Catador de lixo

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Os dias que passam não trazem os porquês necessários. Sempre uma constante busca para alcançar algo que ao certo nem sabemos o que é. Estava cansado desta busca, estava cansado da teoria, estava simplesmente cansado de tudo.

Trabalho como lixeiro. Sim, um funcionário público, mas, obviamente, um emprego não fácil. Não classifico meu sustento como um simples catador de lixo. Eu acredito estar fazendo algo pelo mundo, esta é a causa que me faz levantar todos os dias e ir às ruas. Certamente não tive as oportunidades que pessoas com uma família estruturada e o mínimo de renda tiveram. Pouco tenho de alfabetização, cursei até a 4º série do primário. Depois disso, tive que trabalhar, era o mais novo de cinco irmãos, minha mãe se esforçou para me dar um destino diferente daqueles que a vida tinha reservado a eles. Em vão, mas hoje reconheço aquele esforço.

Meu passado simples e confuso, hoje, não me importa mais. Não quero me estender falando sobre ele. Foi difícil para mim e acredito que compartilhar isso seria tão penoso quanto regredir na linha da vida. Não que o passado seja algo irrisório. Simplesmente não tenho paciência para ele e de nada adiantaria fazer você entende-lo, já que nem sempre os caminhos que trilhamos são responsáveis pelos traços em nossa personalidade.

De qualquer forma, minha presença sempre se fez despercebida. Era do tipo quieto, não tinha muito que falar, as pessoas tendem a dizer sobre coisas que veem e o que meus olhos viam pareciam não fazer diferença para os ouvidos dos outros.

Mesmo trabalhando demais desde a infância, meu refúgio diário era os livros. Desde que aprendi a ler não tirava os olhos dos livros. Isso porque a interação com o livro é sempre menor que em uma conversa. Não gostava de falar, minha voz não tinha nenhum problema que me envergonhava. Apenas não me sentia capaz de dialogar e os livros supriam minha necessidade de informação e, sinceramente, eram infinitas vezes mais ricos que os diálogos que eu ouvia.

Cresci, e consegui viver com o salário do recolhimento do lixo, com a função nobre de salvar a terra do lixo que ela mesma produz. Um trabalho digno e desvalorizado. Quando quiser menosprezar uma pessoa, chamando-a de incapaz, chame-a de lixeiro. Porém tem coisas que aprendemos em nossas profissões que são únicas do ofício. No lixo entendemos o quanto o ser humano é sujo e é possível até definir a personalidade de cada um, apenas vendo os restos, às vezes repleto de vergonha, que tentam esconder em sacolinhas plásticas, achando que ali o ciclo de sua vergonha ou prova de algum fato se extingue. Eu os vejo.

Chamo-me Ernest. Muito prazer. Lendo um livro estranho do Kafka sobre seus sonhos eu olho para o relógio. Em breve preciso trabalhar e ver mais a podridão ensacada em plástico com logotipos de supermercados e lojas, enquanto as pessoas estão no conforto de suas casas, gerando mais e mais lixo que irá me sustentar.

Coloquei meu uniforme, meu fone de ouvido e dei um beijo na minha mulher e nos meus filhos, que já estavam adormecidos. Há algumas pessoas simpáticas na rua, principalmente um açougueiro do “Belas Carnes” que, todas as noites, esperava o caminhão chegar para tirar o lixo e inclusive ajudar a colocá-lo no caminhão. Meus colegas de trabalho falavam apenas de futebol e mulher, o que não acreditava ser desnecessário, só achava que eles erravam na dose do assunto. Este açougueiro, Seu Jorge, pelo contrário, falava coisas interessantes. Meus colegas de trabalho o julgavam meio louco. Primeiro por esperar o caminhão de lixo, segundo pelas coisas que ele falava. Esta noite ele disse algo muito pertinente, disse exatamente minha percepção sobre minha função, o serviço social que executamos, meus colegas apenas riram. Antes de sair ele me entregou um saco plástico e disse “coloque isso no bolso e só abra quando chegar à sua casa, conto com você”.

Fiz o combinado, confesso que trabalhei ansioso para saber o que estava lá dentro, o saco estava bem fechado e parecia ter algum aparelho ali dentro. Neste dia trabalhei mais rápido e não fiquei muito tempo olhando o céu, como costumava fazer ao voltar para casa. De fato era um aparelho, ao chegar tirei um telefone celular do saco que tinha juntamente um bilhete. “Ligue agora para 6394-0440, temos um assunto importante para tratar com você Ernest. Até mais, Seu Jorge.” Pensei primeiro como ele sabia meu nome, depois resolvi ligar, não tinha porque não fazê-lo.

– Olá, Seu Jorge? Tudo bem?

– Estava esperando sua ligação – disse com a boca cheia, parecia mastigar biscoitos – temos planos para você, mas não posso tratá-los por telefone, precisamos marcar algum horário.

– Planos? Que tipo de planos? Não vou me encontrar com o senhor sem que eu saiba.

-Você vai sim, eu te conheço. Esteja às 15h aqui no meu açougue, chegue pela porta dos fundos ok.

– Seu Jorge, por favor, você poderia me adiantar…

– Até mais Ernest.

Ele desligou. O que estava acontecendo? Ele disse que me conhecia e falou no plural, ou seja, era um grupo, alguma seita, ou sei lá.  Resolvi ir ao encontro, não teria nada mais importante para fazer e, além do mais, estava um pouco cansado da monotonia da vida, resolvi ir e já aproveitar para devolver o celular.

Pontualmente, às 15h bati levemente na porta dos fundos do açougue “Belas Carnes”, o próprio Jorge abriu os fundos com um sorriso contagiante. Parecia feliz com minha presença, aquilo me agradou, já que eu não tinha amigos. Ao entrar pude ver mais dois homens mais ou menos com minha idade, uns 34 anos no máximo. Eles se apresentaram, um como “Mosca” e o outro “Ligeiro” e eles me chamavam de “Catador”. Não me incomodei com o apelido, e logo quis saber o motivo, quis saber o quais eram os planos. Seu Jorge me explicou.

Eu tenho este açougue, o Mosca é eletricista e o Ligeiro é técnico de informática, ainda tem mais algumas pessoas que você precisará conhecer, mas, para adiantar eu tenho um dom especial em conhecer as pessoas, meus olhos quase tudo vê e eu vi você. Realizamos um trabalho como o seu, mas não somos remunerados com dinheiro e sim com consciência. O que isso significa? Recolhemos o lixo da sociedade, pesquisamos pessoas e nos encarregamos de dar uma lição para ela de acordo com as atitudes. Nosso critério de avaliação? Meus olhos, que sempre será igual sua opinião sobre o assunto. Pode parecer estranho você ouvir isso agora, mas eu garanto que irá concordar. Você mais do que ninguém entende o que é ser renegado pela sociedade, você vive isso todos os dias na rua, e você também vê coisas que as pessoas não querem ouvir, o que queremos é limpar a sujeira.

Todos ficaram em silêncio, estavam esperando minha resposta. Claro que eu estava cheio de perguntas, o que eles faziam, matavam pessoas? Questionei quais eram os métodos que eles usavam para “dar uma lição”. Seu Jorge entendeu minha pergunta.

“Não matamos ninguém, não somos criminosos, nós simplesmente aceleramos o fluxo natural do ‘aqui se faz aqui se paga’, acreditamos que Deus está muito ocupado com o mundo todo, ou então, ele está morto, de qualquer forma não queremos depender apenas dele para sobreviver, se Ele nos fez com inteligência, certamente é para não ficar sobrecarregando o trabalho dele, deve ser chato ter que pensar em tudo.”

Ainda me sentia inseguro, mas antes que eu dissesse, Seu Jorge comentou isso e disse que para eu ter segurança neste trabalho paralelo eles fariam um “Doc” comigo. Doc era o termo que eles usavam para a aplicação desta lição, consistia em uma pesquisa sobre a vida de algumas pessoas e depois um plano de ação para que elas paguem por suas atitudes erradas.

Tudo bem. Havia topado. Senti uma intenção positiva naquilo tudo e realmente estava entediado de tudo. Jorge me deu um beijo no rosto e disse bem-vindo, completou dizendo que eu não iria me arrepender, que os olhos dele via isso em mim. Fui para casa, pensando que merda era aquela que eu me envolvi.

Talvez agora, eu possa realmente acreditar que estou fazendo algo pelo mundo além de retirar o lixo dele, esta poderá ser a motivação que me faz levantar todos os dias e ir às ruas.

Eu não estava dentro de algumas especificações, internet, por exemplo, era o principal meio de contato entre as pessoas, eu nem tinha computador, quanto mais a tal internet que sinceramente nem sei mexer. Seu Jorge disse que isso não seria um problema, pois eu podia acessar as informações lá do Belas Carnes, na verdade, ia todos os dias lá e me informava sobre os passos da organização. Num desses dias perguntei se havia algum nome e foi me explicado que nomes não eram importante ali dentro, o que precisávamos era executar, por isso eu era chamado de Catador e Seu Jorge provavelmente não era um nome verdadeiro.

A primeira missão era uma mulher, dona de empresa que era uma bela de uma sacana. Sim, desculpem minha língua, mas vendo os arquivos era clara a ambivalência da personalidade da mulher com o nome de Stefani Barros, dona de uma linha de perfumes de médio porte. Para começar o dinheiro que ela juntou para abrir a empresa foi fruto de alguns processos trabalhistas sobre uma grande empresa e que ganhou de forma fraudulenta. Não obstante ela fazia dos funcionários de gato e sapato lá dentro da empresa, salários miseráveis e falsificava diversos documentos e licenças.

Esta ganância sem igual seria desmascarada, o plano era simples, alguém iria trabalhar lá e buscar evidências de todas as informações que recolhemos, já juntando munição para o ato final.

Esse alguém que trabalhasse lá iria provocar a revolta nos funcionários que iriam processá-la em massa, o que fatalmente atingiria os negócios da empresa. Neste ensejo, desmascararíamos diversas irregularidades e, muito provavelmente, a empresa viria a falir. Nossa organização tinha um plano de contingência para abrigar estes desempregados, tudo funcionava por meio de contatos, e já tínhamos conseguido remanejar 90% dos funcionários da empresa em outros setores. Estes mesmos contatos existiam dentro da polícia e alguns escalões mais altos da justiça, o que nos ajudaria nosso plano.

A metodologia era muito boa e extremamente estruturada, Seu Jorge já havia mostrado antes que é um mestre em na retórica e persuasão e ele mesmo se ofereceu para executar o Doc.

Dia após dia as etapas eram cumpridas, entrevista, efetivação do cargo e a persuasão dos funcionários. Lá dentro Seu Jorge descobriu mais podres e desconfiava que Stefani teria percebido algo. Se errar é humano, logo as falhas só poderiam ser humanas, assim como avassaladoras porcentagens em acidentes aéreos e de trânsito que comprovam com índices o provérbio citado. Alguém tinha dado com as línguas nos dentes, alguém lá de dentro, uma pessoa talvez mais gananciosa que a própria Stefani querendo tirar proveito e benefícios da ocasião. Estávamos nos últimos passos para o golpe final e todos estavam nos fundos da Bela Carne, porém, Seu Jorge, ainda não tinha voltado do trabalho.

O atraso preocupou todo o grupo, pois sabíamos que Seu Jorge sempre fora muito pontual. Tentamos ligar para seu celular e o mesmo encontrava-se desligado. Eu e mais dois do grupo estávamos nos preparando para ir até a empresa de perfumes a fim de colher informações, mas, antes disso, um carro preto e sem placa entrou nos fundos e ficou parado. Os vidros eram tão escuros que não podíamos imaginar quem ou quantos estavam lá dentro. Olhos atentos. Não tínhamos armas. Será que Seu Jorge tinha sido pego?

As portas se abriram, de lá saíram dois homens e uma mulher, era Stefani. Ela perguntou se ali era o circo do Seu Jorge. Entreolhamos-nos sem saber o que fazer, ao fundo, a voz de Seu Jorge ecoou dizendo “opa, seja bem-vinda senhora, é aqui sim nosso circo”, ela ficou visivelmente espantada e nós sem entender nada.

Ele veio andando e pediu desculpas para a gente sobre o atraso. E ela perguntou aos berros, “Por que você não está morto?” Jorge riu, olhou todos ali reunidos e comentou.

Realmente é complicado, estamos dentro de um círculo vicioso que não temos mais saída… Ernest, sinto muito, não foi dessa vez. Foi seu primeiro Doc e gostaria que tivéssemos conseguido mais esta. De qualquer forma isso serve para que vocês não percam a esperança, pode haver no mundo milhões de pessoas como esta senhora e seus capangas, mas eu reuni todos vocês, gente de bem, dispostas a ajudar sem remuneração alguma, por tédio ou por benevolência, não importa, querem mudar. Todos vocês vão acordar e não será o dia que é hoje, vocês não saberão o que foi real ou não, mas na dúvida, acredite. Eu já vim outras vezes para cá e sei que sempre é igual.

Acordei, a primeira coisa que fiz foi olhar no relógio e perguntar que dia era aquele para minha mulher, que sonolenta disse a data, que era aquela em que conheci Seu Jorge, fui até o Açougue Belas Carnes e as pessoas disseram nunca ter trabalhado alguém chamado Jorge lá e que eu já era o quinto que tinha ido naquela semana perguntar sobre este homem.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Já pensou em escrever um livro sobre esta história? acho que vai longe…

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