Felicidade efêmera

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Aquilo me causara estranheza. Tão acostumado com o vazio, que qualquer coisa que preenchesse um pouco alguma lacuna dessa vastidão era-me uma ameaça à integridade de mim mesmo. Não estava certo na explicação e não me esforçava para fazê-lo, sou do tipo que prefiro o sentir ao pensar e nesta altura sabia bem que sentia. Avesso ao toque, aquela presença em meu quarto começou a me incomodar. Meu abraço levemente atrofiado era como se os músculos não guardassem na memória o peso de outro corpo que não fosse o próprio. Qualquer sombra que não fosse a minha seria uma assombração, qualquer respiração que não fosse a própria era uma invasão. Contemplei aquele corpo em meio aos fragmentos que exteriorizo como quem importuna a realidade, meus livros, meus poemas, meus textos, pedaços tão íntimos de mim espalhados perto de um terceiro, senti-me molestado, indefeso e exposto.

Sempre conservei a felicidade na característica efêmera. E desta forma pretendo mantê-la para garantir sua pueril essência que denota toda a ausência de mácula, sua inocência que a torna singular. “Felizes para sempre” é sem dúvida um desacato. Nego-me a acreditar e não aceito refutações por puro brio! Talvez por ser a dor quem me ensinou a viver, conservei o prazer em uma redoma sacra e intensa, grávida de sentidos que são fulminantes por serem especiais. O tempo é um assassino e nada mais, sua finalidade é extinguir tudo e todos, por isso a felicidade e tempo são incapazes de praticar a simbiose. Já a lembrança sim, a lembrança é como fera que rasga com dentes afiados o tempo, pois ela é imortal e resiste aos minutos, às horas e aos séculos! A lembrança é curta e efêmera como a felicidade e também é imutável. O tempo é a vida em constante mudança, enquanto a lembrança é a morte estática, finda e irreversível. Naquele quarto, ou melhor, no meu quarto, aquela pessoa trazia um paradoxo ao meu conceito de felicidade estendendo a simples lembrança ao tempo. Eu sabia que por mais que nos forçássemos a resistir, o tempo criaria as rugas, tiraria a beleza e definharia de modo cruel a felicidade até torná-la outra coisa que não fosse ela mesma. Eu queria apenas preservar… Preservar do rosto o sorriso em minha lembrança como uma criança mimada que quer ter o controle de tudo e não deixar o tempo modificar aquelas feições com sua abrupta natureza de sutil transformação. No fundo eu sabia que a perfeição era ser imperfeito e essa era minha imperfeição, eu contava mais com minha imaginação do que com a realidade. Minha covardia me machucava por dentro, mas a certeza dava sua sublime contribuição, quase que divina, aos argumentos que criara para que eu mesmo fosse persuadido. Advinda de séculos, a certeza se mesclava com o natural que a fazia uma lei, na minha visão este era meu respeito à natureza que eu fazia parte como ela fazia parte de mim.

Olhei de modos penetrantes naqueles olhos e disse sem hesitar “Vá-se embora!”. Em resposta obtive um sorriso maroto que não levou a decisão a sério e tive que dizer com ênfase ainda maior “Já lhe disse, vá embora!”. Ainda como complemento, reforcei para que não me fizesse por equívoco “E não volte!”. Em silêncio as almas se encaram e aquele silêncio disse coisas que as palavras não poderiam definir. As verdadeiras coisas não precisam ser ditas, pois a linguagem é meio e não o fim, aquele silêncio explicou para ambos que queríamos tornar aquilo para sempre e congelar aquele tempo como forma de lembrança. Será a morte um único meio de imortalizar?

Engraçado… Para sempre…

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3 comentários Adicione o seu

  1. vampirella disse:

    caralhoooooooo! lindo final! tudo!!

  2. Fi disse:

    Gostei… Minha única crítica já a fiz.
    O silêncio diz muito mais. Sempre pensei isso e você descreveu a cena de uma forma muito fantástica.
    Vou reler. Pra ter novas impressões. Entretanto, parabéns!

  3. Thiago disse:

    A imersão nesse texto foi tão grande que não sei se me lembra algo ou se a visão que tive enquanto lia foi tão vívida que me confundiu a cabeça.

    Ótimo.

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