Árvore vermelha

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Aqueles olhos eram contraditórios naquela fronte rija da experiência. Como poderia ser? Olhos sonhadores e traços incrédulos compartilhados no mesmo terreno eram sem dúvida algo inconcebível, um anagrama de imagens que provavelmente se resultava de um processo de vivências, que de nada valem a um poeta. Suas primeiras frases foram fortes e impactantes, mas eu conhecia aquelas artimanhas de manipuladores de palavras, magos da expressão que utilizam a língua como alicerce. Desprezei todo o seu conteúdo, aquelas palavras serviam para moldar uma imagem projetada que ofuscava a real, que tímida se escondia no plano idealista de uma personalidade adaptada.

A verdade é que um sonhador não pode se adaptar, um sonhador não tem outra escolha a não ser se deixar levar pelo mundo. Depende muito do destino para definir se isso será uma benção ou maldição, pois como a escolha não lhe é intrínseca, a possibilidade reina no que diz respeito à sua história. Guarda em seu peito uma inocência inerente à alma que não pode ser-lhe arrancada, é como pólen ao vento, com o objetivo de fecundar ensejos. Ele tentava me enganar, confiante disto em palavras articuladas para conduzir os pensamentos de modo a persuadir. Devo admitir sua habilidade nisso, mas ainda assim ignorei cada uma de suas frases, deixando-o vomitar distraído em meus devaneios.

Quando julguei necessário, não quis mais ouvir e interrompi a narrativa como quem fecha bruscamente um livro: “Você é um mendigo!”. O silêncio e a surpresa tornaram aquele rosto mais harmônico, os olhos conversaram mais com aquela face outrora firme, que se deixou envolver num espanto rompendo a linearidade forçada, transparecendo sua verdadeira delicadeza que se desfizeram com o choque do inesperado.

Você acha que pode enganar com sua língua afiada, mas você é tão frágil que o desespero lhe faz ser desta forma eloquente e esguia como serpente. Eu sei o que há por trás de você e sei também que mente a si mesmo para tentar convencer os outros. Não me venha com seu discurso que reconheço esta estirpe. Não é fácil sê-lo, mas o mais difícil é assumi-lo, cousa que não o faz.

Após ouvir as palavras reverberarem, tornou-se um semblante atônito e contemplativo. Sabia que a verdade nem sempre era aquela que queremos, mas a que somos. Qualquer minúcia de reconhecimento fomentava uma vasta explosão que jorraria como se abrisse uma caixa de Pandora em seu peito, este era o destino do sonhador. Daí então tudo se perdera, todas as autoafirmações, todos os argumentos, sem perceber e de forma instintiva, ao supor a mínima compreensão, suas atitudes mudavam e constantemente o poeta martirizava-se pela inconstância que muitas vezes lhe era apresentada como dor. Seus olhos transbordaram e palavras tímidas expressaram uma grande verdade: Quando se está cercado de mentiras é difícil manter a fiúza com verdades. E acreditar é nossa motivação.

Então me lembrei de uma tarde de verão, onde cruzei com folhas rubras de uma árvore, como se sua existência fosse um erro, pois em plena a potência do sol de verão, a árvore residia no mais intenso outono. Parecia que aquela grande árvore estava fora de seu tempo, elevando-se ao céu com seu tronco idoso. Ela chamou minha atenção de forma a controlar meus membros, estava parado em frente à grande árvore que destoava a harmonia do cenário como um contraste, que agregava ao ambiente uma singularidade.

Uma leve brisa agitava aquelas ruivas madeixas da natureza como se anunciasse uma tempestade que viria, seus movimentos eram inconstantes, oscilando entre a violência e calmaria. Logo, o céu se tornara escuro e as nuvens carregadas deram uma coloração mais sanguínea àquele vermelho cálido, ardente, intenso. Seus versados galhos bramiam uma experiência incompreensível aos tímpanos dos homens, mas que mantinham, como compasso, uma harmonia com o vento, dando ritmo e contexto à paisagem.

Gotas grossas começaram a cair do céu, com velocidade surpreendente como se atiradas com ódio pelas nuvens zangadas que rugiam como imperadores do céu, ocultando o cerúleo da calmaria íntegra, imaculada e imutável, tornando a luz fúnebre ao transformar os raios do sol similar ao brilho da lua. Fiquei encantado com aquela árvore e seu contexto, e mesmo com a tempestade, parecia que meu corpo tinha criado raízes e me tornei por um momento similar a ela. Fiquei o quanto resisti em frente à sua singularidade como companhia para que ela enfrentasse a tempestade que estava a surgir. Da mesma forma, olhei para a intimidade daquele rapaz com olhos nublados como aquele céu, mas que ao fundo, mesmo que eu não pudesse tocar, sabia haver um sol. A analogia entre ele e a árvore fora de seu tempo me foi instantânea e, por fim, acabei por me levantar.

Naquele dia com a árvore a tempestade se fez tão intensa que por mais que meu desejo fosse acompanhá-la eu tive de partir, por saber que não poderia suportar da mesma forma que ela o vento, a chuva e os relâmpagos. Fugi. Saí para me proteger da tempestade. Fiz a mesma coisa dessa vez, mas tive a certeza que ambos, o rapaz e a árvore, tinham compreendido e não se sentiram ofendidos quando com respeito virei as costas.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Emi disse:

    Me pareceu muito familiar essa história…..adorei as madeixas ruivas ….uhauahah, mas enfim, eu não sei se foi proposital mas acho que essa história , pelo menos parte dela me lembrou muito uma aventura que alguém teve no final de semana !!!! hehe e eu não sei , mas essa árvore tb parece fazer parte de alguma história uhauauah
    to loka?

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