Despertar

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Primeiro aquele gosto amargo na boca, você não percebe, mas fica com cara de nojo tentando salivar a falta de saliva. Meus braços estavam dormentes, comecei a pensar nas enzimas e na minha corrente sanguínea, que corresponderia à segunda guerra mundial na Alemanha. Escutei a voz do Tom ao fundo dizendo que era disso que eu precisava, encontrar meu destino. Mas que merda era essa, eu estava morrendo porra, me ajuda. Quando se está dopado, não se tem controle da língua, com isso, você não consegue se expressar direito. “Be maduba”, eu disse, mas queria dizer “me ajuda”. Escutei pessoas rindo. Enquanto em meu cérebro, os receptores pré-sinápticos estavam sendo bloqueados da dopamina, aumentando sua concentração na fenda sináptica.

Vamos ao começo. Eu nasci e desde então não sei qual meu objetivo no mundo, não sei se serei um super-homem ou então serei um vilão, talvez um figurante, enfim, não tinha objetivos e resolvi viver atrás do meu destino. Para isso comecei a viajar e me virar, não era um mendigo, eu tinha boas reservas e um patrocínio familiar, o que não fazia de mim um idiota completo. Dormia em pensões e vivia no submundo, queria sentir a realidade e entendê-la, porque assim, eu poderia definir meu destino.

Conheci muita gente, fui em diversos lugares e confesso que o mundo em suma está dominado pela crença burra. Todas elas pensam de modo similar e têm os mesmos desejos. O jeito que elas falam também, sempre familiar. Numa dessas conheci Tom, o cara mais invejável do universo. Tinha tudo e todos aos seus pés. Comandava um movimento estudantil que faria um grande sucesso em suas mãos, Todos queriam ser como Tom e ele foi com minha cara. Eu trabalhava numa lanchonete no centro escuro de São Paulo, entre as ruas com mendigos e prostitutas que disputam o espaço com marginais. Eu gostava de escrever poemas e sempre quis terminar meu segundo livro. Pensando bem, qualquer pessoa que enfrente o centro de São Paulo como rotina é um poeta frustrado e tem um livro para terminar. O contraste sempre é uma ótima forma de causar sensações. Uma vez, em meu trabalho Tom leu um rabisco meu deixado acidentalmente sobre uma mesa e me perguntou se tudo que eu escrevia tinha seu fundo de verdade, respondi que não podia escrever tão livremente assim, e além do mais, os pensamentos, em algumas pessoas, são sinceros demais e por isso não é um veículo de comunicação.

Tinha minhas opiniões sobre Tom, particularmente pela minha forte tendência em prejulgar pessoas. Aprendi a ser analítico e observador, impossível controlar o fluxo de conceitos ao ver situações. Tom me convidou pra ir na casa dele que teria uma puta festa. Repeti, puta festa e ergui uma das sobrancelhas, ele repetiu e disse para eu ir, que lá eu acharia o grande sentido de existir. Anotei o pedido de um pão na chapa, uma coca-cola zero, um maço de Lucky Strike red e o endereço da casa dele.

Não tinha nada a perder em ir à puta festa, no máximo vomitaria algumas vezes e voltaria para minha casa, gostava observar pessoas em público, estava decidido, eu iria. Cheguei no apartamento que parecia uma casa noturna. Todos os cantos eram desenhados, iluminação bem sutil e frases que diziam de “Sorria, você será enforcado” à “A verdade está na perda dos valores da alma”. Havia algumas pessoas, mais ou menos umas 10, parecia cenário de festa underground de Londres, com  direito a som estranho e tudo mais. Todos me cumprimentaram e foram simpáticos.

Era um bom lugar, mas eu me senti como um peixe fora d’água e tive vontade de me debater. Já me falaram que meu problema é querer sempre aquilo que não tenho, mas não entendiam que eu precisava de algo, de um pouco de fé, em qualquer coisa que seja e estava em busca daquilo.

A festa foi rolando e Tom baixou a música etherial para falar, aquilo parecia um ritual, todos o ouviram.

Tom disse que muitos de nós estávamos procurando nossos destinos, nossa missão na terra e que queríamos que nossa existência fosse lembrada além dos nossos familiares. Tom manejava bem as palavras, falou sobre nossa geração perdida em tanta liberdade de expressão e na verdade essa amplitude limitava mais e mais as pessoas. Ele tinha um plano, que considerava maluco, no fim tive que concordar. Seu plano era desenvolver o corpo, acelerar o processo de evolução e ele tinha um composto que proporcionava aquilo. Tudo muito maluco, não vou acreditar nesse retardado que acredita ter a fórmula para acelerar um processo de milhões de anos em alguns minutos. Tom citou meu nome e de mais duas pessoas. Nós tomaríamos o composto. As pessoas aplaudiram, a puta festa se transformou num evento.

Acabei tomando, não tinha nada a perder e a morte nunca tinha sido uma ideia absurda para mim. Era um comprimido, azul quase fluorescente. Fui o terceiro a tomar e devo confessar, há tempos não paro para pensar exatamente o que sinto. Foi como abrir o terceiro olho. Lembro-me aos 13 anos quando confessei a um diário meu plano de vida. Aquele único canal era o que fazia com que minha cabeça não explodisse dentre as várias situações que se experimentam com esta idade. Muitos estudiosos afirmam que a personalidade do ser humano é formada principalmente no crescimento, talvez tenha sido daí que surgiu o provérbio “a primeira impressão é a que fica”, pois as coisas que lá enfrentamos servem de base para tudo que passaremos na vida. Acredito na probabilidade como doutrina universal, acredito na associação e, às vezes, acredito no acreditar. Acontece que não me lembro da minha infância de forma clara, para mim, aparece pequenas partes e fragmentos. Isso foi algo que sempre achei estranho, minhas próprias origens. Agora, minha mente era como este diário de quando eu tinha apenas 13 anos, que foi deixado de lado desde que descobri a música como válvula de escape.

Aconteceu por bem, meu diário foi lido antes que meu plano se concretizasse, minha mãe leu aquelas páginas que hoje estão em minha mente e leio com atenção.

Primeiramente, como eu escrevia mal e quantos erros de português aquilo tudo tinha, mas vamos considerar a idade e a despretensão em escrever, aquilo era expressão pura, sem formalidades, tão puro que parecia uma conversa comigo mesmo.

Posso lhe contar o que os deuses conversam no universo, ou cantar uma canção no espaço, é como andar com uma lança atravessada em seu peito e ninguém se importar, lá tinha tudo isso.

Sinto como se minha alma voltasse a ser o pequeno autor daqueles textos puros e pesados, querendo se transformar no medo para afastar as pessoas, quando na verdade tudo o que ele queria era proteção.

Lembro de minha promessa. Em viver, prometi ser feliz e não ter medo, desde então minha vida se transformou de tal modo que pouco ou muito restou daquele garoto. Ele tinha um corte no coração e dali nasceu um desejo de alimentar aquele pequeno buraco negro com coisas que pudessem fechar aquela ferida. O mundo é muito rápido, deixamos tantas coisas para trás e percebemos que voar com medo é muito difícil.

Agora este garoto está experimentando a vida e tentando encontrar algo para acreditar, algo verdadeiro. Às vezes ele ainda deve sentar no quarto escuro para tentar entender as coisas e o funcionamento de tudo, ele não é curioso, ele simplesmente não é daqui. Desde sempre tentando se adaptar onde não há estabilidade, como se o oxigênio sufocasse seus pulmões, um entrave da evolução, este garoto anda por aí cheio de sonhos que o dia a dia irá matar.

Olhei bem nos olhos de Tom e vi o estereotipo do ideal, disse com a mais sincera convicção: A ignorância é uma benção, mas a percepção é um infinito de analogias.

Depois disso o gosto amargo na boca e, muito provavelmente, eu teria um ataque isquêmico transitório. Comecei a suar, meu corpo não estava aguentando a quantidade de detalhes que o mundo tem e o quanto eles se encaixam formando algo simples. Depois disso apaguei, por mim, ficaria por lá.

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2 comentários Adicione o seu

  1. dameianoiteasseis disse:

    Opa,
    Sou Will, do blog Da Meia Noite Às Seis. Eu estava em férias e vi seu recado no meu blog recentemente.
    Valeu, cara, você me deixou feliz.
    Parabéns pelo seu blog também.

    Vamos nos falando.

  2. O legal dos seus textos é que eles são longos, mas não cansam. É tipo quando você enche uma tigela de sucrilhos e, em menos de 5 minutos, já comeu tudo quase que sem querer.

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