Manhã perfumada

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É, acontece que muitas vezes não há história. Não há aquele mundo novo de imaginações que a sua mente busca, em cima da lógica, da possibilidade e de todo o caralho de conceitos racionais com uma pitadinha de insanidade, caracterizando aquela individualidade singular. Não. Algo mudou. Um entendimento, algo que eu mesmo não consigo explicar. Mas sabia o motivo. Na verdade sou um sortudo. Um rabudo de cu cheio. As pessoas que se aproximaram de mim foram sob medida, tecidas, numa trama, num roteiro, uma grande vontade, um teste de determinação. Acima de todas as escolhas estava a vida numa linearidade, num objetivo simplesmente natural, e por isso, verdadeiro, e ainda, belo.

Naquela noite mantive meu corpo à exaustão. Fisicamente, psicologicamente, cansei todos meus sentidos a ponto de ser espontâneo. Uma luz com cheiro de flores apontou verdades e um novo mundo foi aberto. Isso não fará diferença nenhuma ser dita, pois é único e pleno. Seja como for, tomou forma única, era minha fé, era o melhor que eu tinha criado.  A vida mostrava a cada segundo sua resposta, e vi nos azulejos da parede no banheiro, durante o banho, aqueles desenhos antigos em formas circulares, bem clássico de banheiros. Diversas formas circulares num fundo branco, aquilo era o mundo, aquela era a vida. Círculos, num espaço conjunto, mas ainda assim círculos, que captam e projetam, num amplo espaço que responde a isso.

O dia amanheceu diferente, tudo tava diferente, com mais detalhes, eu sabia naquele momento que eu havia deixado uma monstruosa armadura naquela noite. Não era ruim, não era mesmo, mas podia ser diferente, como no jeito mais comum costumava ser, para as outras pessoas.

Com algumas moedas no bolso segui naquela rua úmida pela recente chuva, e fui dando passos em meio a poças que refletiam uma taciturna imagem. Sentei em alguma padaria, o casaco me sufocava, tirei, a garçonete veio sorridente, simpática, retribuí a gentileza no sorriso e pedi meu café, disse que precisava de uma xícara, rimos e ganhei mais um de graça depois. Eu estava ali, bebendo café e vendo a linearidade da vida, sozinho.

Enquanto tomava o café, uma senhora sentou ao meu lado, elegante, tinha anéis bem singulares, tinha classe também, era bem velha. Ela elogiou meu brinco, agradeci e começamos a conversar. Contei que escrevia contos e ela ficou interessada em comprá-los, tinha contatos, coisa de gente velha e com dinheiro. Por sorte tinha uma cópia de um conto, um dos bons, entreguei orgulhoso, ela me adiantou um bucado e pagou meu café.

Era um bom dia, ao contrário dos outros mais monótonos. Mas mesmo assim era tudo em cima do nada. Eu me sentia satisfeito, eu estava satisfeito com tudo, estava satisfeito com o nada.

Eu queria uma história, eu queria escrever, me emocionava facilmente, estava conectado às coisas. Mas nada, nada acontecia. Voltei pra casa, lembrei de comprar uma revista pornô e voltei pra casa. A verdade tem volume mais baixo que a mentira, por isso o silêncio é algo ameaçador, entrei no meu apartamento, na escuridão do fim da tarde, ainda estava claro, mas já estava muito escuro. Silêncio, os móveis, as coisas jogadas, tudo ali do mesmo jeito. Qual história vou tirar disso? Pensei baixinho.

O telefone tocou, era a velha, a da grana e anéis, conseguiu uma publicação, ganharia uma quantia interessante, aquilo era bom, era muito bom. Desliguei o telefone e olhei na janela e fiquei vendo as nuvens se movimentando, eu não estava completamente feliz.

O dinheiro caiu em minha conta como uma fórmula mágica, uma droga, saí pelas ruas me sentindo o pica grande, comprei tudo, comprei todos. Roupas, um óculos, meias, cuecas, entrava nas lojas já com o que queria em mente, tapetinho para a entrada da casa, uma xícara, alguns talheres, canetas novas, cadernos sem pauta e de tamanhos variados, pasta de dente, sabonete, demorava 10 minutos no máximo em cada estabelecimento. Aquilo era bom, tomei um café caro, comprei uns livros caros, e voltei pra casa, de taxi.

Era hora da reforma, tirei minhas roupas e fiquei nu escolhendo o figurino. Meia nova, cueca, camiseta, calça, estava impecável, completei o visual com o óculos novo e dei uma olhada no espelho. Mal me reconhecia, aquela calça apertava minhas bolas, a camiseta apertava meu pescoço, aquilo estava desconfortável, tirei tudo, coloquei de volta na sacola, coloquei minhas roupas antigas e fiquei lendo um livro até ter sono.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Leo disse:

    Como sempre, foda!

    Parabéns!

  2. Fi disse:

    Um final que completa seu início com uma surpresa agradável. Num sentido bom. É incrível como dá pra entrar nos seus textos e criar a cena na mente, a cada detalhe muito bem escrito. Isso é um bom texto. Parabéns meu velho!

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