Dor salva

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Hipócritas, medíocres e alienados, aqui quem vos fala é uma voz cansada de toda essa maldição, sou aquele que será símbolo de um sacrifício para um bem maior, como cristo crucificado, serei o Salvador.

Este era o discurso que o punho trêmulo de Bruno escrevia em um pedaço de papel, o grafite forçava a folha demasiadamente e ele achava que ainda não estava bom, amassou o papel e jogou para o lado, junto com centenas bolinhas que continham mini discursos de ódio.

Dia a dia o sol aparecia pelas manhãs e se esvaía no fim da tarde dando espaço para a lua. Dia a dia as horas tinham 60 minutos e o os minutos 60 segundos. Dia a dia a solidão fazia companhia para Bruno que religiosamente tomava uma grande xícara de café pelas manhãs e fumava um cigarro observando o movimento na rua. Dia a dia, todos os dias, a repetição que era uma tortura, e as pessoas eram distantes e frias, inconstantes, perdidas.

De toda a forma, a repetição era algo digno da admiração de Bruno. Ela poderia não ser agradável como seus dias que se arrastavam, mas era uma prova, era o ápice da tentativa humana de controlar tudo. Para controlar o tempo o homem criava a rotina, buscava transformar a linha reta e infinita do tempo em um círculo. Desde que o homem é homem ele tenta definir, classificar e catalogar tudo e todos e para isso a rotina surge para racionalizar o tempo, uma explicação, uma lógica, um berro de desespero no meio do nada, isso é a rotina, e ela é importante, até mesmo essencial, para ser quebrada às vezes.

Bruno era entregador de uma empresa de leite, tinha itinerário diário e não era feliz em seu emprego. Desde que lera a visão de Kundera sobre o homem ser um parasita das vacas na visão zoológica como um não-homem, ele acreditou que contribuía para um mundo que vivia sob uma perspectiva errada. Para ele, o gênesis era uma obra egocêntrica, e se fossemos semelhantes à divindade, ela só poderia ter vindo do inferno. Em busca da essência do homem, Bruno encontrou a desilusão, fruto de frustrações pessoais, sentia que era algo aprisionado no corpo de um homem, não acreditava ser um humano por julgar-se diferente demais dos outros, como se fosse um peixe que não soubesse nadar ou então um pássaro que desconhece o voar.

Como um personagem fora da concepção humana ele tinha uma visão sobre os homens, dizia que a humanidade não é o que acredita ser. Somos uma anormalidade para a natureza, uma espécie de macaco doente, esta era sua conclusão ao olhar a teoria da evolução, basta ver e verificar que o homem é uma patologia dentro da natureza. A antropogênese é erroneamente empregada, tanto que nenhuma outra espécie do planeta teve um quadro similar ao Homo Sapiens. Golfinhos têm cérebro desenvolvido, mas não tiveram uma espécie como a Homo Sapiens na cadeia evolutiva do macaco. Isso tudo gerava uma dúvida incrível. Levava a pensar se a capacidade de raciocínio é uma evolução, de fato.

Durante sua volta do trabalho, com um uniforme suado de carregar entregas em diversos lugares, Bruno olhava as pessoas na rua e pensava seriamente sobre isso. Para ele o objetivo das coisas eram coexistir de forma harmônica, manter o equilíbrio do mundo, a evolução do macaco arrancou isso. Bruno olhava os cães de rua e os viam abanar o rabo, demonstrando felicidade, com a mesma facilidade de um cão que mora numa mansão. Isso é evolução, enquanto nossa espécie sempre precisa ser feliz, precisa de algo, precisa de motivos e explicações, os outros animais apenas são, e nesta grande vantagem do mundo sobre os homens fica evidente que o que chamamos de evolução é uma doença, uma aberração. Por que somos a única espécie que vemos a felicidade como uma necessidade?

Seu plano era a grande mudança, a rotina rompida e seu sangue que escorre para corrigir a naturalidade das coisas. Bruno ensaiava a morte da grande rotina com o que o homem sabia fazer de melhor: o terror.

Como qualquer pessoa, a fé é o alicerce que sustenta e dá razão única à vida. Não há nada mais humano que acreditar em algo e fazer de sua vida uma missão. Não importa qual seja sua escolha: Deus, status, vícios, ou algo que o valha, todos nós seguimos nossa fé em algo. Bruno acreditava não ser da mesma espécie de que criticava, estava embriagado de sua fé em que era uma evolução, alguém mais iluminado, mas era mais homem que muitos homens. Ele buscava entender o porquê das coisas, será que realmente nada neste mundo tem explicação? O mundo simplesmente acontece? Bruno precisava de uma fé, um motivo, mesmo que esse motivo seja a falta de motivos. Qualquer coisa que preenchesse o vazio de sua consciência e ocupasse a linearidade do tempo para tornar aquilo uma rotina para que ele mesmo pudesse quebrar e sentir algo em sua existência anestésica.

Como um selvagem que queria provar sua existência, mostrando-a superior às outras, Bruno elaborou um plano. Com os olhos atentos à frente da loja, Bruno observa com atenção as crianças que escolhem doces em um fantástico display de guloseimas. Embalagens saborosas e cheias de cores vivas, um verdadeiro mundo de sabor e prazer. Bruno via a felicidade das crianças com olhos famintos. Enquanto ele mal piscava, as sinapses transmitiam seu ideal assassino. Há muito tempo Bruno planejava uma onda de envenenamento, pensou em contaminar coisas com uma substância letal como cianeto, oportunidade ideal para um distribuidor de leite, a vingança das vacas, exploradas com máquinas que sugam suas mamas dia a dia.

Litros e litros das tetas das vacas e de uma substância mortal abasteceram mercados de grande parte do estado onde Bruno morava. Neste mesmo dia, ele não foi trabalhar e não tomou o café e nem fumou seu cigarro observando o vai e vem de pessoas em frente à sua janela. Dia a dia ele planejava antes de dormir detalhes de sua fé. Dia a dia ele definiu a rotina para assim quebrá-la.

Arrumou a casa de modo exemplar, como se fosse receber uma visita importante. Se incomodou com alguns móveis de sua casa que pareceram antiquados para uma pessoa como ele. Em um embrulho de presente colocou folhas datilografadas, um volume extenso delas. Vestiu sua roupa preferida e ansioso se dirigiu para o local de seu encontro.

Ataque terrorista em metrô deixa 42 mortos e pelo menos 90 pessoas feridas. Foi a manchete dos principais veículos de mídia do Brasil. A identidade do terrorista estava em sua arcada dentária, o que mostra que ele queria ser identificado. Em sua casa foi encontrado um presente, onde um bilhete dizia “de: Bruno / para: Humanidade” escrito à punho. “Roda Las – V”, dizia o título, seguia com uma citação de Goethe: Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Leo disse:

    do caralho e/ou lindo.

  2. Filipe disse:

    É engraçado como seus textos me fazem pensar. Repensar a vida, atitudes e formas de observar.
    Excelente.

  3. Alessandro disse:

    Afinidades eletivas. Hoje, a dor eleita é aquela de viver. Do seu Goethe, busco em outro alemão – Hesse – a palavra para explicar a afinidade “Lebenskrankheit”.

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