A velha

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A velha sentada na porta de uma casa tão velha quanto ela era uma cena assustadora. Sempre rola mitos de velhas loucas com tendências para a bruxaria que podem te levar a outras dimensões numa cidade do interior. E lá estava eu, pronto para ir. A caixa de correio era uma formação de metal enferrujado que parecia um castelo antigo, mas disseram-me ser um passarinho. Me aproximei meio sem jeito, querendo uma reação da velha louca para saber como proceder. Em uma cadeira de balanço, nada mais sugestivo para uma clássica cena bizarra, a velha estava sentada com um vestido velho, como ela e como a casa. Suas rugas lhe tiraram a expressão que pode denominar-se humana, sua idade era um mistério, todos que estavam na cidade, quando chegaram já a viram por lá. Ao perceber minha aproximação ela simplesmente olhou para cima e pausadamente inspirava com força o ar, como se tentasse sentir meu cheiro. Eu ergui a sobrancelha e fiquei admirando ato tão instintivo. Fez um movimento brusco com a cabeça e quase vociferou um “quem é você”, olhando com hostilidade. Cena digna de filme de terror, mas fui rápido na resposta, diga-me a senhora quem é, pergunta complexa, não acha? Ela me respeitou nesse momento e vi a hostilidade se transformar em seriedade, seus olhos penetraram nos meus por algum tempo que não posso dizer ao certo, só sai daquilo quando ela disse “você não tem cheiro, o que você é?”. Ok, ela tinha um bom olfato, eu não uso perfumes e gosto de não cheirar nada, uma vez li sobre isso em algum lugar, que ao se perder numa mata, raspe seu corpo nas folhas, a ausência de cheiro vai dificultar que você seja encontrado por algum animal feroz, onde eu lia, ainda dizia, que num encontro os animais tendem a ter medo daquilo que não consegue sentir o cheiro. Besteiras, mas nunca se sabe quando irei me perder numa mata. Fiquei olhando a velha e disse que era como ela. Gosto de respostas à Hannibal Lecter, sempre usando aquela psicologia de revista, mas “super interessante”. Novamente fui pego no olhar dela, suas rugas impediam de ver seus olhos. Só era possível vê-los quando ela arregalava-os de forma assombrosa, eis aí a hipnose. Ela mostrou suas redondas pupilas negras, negras como o mais puro negror dos tempos. Se você prestasse bastante atenção você poderia ver reflexos de coisas que não passavam na frente de sua retina. Eu as vi.

Seu corpo se moveu da cadeira, sua vista se escondeu em suas rugas, o ranger da cadeira parecia uma fúnebre sinfonia, tive dúvidas se ela fazia de propósito. Assumindo sua forma corcunda e de cabeça baixa, por traz de suas cãs avermelhadas, ouvi sua voz sussurrar algo, eu não tinha entendido, mas não me aproximei e resolvi perguntar o que ela havia dito. Sua voz metalizada, como se suas cordas vocais estivessem tempo demais sem uso repetiu, mas para mim ainda não fez sentido. Me aproximei, bastante, e perguntei o que era. Uma força bruta me agarrou pelos ombros, nunca imaginei que braços tão velhos teriam tanta força, sua cabeça levantou como de um manequim ou cadáver, vi em suas pupilas pretas, nelas eu saltava de espaço em espaço em um lugar envolto pelo nada. Surgiram fumaças, que tinham formas humanas e dançavam pra mim, aquilo era confortável, fiquei assistindo, as formas humanas aumentavam e eu começava a ficar sem ar. Tudo escuro, um calor crescendo no peito e percorrendo as veias, como se o sol tivesse aberto um chakra secreto, aquilo doía. A velha me empurrou e eu voltei a mim. Vá, você já sabe tudo. Agradeci, acendi um cigarro e voltei pra casa.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Liberte-se, meu amigo. Seja na dimensão da velha ou não.

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