A condição do sonho é a mesma do pesadelo

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Pequena explosão. O mundo desde que é mundo é um fato inusitado permanente em direções infinitas. A loucura de um grande centro comercial de almas, vendendo todas suas particularidades, almas em pleno desespero pelo o abandono, por ter que emergir de uma zona de conforto e, então, enfrentar o coletivo, o mundo. Ninguém percebe, mas há uma pressão mortífera, como um choque que causa a ionização dos átomos e afeta todas as moléculas, modifica o DNA, algo como a radiação, que transforma, o bastante para perder a nomenclatura “natural” ou “íntegra”. Eis a mais atual peste de século, a perpétua ansiedade que impede, entre outras coisas, que você compreenda, o que quer que seja.

Num elegante apartamento de um grande centro, no meio desta realidade, vivia um estudante rapaz. Fred, um jovem que tinha cabelos enrolados e dourados com um rosto sorridente e feições angelicais. Aquele sorriso era apenas a fachada bem estruturada, equivalente a um prédio que tenha uma recepção maravilhosa e esconde corrupção em seus corredores.

Filho de uma família rica, ele fora para cidade estudar e se formar em medicina. Puro capricho de seus pais. O ócio é cruel e perturbador, ele sabia disso e fugia de forma desesperada dele, entre outras coisas, realizando o desejo da família em tê-lo como doutor.

Fred não poderia explicar, mas sentia uma melancolia sem sentido. Cercado de todas as regalias que um jovem da sua idade precisava, sentia-se um sortudo sem sorte. O que de fato acontecera com Fred para que ele tivesse a tristeza como companhia para seus pensamentos? Nada. Ele acreditava nisso. Nada acontecia, ele tinha tudo, todos seus sonhos eram alcançáveis, e toda a facilidade que o cercava era justamente o que fazia seu sorriso ser supérfluo. Seu sacrifício não valia o porquê de nada. Amigos, namorada, tudo numa harmonia assustadora. Fred nunca foi um rapaz sozinho, esta ideia sempre lhe assustava e por isso sua vida era cercada de pessoas, tinha pavor em deixar o eco gélido do silêncio da solidão tocá-lo e molestá-lo, como já fizera algumas vezes.

Cultivava uma obsessão por pássaros e os desenhava nas horas vagas, apenas pássaros, o que Fred queria na verdade era voar. Para ele o reflexo de sua alma ainda era um arqueopterix e pensar sobre isso era desconfortante.

A altura faz as coisas que estão em baixo pareçam cada vez menores, não que elas sejam menores, estão distantes e, portanto, parecem pequenas, perdem sua definição, mas estão lá. Quanto mais alto você for maior será a quantidade e menor será a qualidade de detalhes. Estar no alto é poder ver tudo, mas nunca pegar nada, como se aquela realidade fosse outra e você fosse mero expectador.

A vida fez com que Fred fosse subindo, subindo, até estar alto o bastante para ver tudo pequeno e sem definição. Sentir-se um nada, como reflexo de sua vida preenchida por uma matéria sem valor sentimental.

Errou de propósito, tentou seus limites de forma desesperada. Tentou cair. Quis encontrar no erro alguns motivos, mas isso tinha um gosto amargo de hipocrisia e o deixou exausto e sem forças. O que podia desejar se não um destino, um sentido, algo que pudesse se agarrar e prender seus pés na terra, tornando-o pesado demais para voar, pesado demais para ver tudo de tão longe. Suas pesadas asas sofreram 150 milhões de anos de evolução e tornaram-se tão leves que desejou arrancá-las.

No amor viu o peso que precisava para se estabilizar. Mas era demasiadamente tarde para ele tentar. Isso não era algo que se tentava e entendeu algumas limitações do sentimento e outras próprias. Novamente quis cair, mas o amor estava vazio demais para segurá-lo, não conseguiu voar baixo e perdeu um pouco da esperança.

Abandonado no mundo, de repente ele percebeu. Não era ele, não era nada, não era ninguém. Tudo que desejamos com fervor é desconhecido. O pobre que deseja ser rico não sabe como é sê-lo. Um jovem que sonha em ser um artista não sabe como é ser um. O que não é a vida senão uma eterna busca, por qualquer coisa que dê resposta para os segundos.

As respostas de Fred, para ele, sempre foram menos importantes que as perguntas. Esse vazio e solidão estavam com ele no alto, onde tudo era pequeno, onde ele era sozinho e impedia que ele ficasse motivado para qualquer outra coisa. Nada sentiria sua falta ali porque o mundo era algo que estava acontecendo, com ou sem você.  Perguntou para si mesmo como poderia cair, ser novamente um arqueopterix, mas, de verdade, não fazia tanta questão disto.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Como sempre um texto muito bem escrito. Muito bem elaborado, detalhado, com toda a minha admiração possível!

    “Abandonado no mundo, de repente ele percebeu. Não era ele, não era nada, não era ninguém. Tudo que desejamos com fervor é desconhecido. O pobre que deseja ser rico não sabe como é sê-lo. Um jovem que sonha em ser um artista não sabe como é ser um. O que não é a vida senão uma eterna busca, por qualquer coisa que dê resposta para os segundos.”

    O mais engraçado de tudo isso, é que é esse mistério que nos alimenta todos os dias!

  2. Alessandro disse:

    A grande entropia da vida… Ao ler seu texto veio a minha cabeça – quase que diretamente – as leituras que fiz de William Blake, ainda adolescente e sem entender muito bem o peso das suas palavras. Delas todas, sobressaíram duas. A primeira é: “If the fool would persist in his folly he would become wise.” A qual me segue e serve de amparo para todas as quedas que levo nesta vida e a outra diz: “Those who control their passions do so because their passions are weak enough to be controlled.” Ao contrário de Fred as minhas paixões correm soltas e espero que por conta disso, de tanto ser bobo, aprenda a ser um dia sábio e deixar de viver muito por poucas verdades.

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