História sobre uma história

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A palavra, desde o começo dos tempos, é aquela que traduz as imagens de nossas ideias, socializando-as e compartilhando-as com terceiros. A palavra é o bem mais precioso do homem, ela é quem melhor caracteriza a comunicação, o modo de interação com o mundo, permite que você leia o que escrevo agora e entenda. Exatamente isso me encantava, a transformação, como transformar imagem em som, como traduzir sentidos em fatos, a expressão. Por isso conto histórias para pessoas cegas. É um tipo de trabalho voluntário que gosto de fazer, ler para quem gostaria de ler, levar conteúdo e um pouco de ficção na vida escura dessas pessoas. Crianças era a maioria, no máximo adolescentes, as pessoas com mais idade que tinham esta deficiência não apareciam no centro educacional para pessoas cegas, era uma espécie de entretenimentos que alguns acreditavam que a idade não permitia. De qualquer forma era confortante, interessante e mágico ver como escutavam com atenção e faziam perguntas durante minha leitura, as crianças gostavam da minha voz, mais que a dos outros voluntários que liam para elas. Elas riam, pois eu fazia questão de usar diferentes entonações nos diálogos, dando ênfase nas expressões. Os horários não eram fixos, acertávamos semanalmente juntos, de acordo com os compromissos da vida pessoal de cada um, mas sempre houve muita vontade de ambas as partes, por mais que seja difícil conciliar o tempo, quando há engajamento tudo é possível. Naquela semana, tinha encontro com três jovens que já conhecia, Ana, Martheus e Cássia, as idades iam de 15 a 20 anos, e marcamos de nos reunir na quarta-feira, às 19h, um horário um pouco mais tardio do que estávamos acostumados.

O centro de jovens cegos era um lugar bem agradável, tinha salas imensas com grandes janelas que deixava a luz do sol sempre presente, mesmo que não vissem, as crianças sentiam e gostavam da sensação da luz. Devido ao horário não havia mais sol e a luz era artificial. Continuei a leitura de Dom Quixote de La Mancha, um clássico em 126 capítulos cheios de sabedoria, loucura, amizade e ação. Todos adoravam Dom Quixote. Enquanto lia para eles, algo aconteceu. Por algum motivo a força acabou em todo o casarão se estendendo até os quarteirões seguintes. Estávamos no escuro, na verdade, as crianças já estavam, enquanto eu me tornei mais próximo delas, compartilhando uma cegueira fria em meio à escuridão.

Ana me perguntou por que eu havia parado e então disse que a luz tinha acabado, e eu senti que ela apenas sorriu. Não acredito em acaso, acho que tudo tem uma razão de acontecer, neste caso eu não estava enganado, fui impressionado em meio a minha reflexão sobre a escuridão por um comentário intrigante: Agora que você não pode ler, conte sua história para a gente. Era a voz de Ana, os outros pareciam ter gostado da ideia, partindo do conceito de que quem cala, consente. Tentei esquivar, nunca fui bom em falar de mim mesmo, minha admiração pelas palavras tem um cerne. Eu não consigo dizer tudo o que sinto de forma clara, não que eu não saiba me expressar, mas sinto que todas as palavras do mundo não são suficientes para definir minhas percepções. Apesar da idade, Ana era bem esperta, muito mais que muitos intelectuais e estudiosos de hoje, o motivo disso era óbvio e nesta noite eu havia descoberto minha similaridade com eles e o porquê eu gostava daquela atividade.

Esquivei convidando a Ana a dizer um pouco sobre o dia dela, mas sabia que minha resposta era uma subestimação da inteligência da garota e de todos ali. Senti uma mão pequena e quente apertar meu braço, Ana me segurou e disse com a voz do anjo mais sereno do céu “Você tem medo do escuro? Não se preocupe, estamos acostumados com isso e estamos aqui com você”. O conforto daquelas palavras esquentou meu corpo como a sensação do sol que entrava pelas grandes janelas pela tarde, quando a escuridão não estava presente.

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