Um cara cagado

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Parece que alguma coisa está errada, tá faltando alguém? Uma criança, um, dois, três, quatro homens, um, dois, três velhas, uma, duas… duas… duas mulheres. Falta aquela vaca de piercing. Grito para Tom, que cuida da porta para ver se chega alguém enquanto executamos o serviço. Tom se desespera e começa a berrar pela vadia que sumiu. Merda, estava tudo no controle! Tom tá uma fera, fica falando que vai esganar a vadia, mas tá com o cu na mão igual a gente. O pior que eu tinha ido com a fuça da desgraçada, quando entramos. Mas depois dessa, adoraria vê-la morta.

Tom volta vociferante, afobado, se engasga nas palavras. Humputa! Sumiu, puta! Diz ele enquanto baba a cada sílaba. Merda, pensei. Vamos vazar, gritei. Tom foi o primeiro a correr e enquanto o fazia ameaçava as pessoas a levar bala se levantarem. Sai por último, depois do Chris e Jhon. Ralf estava no carro, esperando a gente com a grana que tinha sido resumida a poucas bolsas das peruas. Entramos no carro às pressas. Vamos embora, falou Tom rapidamente. Aquela puta do piercing, lembra dela Ralf! Ce lembra! Tom se descontrolava. Mandei o Tom ficar quieto, eu tinha a fama de sabichão na turma. Expliquei calmamente o que aconteceu para Ralf, que suava e provavelmente desejava não estar ali. Jhon começou a traçar um plano de fuga, mas talvez estivéssemos um pouquinho atrasados.

Fomos interceptados por uma caralhada de carros de polícia, não dá nem pra contar, agarrei na minha arma e disse, vamos morrer. Chris sorriu, e me deu um bilhete e falou no meu ouvido que era para eu ler se ele morresse ou se eu conseguisse fazer algo antes de morrer. Guardei o bilhete. Disse que depois ele ia me explicar a brincadeira. Tom estava histérico e começava a me incomodar. Jhon havia mijado nas calças. Afirmou que se entregaria, acho que ele não dirá mais nada por um bom tempo. Tom mordia os lábios e dizia “Vamos lá, fazer reféns!” Chris, Ralf e eu estávamos pensando com como sair. Gritei para Ralf alguma coisa e ele disse que sabia. Carro em movimento e tiros. Senti cheiro de merda. Certeza que o mijão do Jhon havia se cagado. Eu estava realmente puto e assustado. Ralf do volante por um momento foi Deus, caímos num barranco, caímos bem, saímos do carro e nos escondemos no matagal que tinha ali perto.

Os caras eram rápidos, já estavam atrás da gente e tentavam impedir um tiroteio. Dava para ouvir a movimentação em cima e depois de um tempo aquela voz distorcida no mega-fone dizendo que era inútil fugir, que estávamos cercados. Mentira. Estávamos bem posicionados, numas vigas de concreto e um matagal bem alto. Tom havia sumido, Chris estava posicionado assim como o Ralf, Jhon estava cagado, no carro. Todo mundo parecia saber o que fazer, engatilhei minha arma, Chis tinha um sorriso no rosto e aquilo me animou, lembrei do bilhete, gritei para ele que ia ler, e ele riu. Ralf foi o primeiro, correu escutamos tiros, ele tinha conseguido ir um pouco mais longe que nós e entrava numa parte que dava para uns grandes bueiros. Dava pra entrar ali, abrimos fogo, eu e Chris, Ralf percebeu e se mandou. Não consegui mais vê-lo, estava feliz.

Era minha vez, Chris havia feito um sinal, dizendo da cobertura, me preparei e corri, muito, quase deixei minha arma cair, tiros e muitos tiros, alguns eu vi que passaram perto de mim, ouvi o grito de Chris, acertaram o braço dele. Foi o tempo que eu tive de olhar para ele, senti um empurrão no ombro para trás. Aquilo ardia, era um tiro, cai no chão. Conseguia ver Chris com o braço sangrando e sentado num canto onde não podia ser atingido, mas sangrava muito. Aliás, eu também. Comecei a ver tudo ficar embaçado. Lembrei do bilhete. Peguei do bolso e abri, os policiais não se preocupavam comigo.  Estava escrito: E o poeta perguntou para o sábio. Como é amar? Depois de uma dócil gargalhada ele respondeu. É fácil, tão fácil quanto mentir.

Chris não desistiu. Mas acabou morrendo na tentativa pouco inteligente de tentar atirar novamente contra eles. Eu perdia a consciência, mas tinha que ver Jhon. Olhei para o carro. Como eu pensei, dei uma risada que pareceu um soluço. O cagado, conseguiu fugir. Cagado!

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1 comentário Adicione o seu

  1. Alessandro disse:

    Um pé em Genet, outro na lama do dia-a-dia, socado com toda sua subversão na moralidade cotidiana. Como pano de fundo, amor ou a mentira dele. No fim, tudo é o mesmo. Para finalizar o elogio, nada melhor que roubar palavras do próprio Jean: “La violence est un calme qui vous dérange.”

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