A sabedoria do silêncio

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O silêncio é a ausência, a falta de algo que deveria estar ali. Alguns devaneios podem ir um pouco além, e dizer que silêncio é a morte. A vida é pulsante, emite som por natureza, o silêncio é gélido, obscuro e sinônimo de segredo. Jorge conhecia o silêncio e por sua vez concordava que esta ausência não permitia a vida, era como se a morte viesse dar o ar de sua graça em vida, era a união de dois mundos que ligava o individual do silêncio e o do coletivo, barulhento.

Jorge não gostava de barulho, às vezes achava que não gostava de pessoas, mas sabia que gostava, só se estranhava com elas na rua. Ele era misantropo e não antissocial. O misantropo tem aversão à socialização, o antissocial despreza a sociedade e são coisas bem diferentes. Jorge não conseguia conversar com as pessoas e preferia muitas vezes o silêncio. Tinha um problema em suas cordas vocais, sua voz saia de forma muito dificultosa, então ele usava mais gestos para se comunicar e, naturalmente, quase nunca falava.

Dizia-se compositor, mas não ganhava um tostão com suas músicas, tocava em bares durante a noite que pagava em álcool. Parecia justo para seu vício. Um amigo lhe dissera que era um anestésico social, desde então essa era a definição mais realista que poderia haver no universo. A percepção de Jorge era um mundo novo, dentro de uma silenciosa evolução ele acreditava estar em um caminho fatal, sua própria imersão. Um mundo surdo, uma realidade muda. Você ouve, mas não há nada para ouvir, e se pudesse falar, não havia nada a ser dito.

O silêncio faz com que os ouvidos da alma ouçam mais, com eles, pode-se ouvir umas 30 pessoas falando ao mesmo tempo. Por isso o silêncio é sábio, era o tom subliminar de uma vibração nula. Não que seja obscuro, apenas mais poético. O segredo está em não temer o silêncio, ele tem muito a dizer e isso pode assustar. Há uma lenda que diz que o homem só pode encontrar a verdade na vida com o absoluto silêncio, é o ápice do momento em que o homem interage com neutralidade com o ambiente e entende o motivo de tudo ser como é, seria este o estágio máximo do nirvana na meditação, por exemplo.

Eu estava entediado e há dias via essas pessoas naquele marasmo. Sabia da existência desse Jorge porque ele tocava lá e eu era um frequentador nato do local. Não ia diariamente, mas boa parte da semana eu estava por lá. Este bom relacionamento fez com que eu fosse íntimo, conhecia os funcionários e eles me falaram que este Jorge era um alcoólatra deficiente, que seu único remédio era a bebida.

O anestésico social, depois de tocar ele fazia questão de consumir seu pagamento. Tinha alguns amigos ali, que estavam todas as noites naquele bar. Um velho, mais bêbado que ele, um cara de terno que parecia um frustrado pelas olheiras, e um moço mais jovem que parecia um sonhador de tão desligado. Era um povo quieto e ninguém entendia aquela mesa, não se ouvia ninguém falar, apenas comentavam o básico, às vezes discutiam sobre bebida, mais nada relevante.

Um dia me juntei a eles, com meu conhecimento sobre o tal de Jorge e colocando uma garrafa de cerveja na sua frente me apresentei como amigo do cara da banda aos demais. Por sua vez, Jorge reagiu com uma expressão de dúvida e encheu seu copo esquecendo minha intromissão, sentei-me e todos me cumprimentaram com a cabeça, com um sinal afirmativo, demonstrando educação. Eu não sei bem o que me fez estar ali, talvez também tivesse passado da conta em minha dose homeopática, acendi um cigarro e tentei puxar assunto. Perguntei para Jorge, se ele achava isso contraditório, poder dizer tudo que sentia, se faria alguma diferença na mesa de mudos? Tive a atenção de todos, num momento me senti ameaçado, como um profano que tinha rasgado um dogma, ou um barítono destoante numa ópera.

O silêncio continuou, todos os olhares estavam voltados para mim e eu sentia seriedade aqueles olhos que me fitavam. Não eram ofensivos, eram quase que indulgentes. Levantei e tomei a bebida do deficiente, pensem, foi o que disse antes de sair.

Dias se passaram, eu não pude ir ao bar, compromissos, trabalho e um pouco de reclusão com falta de paciência lotaram minha agenda. Quando resolvi dar um trago numa noite em que havia algumas moedas em meu bolso, fui ao velho bar costumeiro e ao chegar tenho uma leve surpresa. O deficiente alcoólatra falava, havia diálogo e todos conversavam muitas coisas.  O velho não estava mais na mesa, talvez tivesse faltado ou não tinha se adaptado ao barulho do falatório, quem sabe a voz estranha de Jorge tivesse lhe irritado? Eu fui visto pelo grupo que logo me chamou oferecendo bebida para se juntar à mesa. Sim, surpresa número dois, gestualmente foi visível minha surpresa e riram de mim enquanto eu caminhava em direção a eles.

Sentei e perguntei o que havia acontecido com os novos oradores. Jorge fez questão de me explicar. Primeiro disse sim, à minha pergunta, depois, contou-me que o velho havia falecido, um belo dia não acordou, ele estava fazendo falta e foi assim que começaram a conversar para saber alguma informação do velho. Uma semana depois descobriram a morte.

Fez-se o silêncio, pareceu proposital, mas Jorge prosseguiu. Você tinha razão, estávamos fazendo errado, eu podia dizer, mesmo me envergonhando, mesmo me constrangendo por causa da minha voz, eu queria dizer, mas não disse, hoje nosso amigo partiu e não temos como falar para ele essas coisas. Aprendemos que o silêncio é sábio quando aplicado no momento certo.

Não era a resposta que eu esperava escutar, mas a vida está cheia de respostas que não queremos ouvir. O distraído parecia ter percebido que eu não esperava aquilo, porém estava satisfeito.  E ele comentou, você tem sorte em não precisar da dor para compreender as coisas.

Eles não me conheciam e ele havia errado em definir o que eu sentia. Eu tinha o silêncio na alma e de morte eu entendia. O ciclo ali começava de novo, o mesmo erro que eu cometi havia sido cometido. Todos aprenderam algo novo. Silêncio novamente.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Alessandro disse:

    Aldous Huxley dizia que “After silence, that which comes nearest to expressing the inexpressible is music.” Sigo estes ensinamentos e deste teu conto, veio a cabeça uma confição minha antiga feita em meu blog entitulada simLÊNCIO e ela diz assim: “O meu SIM é meu SILÊNCIO. Digo o sim quando não existe mais palavra para ser dita, argumento para ser vencido, batalha que valha a pena, luta que não seja vazia, guerra que não tenha solução. Querelas. Digo o sim para desaparecer, deixar de ser. Digo o sim para não gastar mais palavras, minhas tão caras palavras. Por que a vida não consegue ser mais cheia de jantares com risos soltos e no final – como sobremesa – o silêncio constrangedor dos elevadores? Tudo iria ser mais fácil, mais cheio de vida e – acima de tudo – mais cheio de barulho n’alma.”

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