O amor de José

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Tendo sempre a admirar coisas que desconheço, o mistério é um grande atrativo e dá elasticidade à expectativa, seu comprimento deriva de acordo com sua capacidade de imaginar o quanto aquilo pode ser grande. O conhecimento tem um sabor adocicado, mas em demasia costuma enjoar, quando tenho pleno conhecimento de algo costumo desacelerar meu interesse. Isso não é aplicável com pessoas, elas têm o dinamismo que o conhecimento não contém. A sabedoria é estática, o homem não.

Mistério que era a mais pura lógica no rosto de José: a felicidade. Brasileiro, 61 anos, tem um carrinho de pipoca que fica em frente ao parque, que era caminho de meu trabalho, e com um sorriso estampado no rosto inabalável. Simpático e nunca triste, José distribuía bom dias e boa tardes para qualquer transeunte que lhe cruzasse o olhar. Tamanha era essa empatia com o mundo que eu passei a cumprimentá-lo diariamente, aquele sorriso me fazia bem. Havia nele um modo particular de amar o mundo por si só, se satisfazia ao ver a felicidade das crianças que iam eufóricas brincar no parque e tinha o deleite de ha anos fazer diariamente a mesma coisa na frente do mesmo lugar.

A felicidade é um mistério, tão complexa por apresentar diversas formas que se torna difícil conceituar em algo que seja claro, a felicidade sempre aparece com adjetivos amplos, vagos e com uma gama de possibilidade e razões. É inexplicável e a felicidade de seu José era encantadora. Nem nos dias de chuva, em que as crianças não iam brincar e o parque vazio ficava, José fraquejava. Num desses dias que a chuva apertou e eu sempre esquecido demais não havia proteção contra aquela água toda que caía do céu, fiquei junto ao José que me acolheu em baixo de sua barraquinha de pipoca até que a chuva amenizasse.

Foi a minha oportunidade de puxar assunto com aquela fantástica criatura, que era sempre otimista e nem por isso havia se arrependido na vida. Deu-me um saquinho de pipocas enquanto conversávamos. Aquele homem acreditava que o mundo passava por dentro dele e o quanto mais ele conseguisse expor essa beleza interior mais o mundo seria belo, éramos o que queríamos e as coisas por si só também. Em nossas conversas aleatórias ficou claro que ele tinha um perfil que via na mais funesta tragédia algo bom e defendia aquilo com razão e propriedade. Como se aplicasse em sua filosofia o Mito da Caverna de Platão de forma evoluída, fazendo as sombras da realidade serem sempre felizes e risonhas criando um mundo ideal dentro da realidade. Por isso pouco importa os traços externos da vida, quando na verdade a vida que se agrega ao seu sentido somente ocorre dentro de nós.

Uma compreensão de vida sempre serena e jovem que despertou uma grande admiração de minha parte que diariamente recebia seus cumprimentos silenciosos e sábios como um exemplo de vida. José era, como tudo que é perfeito, simples, não sabia se ele tinha família e quando perguntei a ele disse que se casou com a vida, o que me fez compreender que aquela pessoa encarava no amor um objetivo mais amplo e achava por demais direcioná-lo apenas a um ser toda aquela grandeza, por isso ele amava o tempo, as situações, os cenários, as pessoas, a natureza.

Mudei de emprego e infelizmente não vejo diariamente o carrinho de alegria do senhor José, que torna o mundo um lugar mais bonito e transforma aquela parte em um lugar muito melhor. Guardo na minha lembrança aquele sorriso e sempre o evoco em minha memória quando alguma dificuldade me surge, espontaneamente eu rio para ele. Esse dedicar-se à vida que José exercia todos os dias era como um alento espiritual que me servia como amuleto de alegria. Aquele homem era a melhor combinação gente que eu conhecia e essa existência é-me suficiente para ser feliz.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Fi disse:

    O amor de José é o mais belo e sincero que existe.
    Essa força interna é única e motiva a todos. Ele poderia ser um revolucionário se quisesse. Na verdade, já é, pelo simples fato de seu sorriso deixar o dia de alguém mais feliz.

    Deixo um vídeo que recomendo (aliás, é obrigatório ver)

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