Preço da inocência

em

Aquilo que plantamos é aquilo que colhemos. Algumas vezes, ao se abrir demais, podemos escorregar e ensinar o predador a caçar. Sua cria pode ser aquele que te supera, não apenas isso, talvez te destrua. Não tão amena quanto Sócrates, Platão e Aristóteles. Mas cruel, como  Lear, Goneril, Regan e Cordélia. A voz que ensina pode ser, facilmente, àquela que condena.

Assim foi que aconteceu naquele dia quente em um inverno frágil. Sua inocência era tão límpida que pensei ter dúvida a princípio. Como qualquer embalagem depois de aberta e explorada, suas palavras eram tão óbvias, previsíveis e desesperadas, que precisou apenas de alguns gestos para que eu soubesse todo o roteiro da prosa. Fui conseguindo prever palavras, depois frases e depois já conseguia concluir até pensamentos. Este é o perigo em ceder todo o coração para outrem. Como se uma maçã estivesse estragada em meio à macieira, a chaga é como o olhar, que coloca toda sua essência no senso comum, tirando a particularidade e espontaneidade de qualquer comentário, transformando seus pensamentos em um simples jogo de associação. Desta vez, não foi diferente.

Não é do meu feitio padronizar pensamentos, mas percebo que quanto mais o tempo passa, as pessoas comuns acabam se tornando realmente comuns. Por exemplo, não consigo interagir em um discurso previsível, acabo tendo certa preguiça dele. Dificilmente o assunto é algo que me desperte curiosidade, parece reprodutores de “rss”, conteúdos formatados que variam em um dos extremos: ou são jornalísticos demais ou são pessoais demais, noto uma dificuldade imensa na lógica desta estrutura.

O assunto até pode ser interessante, algo que me desperte o desejo de debater, porém, simplesmente me calo, ainda levanto a sobrancelha, demonstrando escárnio. Pode parecer prepotência ou arrogância, mas juro que não. Só não há vontade de levantar algum comentário. Sei a resposta, sei exatamente como funciona a rede destes pensamentos e associação de palavras não é nem emblemática, então prefiro investir meu tempo em outra atividade mais rentável. É como deixar de explorar um mercado que não consome seu produto, é lógico.

Temo a frequencia desta minha atitude e evito que ela seja redundante. Costumo mascarar toda a realidade do momento com uma faceta amigável e sociável. Acredito naquilo e me engajo na conversa. Às vezes funciona, outras é mais desgastante.

Tenho tendências a me isolar, tenho uma alta capacidade de me entreter sozinho. Minhas conversas necessitam de uma intimidade muito maior ao invés de simples contato comum para que eu consiga falar verdadeiramente. Interagir forçadamente é como transar sem desejo.

Por isso gosto de livros. Você apenas ouve, não precisa interromper, mas tem todo o direito de o fazer da forma mais rude possível. É como participar de uma conversa onde a pessoa estruture da melhor forma o pensamento e se esforce para manter-te ali. Talvez seja por isso também que muitas pessoas não gostam de livros.

Quando sinto este estágio, provavelmente toda minha possível admiração transformou-se em apenas inocência de minha parte em acreditar. Um exemplo banal pode ser confessar que compra hambúrgueres prontos e depois oferecer dizendo que é receita secreta e especial sua. Um pensamento mal planejado, que o único mérito que pode tirar e receber é o fato de ser um tanto estúpido.

Isso tudo me mostra o contraste do que suas palavras foram e são. Para rir da mesma piada mais de uma vez, ela precisa ser notoriamente boa e atitudes sem planejamento e ineficazes não conseguem ser nem mesmo engraçadas.

Seja como for, não preciso de respostas, contente-me dizendo apenas coisas que não sejam óbvias. Não é agradável matar a sede apenas com água, às vezes precisamos variar, pois então, reinvente, sem querer acabarei fazendo um favor para você.

Hoje pela manhã me olhei no espelho e notei que meus lábios e o interior de minha boca estão ficando amarelados. Pensei, estou enferrujando.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s