Releitura

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Abri os olhos preguiçosos naquela manhã de segunda-feira, o despertador tocando lembrava os compromissos e o mundo lá fora acontecendo enquanto o repouso era proposto. Estes são momentos em que não há escolha, você precisa levantar e, como diria minha mãe, cuspir. Tenho um emprego, um bom emprego, considero um bom emprego qualquer lugar em que as pessoas te respeitem, além de tudo, gosto do que faço. Trabalho em um jornal. Sou um adaptador de classificados. As pessoas mandam seus bens de forma confusa, na verdade, elas falam de forma confusa, o meu trabalho é tornar o que elas falam coerentes para que outras pessoas que queiram aquilo que é ofertado possam entender. Um trabalho nobre, dizem que sou o melhor no que faço, claro que minha profissão não tem uma perspectiva ampla de futuro, mas eu gosto de transcrever. Adoro repetições, adoro releituras, adoro dar replay em uma música por 100 vezes. Quando criança meu semblante era quase sempre de dúvida, não entendia bem as necessidades das pessoas. Cresci de forma saudável até, tive experiências interessantes e elas me ajudavam a readaptar, então mesclava bem meu trabalho com minha vida.

Foi então que tive a ideia de usar este dom para auxiliar pessoas e ganhar uns trocados a mais. Coloquei um anúncio simples no jornal dizendo “Encontre sua verdade com a adaptação”. Deu certo, pessoas ligaram curiosas, sempre fui um sujeito muito direto, pra mim as palavras eram mais secas e diretas, percebi que isso ajudava bastante muita gente. Pra mim, não importava que havia sabão demais nas minhas mãos, que deixou ela escorregadia, fazendo o atrito da minha pele e do vidro do copo ficarem comprometidos, o fato era, o copo quebrou. Tem gente que demora um pouquinho pra perceber um fato. Expliquei isso para as pessoas e gostaram, comecei a marcar encontro, em locais públicos e pessoas passavam tarde contando sobre a vida delas, algum intelectual escreveu algo semelhante que pude reparar. Você pode manter uma conversa por horas quando o assunto é a própria pessoa. Bem real, mas friamente analisava e falava na lata, sem rodeios “você mente pra você mesmo”, “Não, ele não te ama, você está sendo enganada”, “pra você é cômodo justificar sua dor pelos outros”, e coisas do tipo, algumas pessoas não voltavam e não me procuravam mais, mas a verdade é realmente ofensiva em alguns casos.

Não era preciso muito para acertar em todas, era só prestar atenção analítica nos detalhes a maioria dos problemas pessoais tem como causa as próprias pessoas. Aponte-os e pronto. Você criou mais meia dúzia de problemas pra pessoa se preocupar, ela esquece os outros e vai correr atrás desses, a maioria vai feliz com as novas notícias. É interessante.

Num desses encontro encontrei Lucas, um cara diferente. Ele não conseguia dormir, ficava por horas na cama tentando relaxar, mas parecia impossível, sua cabeça era uma metralhadora de pensamentos que gritavam a noite inteira com ele. O sono tinha dado lugar ao cansaço, dessa forma ele nunca encontraria Morfeu e não teria forças para sair dali fazer algo produtivo. O jeito que ele encontrava era pensar, repensar, encontrar respostas para aquilo que não devia ter explicação. Do mais simples ao mais complexo, ele mesmo percebeu que muitas vezes não correspondia às expectativas das outras pessoas, que talvez não soubesse se expressar bem, ou então, que simplesmente estava melancólico. Pelo que saquei o cara é uma espécie de centralizador, se sobrecarregava com tudo.

Lucas já estava velho, tinha seus 35 anos e por mais que dissessem que ele não era velho ele se sentia um senil. Ninguém com essa idade tinha uma vida como a dele. Ele dizia que sua vida aconteceu, por isso hoje não tinha histórias para contar. Segundo ele, cada dia é um capítulo de um livro de contos. Não pense você que Lucas era um aventureiro, ele era simplesmente um cara normal, como eu e você. Rotina, horários, compromissos, contas, endereço fixo, celular e até escova de dente ele tinha. Mas não o bastante para construir uma história com enredo complexo, com diversos personagens que interagem a todo o instante. Lucas era esporádico. Nada podia parar, ele queria sentir cada segundo do mundo, talvez por isso ele nunca conseguia dormir direto, apagar. Isso lhe deu belas olheiras que eram admiradas de longe. Se fizessem uma caricatura de Lucas, com certeza as olheiras seria um fator determinante de identidade. Sua ânsia em viver o mundo a todo instante beirava ao absurdo. Marcava compromisso consigo mesmo, pagava serviços que entregava documentos em sua casa, mandado dele para ele. Enviava os afazeres do dia por correio, sua caixa sempre esteve lotada. Lucas ainda criava pequenas missões, como um dia inteiro de reuniões com ele mesmo em diversos lugares da cidade. Tudo com hora marcada. Sua cabeça ia explodir se não fizesse isso, ele tinha certeza disso. Muitas pessoas passavam pela vida dele, mas por alguma magia do espaço elas escapavam, não tinham paciência para submergir-se a sua verdade. Sim, verdade, Lucas era extremamente verdadeiro, autêntico. A boa índole do rapaz tinha um motivo, assim como ele, muito lógico: a praticidade. Chegou a criar encontros que lhe renderam boas amizades, com pessoas assim como ele. Pessoas simplesmente entediadas querendo viver e não existir. Lucas reunia pessoas que nunca se viram antes e ordenava que se embriagassem, todos bebiam, inclusive ele. A justificativa era que bêbados não conseguíamos formular pensamentos complexos, portanto apenas diriam a verdade, que além de simples é importante, a mentira é elaborada e vaga.

Ele acredita que o mundo é um grande catálogo de significados e destinos, por mais ambíguo que o mundo fosse, o senso comum sempre tinha vantagem nas teorias.

Não tenho personalidade, muitas vezes você ouvia isso de Lucas. Para ele, suas reações eram na base do comportamento, não esperava nada além do que lhe ofereciam e na mesma proporção ele direcionava a atenção às pessoas. Eu não entendi o que ele queria de mim, perguntei qual era o problema dele. O safado era esperto, disse que achou que eu era igual a ele e disse para eu dizer qual era meu problema. Tinha sacado a similaridade da visão prática, devo ter ficado em silêncio mais tempo que devia, Lucas deu leve tapas em minhas costas e disse pra que eu atrapalhava o processo de aprendizado das pessoas, que meu problema era basear tudo na simplicidade, disse que isso me limitava, levantou e disse para eu parar de colocar os outros na minha perspectiva. Saiu, me senti talvez como se sentiram aqueles que saíram das mesas de bar depois de conversas diretas comigo. Desde então, cancelei todos os encontros e nunca mais anunciei nada no jornal. Depois, convidei Lucas para uma cerveja, ele aceitou.

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1 comentário Adicione o seu

  1. louly disse:

    Escavando profundamente as entranhas de alguém, frio como um cirurgião?
    Doía, claro!
    E a dor não era apenas o chiado de uma roda…

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