Garganta seca

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Fizera sua escolha com propriedade. Tinha elegido como cárcere as palavras. Suas formas, seus sentidos, toda a vastidão do mundo que se traduz na linguagem que desenha cenários, sonhos, esperanças e motivações parecia mais interessante e completo do que a realidade que não cansava de se mostrar evidente. Envolto de tanta vida, parecia que a mesma não lhe bastava. Era como uma tese física insana de que o real fosse tão relativo que abrisse porta para outras dimensões ainda mais fantásticas e exuberantes. Não somente aquela que as imagens estampavam em suas vis circunstâncias, em seus arabescos de destinos falhos que tinha na sua própria origem da raça humana a sua única finalidade para atos também humanos. Atirava-se como um suicida que deixa sua alma desprender do corpo num abismo, porém este era exclusivo, um abismo em que ninguém mais poderia penetrar. Um abismo que alguns chamam de imaginação.

Não era uma a vontade de não participar ou então uma repulsa. Muito pelo contrário, aquele mundo que se criava dentro da gramática era um complemento daquele que a percepção dos sentidos apalpava, com vivacidade intimidadora. Talvez gozando do maior dom humano, que é a criação, para se abstrair e selecionar apenas as sementes sadias para que pululem como uma flor de lótus em meio ao pântano monocromático. Um ato de defesa completamente único, que não tinha a intenção de ser compartilhado, quase como um autismo lírico ou um eremita de versos. Fizera de sua incompreensão o deleite, sua volúpia era poder transformar através da combinação da sua existência com o mundo algo completamente novo.

Se o fizera, era em nome de algo maior, que ele chamava de vida. Depois de compreender de que nada poderia compreender, resolveu não usar suas faculdades para desenvolver teses que dissecaria a essência das coisas. Pois a morte é inerente ao dissecar, e fazê-lo sem matá-lo torna-se deveras impossível. Pareceu-lhe cruel sorver o chorume do amor, da saudade, da esperança, apenas com a finalidade de entendê-lo por uma mesquinhez que traz essa falta inquietude, essa ausência de hidratação à garganta. A garganta do saber, afirma ele, tem a sede do tamanho do mundo.

Percebeu que o principal fundamento da felicidade é a ignorância. O pensamento bronco não no seu sentido depreciador e rude, mas no seu sentido instintivo, sem reflexão sobre a racionalidade. Toda a reflexão pura segue os critérios da natureza por lógica, onde sempre tudo é mutável, fugindo da estabilidade que aproxima as coisas da perfeição. A natureza tem a morte como seu principal instrumento para transformar, por isso a reflexão costuma matar a felicidade no cerne de seus conceitos. Esta é a distância que existe entre a ação e a reflexão. Doravante optou por algo não tão simples, que requer muito esforço. Trocou o pensar pelo sentir.

O saber tem sede, consome tudo ao seu redor, negá-lo era tentar sufocar e conter um ciclo natural que, se refletisse sobre, teria o mesmo fim de todas as coisas vivas da Terra. Tentava contentar o grito silencioso que secura da garganta de sua alma, sempre sedenta e obstinada a querer mais e mais, nunca satisfeita com aquilo que se tem a oferecer, com o uso das palavras, versos e estrofes para fomentar assim a imaginação, e por meio do êxtase e intenso gozo desta abstração ludibriar a dor que se arranhava a ausência do saber.

Suas cãs refletiam a experiência de sua trilha que diversas vezes o nada alcançou. Tentado à loucura, molestado diversas vezes pela a insanidade, teve uma estrutura forte que sempre recobrava na tênue divisão entre a genialidade e incoerência. Há anos estava casado com a solidão que lhe dera filhos, seus nomes eram Poemas, Pinturas e também Música, mas a tempo não os via, tinham abandonado seus braços e ele apenas sorria ao lembrar dos momentos em que juntos compartilharam a história.

Acostumou sua vista com a paisagem, a contemplar a brisa fresca que era como um orvalho para a imaginação que alimentava uma parte de sua alma que lhe supria todo o restante. A vida era para si uma obra de arte, pulsante como o corpo humano. Via nas ruas as pessoas andando aceleradas, compromissadas, e ele sempre mantivera um sorriso ingênuo que constantemente era ignorado. Muitos daqueles que cruzavam seu caminho sequer notavam a existência do homem que nunca falava, devido à falta de lubrificação de sua garganta, mas ele não ligava, não mais. Caminhava mesmo assim com passos leves e sem pressa, uma contradição entre todos a sua volta.

Naquele dia em especial o céu estava mais azul e a luz do sol estava mais clara, parecia que deixava tudo mais bonito. O vento leve penteava seu cabelo como se dançasse em um baile, acompanhando o compasso de uma valsa romântica. Não havia tempo para ser triste, ele pensava, era só deixar-se contagiar pela veemente existência querendo existir. Ela está lá pedindo nossa atenção e a deixamos passar por conta de pensamentos que tornam a magia das cores insalubres e opacas. Encantando, trocou a ebriedade pela embriaguez soberba dos amantes que se apaixonam e acabam se distanciando da realidade. Foi quando um carro o atropelou. O forte impacto o matou e deixou a seiva de seus sonhos marcada no asfalto. Morreu por amor à vida.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Emi disse:

    Sabe que por mais que vc coloque um toque de ficção em seus contos não consigo parar de imaginar o que leva a escreve-los……. parece que cada vez que os leio entro um pouquinho em seu mundo fantástico…
    Parabéns
    Te amo

  2. Fi disse:

    Demorei, mas cá estou para comentar.
    Me vi muito na parte de caminhar pensando, sonhando, de ver que a felicidade está, também em não pensar, em ser mais idiota. Em Sentir.

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