Café frio

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A xícara de café já estava fria e Raquel olhava para o vazio, outras pessoas da elegante cafeteria já haviam notado sua presença, como era de se esperar pela beleza de suas formas, mas, mesmo assim, seus olhos fitavam o nada como se aquilo lhe interessasse mais que a realidade em sua volta. Alguém havia derrubado algo numa mesa próxima, uma xícara, um homem todo desconcertado pedia desculpas para a atendente que simpática dizia não haver problema. Foi assim que ela se deu conta do café que já estava frio, percebeu que tinha se desligado por demais em seus devaneios e resolveu levantar e procurar a livraria mais próxima. Era uma agradável tarde de sábado, onde o sol não era tão intenso, presa em seu apartamento o dia todo, ela havia decidido fazer a “tarde dela”, como costumava chamar. Respirar novos ares e fazer coisas que ela gostava independentemente de estar acompanhada de alguém. Jovem, bonita e inteligente, Raquel era uma bela mulher com apenas 27 anos e uma estressante vida como administradora de uma empresa. Raquel andava na rua como se desfilasse em uma passarela, porém não era prepotente, pois seus olhos estavam sempre voltados para baixo.

Ali sentado naquele café, Hugo viu aquela atraente mulher com um olhar pensativo, ele era impaciente e tentou de tudo para ser notado, colocou seu celular para despertar em dois minutos e conversou alto com alguém imaginário, tentou dizer coisas interessantes, na “ligação” ele indicava um filme para um amigo. Aquele inabalável olhar permanecia atônito e não se cruzou em nenhum momento com o seu. Resolveu quebrar um copo e se mostrar um “desastrado legal”, o que de fato, não era mentira. Ela olhou para a cena, mas não para ele, a formosa levantou-se com leveza e se dirigiu a saída. Hugo pagou sua conta com a garçonete e acabou dando dinheiro a mais, sem se preocupar com o troco. Hugo a seguiu, acompanhando seus passos firmes na rua. Raquel parou em frente a uma livraria, aquilo a tornara mais encantadora, já que ele mesmo era um grande amante da literatura, viu ali a oportunidade para começar um diálogo e, quem sabe, uma troca de telefones e e-mails. Para esperar a decisão da dama, Hugo comprou cigarros em uma banca que ficava em um local onde ele podia observá-la.

Grandes estandes de conhecimento, era assim que Raquel via uma livraria, pegaria emprestada a dedicação e sabedoria de alguém que teve a capacidade de escrever um livro. Resolveu suprir com consumismo cultural àquela tarde, uma atitude que ela julga como um bom egoísmo e também como uma terapia. Hugo correu, entrou na livraria e a viu na estante de literatura brasileira. “Droga, não é meu forte”, pensou. Apenas observou a delicadeza com que pegava os livros e com as unhas com esmalte azul folheava alguns deles, atenta, às vezes interessada, outras vezes lançando expressões de espanto ou dúvida. Estava quase desistindo, além de bela, aquela mulher era diferente, não olhava para os lados, não olhava para o mundo em sua volta, como se tivesse descaso com tudo ou fosse muito bem resolvida. Esta dúvida que lhe intrigava. Hugo olhou para si mesmo, sentiu-se aquém, sentiu-se tão medonho que achou melhor que uma mulher como aquela não tivesse olhado para ele. Raquel era do tipo cética, como se sua experiência expressasse toda a verdade da vida, aquilo não era verdade, ela sabia disso, mas Hugo percebia isso pela maneira com que ela andava, olhava e deixava de olhar. Foi quando percebeu outro rapaz olhando para ela, bonito, mais que ele, se sentiu ainda mais inferior. Diferente dele, o rapaz abordou Raquel e eles começaram a conversar, Hugo passou do lado dos dois como se estivesse indo para outra sessão e escutou ela dizer “Raquel, este é meu nome” e o rapaz respondeu de forma eufórica, “Sou Márcio”.

Poderia ser Hugo, pensou, andou e saiu em direção à rua.

Era mais um dia movimentado na cafeteria da esquina Martim Feire, pessoas entrando e saindo em busca de atenção, da cafeína. Hugo entrou e sentou no balcão desta vez, observou todo o local e todas as pessoas, para sua surpresa, Raquel estava ali, com o mesmo olhar vazio, procurando o nada, dentro de coisa alguma. Ele a chamou pelo nome, pelo menos por três vezes até que ela emergisse na realidade e olhasse para ele sem uma expressão definida, sem exaltação, sem curiosidade, sem expectativa, nem mesmo estranhou o fato dele saber o nome dela. Ele quis impressioná-la, abalar aquela fortaleza, ele sentia certa semelhança naquelas expressões, o peso que seus olhos, belos, porém cansados, tinham uma dose de experiência que ele acreditou já conhecer. “Sei que você está triste”, disse enfim, mas ela não respondeu, apenas continuou sem expressão, quieta, inerte. Ela sabia que no fundo aquilo era um tipo de atalho para que ele alcançasse sua vagina, ela acreditava saber das coisas, ele também. Raquel se animou, ou parecia ter se animado, pelo menos agora respondia as perguntas de Hugo, não que elas fossem interessantes, mas pelos menos, elas estavam sendo feitas, naquele momento, aquilo bastou.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Fantástico. Um dos textos seus mais simples e mais belo que já li. A simplicidade do “A vida é feita de oportunidades. Aquelas que escolhemos e as que deixamos de escolher”. E a simplicidade do seu final surpreendente, ao mesmo tempo óbvio.
    Gostei muito.

  2. Victor disse:

    Bem foda, posso dizer.
    Senti um toque pessoal na parada. Vai ver que é por isso que o texto saiu tão bom.

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