Coisas da vida

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Lima Tomot estava depressivo, tinha medo de comer qualquer coisa sólida. Por algum diabo acreditou que sua garganta era demasiada fechada para a passagem do alimento e acreditava que iria morrer engasgado. No entanto, sobrevivia com líquidos e a cada dia estava mais fraco e abatido. Isso não justificava sua depressão, mas alguns afirmavam ser o fator principal dela. Ele, logicamente, discordava. Ficou assim desde que descobriu que seu sobrenome escrito de trás para frente seria a mesma coisa. Incorporou isso ao seu psicólogo como uma representação natural da mesmice em sua vida.

Dr. Allan, seu psicólogo, por sua vez o aconselhou a fazer exercícios, pois julgava que ao fazer atividades saudáveis iria se sentir saudável e, no mais, teria fome. Acreditava que Lima seria vencido pelo desejo de comer e descobriria que não tinha problema algum.

Lima era um sujeito solitário como muitos outros que vagam pelo mundo. Na verdade, todos são solitários e fingem ter amigos a fim de ocupar o ócio que faz com que você pense, por exemplo, que sua garganta é fechada demais para a passagem do alimento. Mesmo sendo solitário, ele sempre afirmava ao Dr. Allan ter um amigo. Contava suas aventuras com ele e mostrava fotos dele sozinho em lugares afirmando que James, o seu amigão, estava com ele. James, segundo Lima, era um rapaz bondoso, mas tinha alguns problemas. Ele gostava de feijão com queijo ralado e não conseguia falar a palavra chupeta, achava ofensivo e sentia desconforto físico semelhante a um ataque de pânico.

Lima estava impaciente com o atraso do Dr. Allan à consulta, andava de um lado para o outro na recepção enquanto perguntava freneticamente a localização exata do doutor. Até que, enfim, ele chegou, Lima respirou fundo e estava mais abatido que de costume. Entraram na sala e Lima fez uma questão para o Dr. Allan. “Como pode a água ser formada por dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio, são substâncias inflamáveis, não é coerente elas formarem a água”. Lima afirmou que depois que descobrira isso não estava tomando mais líquidos, pois tinha certeza que os líquidos reagiriam ao ácido gástrico e o mataria por combustão instantânea. Dr. Allan sabia o que fazer, e deu um hamster de presente ao seu paciente. Lima jogou a caixa com o pequeno ratinho e perguntou em que aquilo ajudaria sua condição.

Apesar dos gestos rudes de Lima, compreensível pelo seu grau de estresse, Dr. Allan foi cordial e pegou a caixinha com o ratinho e colocou perto da bolsa de Lima e complementou, “duas substâncias inflamáveis gera o oposto de suas composições e sabe por quê?”. Lima não respondeu, mas ficou olhando com interesse para o doutor. “Elas não podem julgar umas as outras, elas não tem poder de discriminar suas competências, o homem pode ser um dia inteligente apesar de ser apenas racional por definição, não julgue o pobre ratinho por sua aparência, ele poderá fazer muito mais por você.”

Lima pegou o hamster, quieto,  agradeceu timidamente com a cabeça e saiu do consultório.

Naquela noite em que o ratinho estava com Lima seu apartamento pegou fogo, provavelmente ele deve ter deixado alguma torneira aberta para tal fato se consumar. De tão fraco e abatido que estava ele não conseguia se mover com sagacidade para fugir da fúria das chamas. Quando ele olhou para o fogo viu o pobre James morrendo queimado, tomado pelo desespero Lima comeu o ratinho vivo para ter forças para fugir. No final, ele conseguiu.

Por meio de uma carta deixada na caixinha do correio do consultório, Dr. Allan soube de todo o incidente que havia sido contado com detalhes por Lima. Dr. Allan leu apenas uma parte em voz alta. “Realmente perdemos muito tempo tentando ver sentido em algo que não faz sentido, afinal, é isso que define a vida.”

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