquanto isso, Marques trabalhava normalmente, sempre com feição simpática e dócil, o que constratava com seu aspecto físico. Robusto, levemente insano. Era uma harmonia interessante e geniosa. Loucura com inteligência e mistério.

Havia um plano, integraram mais um do escritório a favor da causa. A estratégia foi desmotivar Marques, não dar créditos algum para ele, ignorar seu trabalho, sem menosprezar, para que ele não se sentisse ofendido. E assim, sendo eles o alto escalão da empresa, iniciaram a estratégia que parecia surtir efeito.

Um belo dia Marques disse que arranjou outro emprego e que sairá da atual empresa, para felicidade de Cris e seus comparsas em eliminá-lo do quadro de funcionários de modo “amigável”, se assim as circunstâncias permitirem ser ditas.

Cris, um dia depois que Marques deixara a empresa, que inclusive foi no dia seguinte do comunicado, apresentou vergões vermelhos pelo corpo que formavam a palavra “dolor” que significa “dor” em latim. Ficou de cama por dez dias e faleceu. O que havia sido um conforto para a família, já que nem morfina aliviava suas dores.

O diretor da empresa e a gerente de contas cometeram suicídio, porém não se sabe se há relações com Marques.

Era um dia normal, naquele dia o diretor apresentaria à equipe o novo funcionário. Era o primeiro dia de Marques em uma nova empresa, ele estava tímido, mas confiante de que sempre fizera um bom trabalho.

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