Reencontro com a Alma

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Tive a impressão de ter perdido na trajetória desta vida insana o que chamam de alma. Ao certo para os mais atentos, que sabem que as palavras contêm mistérios e, dessa forma, duvidam da definição exata descrita em dicionários, todo o significado da nomenclatura é superficial demais. Seguindo esse roteiro de definição, perdê-la poderia ser um ganho, ausentar o corpo da alma, de alguma forma, poderia ser um fardo a menos. A conclusão de perder minha alma foi quando, contraditoriamente, pensei ter encontrado-a. Na profusão de tarefas imutáveis da vida, parecemos ser educados a deixar de lado nossa parte humana, pois como o provérbio já indica “Amigos, amigos. Negócios a parte.” Isso é tão intrínseco na cultura que penso que “fardo” poderia ser, erroneamente empregado, sinônimo de “alma”.

Era uma manhã ainda prematura quando minha íris insistiu em captar aquela luz que se mantém no equinócio do dia. Hesitante, tentei relutar contra a vontade, mas acabei perdendo. Era cedo demais para levantar e tarde demais para tentar novamente dormir. Fiquei parado olhando ao redor e vendo as sombras que aquela lânguida luz produzia nos móveis. Por fim, completamente vencido, resolvi levantar, ainda com passos falsos me deparei com aquela carta em que evitei reler, mas ela se repetia em minha memória como um mantra.

Não posso afirmar que era uma carta de amor, mas certamente falava sobre ele, de um modo assustador. Quão assustador? Imagine um homem primitivo vendo pela primeira vez um relâmpago. Aquilo seria assustador. Nesta carta o amor foi abordado de um jeito inédito à minha experiência. A realidade sempre fora um engulho e afronta à imaginação de poetas, filósofos, artistas e outros seres que demasiadamente são sensíveis a ponto de deixar seus sentimentos transbordarem sobre a lógica mundana. A arte torna-se um subterfúgio saudável e seguro. Por minha vez, eu tentava mesclar os dois mundos procurando a harmonia entre eles, procurava justamente o ponto de interlocução que há de existir. Sempre soube que meu corpo era frágil perto da intensidade da minha capacidade de sentir, então me policiar quanto isso era tão vital quanto o oxigênio para os pulmões. Com aquelas duas folhas na minha mão, li ainda com a voz rouca do amanhecer a primeira frase. “Egoístas não amam.” Com um leve sorriso ao canto da boca, acreditei que a aquela voz tinha combinado com a sentença.

Naquelas linhas eu pensei ter encontrado a essência que anteriormente havia perdido, mas que na verdade só estava sufocada, como um torniquete. As palavras são como um coração para minha alma, elas pulsam sonhos que se deslocam por toda a extremidade desta matéria onírica. Aquelas palavras eram como um sangue venoso. Sua simples circulação fez reascender num suspiro uma lembrança que eu mesmo havia feito questão de esquecer, mas como um gesto de indignação, veio abrupta de forma natural e passiva.

“Não há explicação para o que chamamos de amar? Hipocrisia. O amar é uma forma cínica, e ilusória de transformar impulsos em poesia.” Em nenhum momento eu discordava da carta, ela era o tratado mais racional e lógico do amor, era quase que um capítulo sobre a anatomia do amor. Todavia devemos concordar que quaisquer que sejam os motivos, para valores humanos sempre haverá provas para visões e mais visões, pois a inconstância do homem abre sempre um mar de probabilidade, e toda a verdade é verossímil com a aceitação.

Questionei onde havia deixado minha alma, que estava anestesiada e fazia meus dias mais fáceis e mecânicos. Acordar, executar e dormir. Resumia a plenitude da vida em três etapas sem pensar sobre elas. Era mais fácil, mas se quer um conselho verdadeiro, sempre duvide do lado fácil das coisas. Aquela carta era uma afronta para minha natureza, colocava tudo que eu acreditava em cheque, e fazia isso de forma espetacular: aquela carta era um espelho do que eu estava sentindo, mostrava exatamente o ceticismo que eu havia escolhido para suprimir uma torrente de sentimentos que eu sabia não poder controlar. As frases eram como olhos taciturnos fitando-me ao fundo, olhos que lembraram os meus e não me davam orgulho.

Às vezes a tristeza é luz, como naquela manhã que o dia ainda era um feto sem caráter, olhando no horizonte na janela deixei o vento suave tocar meu rosto e entendi que a carta tinha sua razão, talvez tivesse a melhor das razões. Mas eu tinha imaginação suficiente para reformular qualquer razão. Madame de Staël estava correta ao dizer que “No domínio dos sentimentos, não há necessidade de mentir para dizer mentiras.” Olhei para o relógio, eu ainda tinha 20 minutos de sono, deitei com a janela aberta, fiz o sinal da cruz e disse “Deus, hoje o sol vai estar mais forte e radiante que nos outros dias, não que eu seja religioso ou saiba que o senhor está me escutando, mesmo assim, prefiro acreditar.” Acordei com o ardor do sol beijando meu rosto.

 

 

 

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Gostei do seu blog, depois passo com mais tempo para ler.

    beijos

  2. Emi disse:

    nossa, acredito que vc conseguiu colocar aqui tudo que a gente vem conversando né?
    ficou muito bom ….
    nem sei o que dizer, a não ser que um dia vc precisa publicar isso para mais pessoas lerem….

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