Dona senhora senhorita

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Meio século se passou para que Elis olhasse seu reflexo no espelho e dissesse, com tom autoritário e firme, as novas diretrizes da sua vida. Já havia se passado tempo o suficiente para que a vergonha ensinasse a coragem a tomar conta da sua própria história. Com seus filhos criados e obrigações feitas como monumentos, sentia aquele sobrado abandonado, esquecia-se que era uma pessoa, e por sua vez a casa não seria sozinha desde que ela estivesse lá dentro. Ela tinha a saciedade do seu papel de mulher, mãe e humana. Em frente ao espelho, calou-se, mas com expressão que dizia muito, assim como sua nudez (como qualquer outra nudez) que em silêncio fala mais que palavras, vozes nunca ditas de verdades inabaladas. Se fosse outro tempo, seus olhos seriam covardes para fitar a si própria, deixava à esguelha de suas percepções, pois temia o foco de sua visão, sabia que ali havia um mundo inteiro de críticas, julgamentos, objeções que faria a si mesma. Começou lentamente a pentear seus cabelos e olhava com curiosidade o próprio corpo como se fosse de outrem. 50 anos, que diria ter essa vida? Filhos crescidos e criados que mal se lembravam de onde vieram, um marido que falecera, nenhuma amizade cultivada na renúncia que sua dedicação à família determinou e meio século para, assim, repentinamente, querer mudar as coisas.

Era uma senhorita (e sim, digamos senhorita por sua condição de senhora solteira) que aparentava ser exatamente o que era. Nada. Sua expressão era de um vazio quase que poético, um tanto rijo e austero, impunha respeito aos outros, mas nenhuma admiração. Apesar da idade, Elis não tinha muitas rugas e sua cara pálida parecia uma tela em branco que vez ou outra se deixava pintar por um sentimento, coisa rara. Aquele semblante era assim como as personnas, aquelas máscaras gregas que preenchiam os rostos dos atores nas tragicômicas imitações da vida pela arte, exceto por uma diferença, a confecção delas era feita de madeira, argila, couro e folhas, já a de Elis tinha apenas como elementos o tempo e a dor, sentia que seu rosto, por mais intimo e orgânico que fosse, era uma máscara artificialmente moldada. Esboçou um sorriso em frente ao espelho, como se aprendesse o movimento que lhe era de pouco costume. Sorriu e depois riu de seu sorriso, um sorriso sincero e envergonhado. Nua, andou pela casa intocavelmente arrumada. Seus olhos se apertaram ao observar tamanha arrumação, tudo reluzente como fotos de catálogos de venda, como vitrines, aquilo era esteticamente perfeito, mas humanamente inviável, como nas fotos de revistas de decoração, aquilo era um mostruário sem vida e a vida é movimento, a bagunça expressava movimento, gente, calor. A arrumação daquela casa foi num momento como uma ferida, viu-se culpada por limpar e organizar tanto, como se fizesse questão de suprimir a vida, de impedir que ela acontecesse, lembrou-se então que assim era a antiga Elis, que viveu meio século aprisionada. Olhando a mesa com os objetos de decoração extremamente alinhados, passou com força o braço derrubando tudo ao chão sem se importar se algo se quebraria. Ficou satisfeita em saber que mudara e aquilo seria o princípio desta mudança.

Viu seu império totalmente construído, toda aquela história e suas conquistas, uma casa, uma estrutura, uma boa renda que o marido lhe deixara, um lugar que chamava de seu, um refúgio, ela tinha tanta coisa… Móveis, roupas, carros, conforto, era rainha de seu palácio, rainha na vida, depois de ter vencido a guerra do espaço, a guerra do consumo e da propriedade, uma disputa não fácil que a vida lhe impõe e nem todos vencem, ela havia vencido estava ali com seu castelo. Que grande falácia. Disse com certo desprezo evitando o calão mais degradante. Era como acordar e ser a imperatriz de nada, com um trono frio de indiferença e desprezo, uma coroa feita de espinhos da solidão. De que valera? “Para mim, o maior dos suplícios seria estar sozinho no Paraíso”, tomou para si as palavras do gênio Goethe, e aquele seu Paraíso lhe pareceu um imenso flagelo. Via que venceu uma sociedade que impunha parâmetros de moralidade, venceu a estrutura política, obtendo sua autonomia econômica, venceu sua família, construindo sua própria abandonando os laços sanguíneos, mas não tinha vencido a si mesma.

Era nessa insensibilidade medonha que ela via seu abismo, que tinha um gosto salgado de lágrimas, era como jogar alimento ao lixo em frente aos famintos, era o pecado do desperdício do tempo que ela via com nitidez em seus traços.  Vestiu-se e caminhou nas ruas, olhava atentamente as pessoas que caminhavam e imaginava as vulvas raivosas que lhes pariram, vaginas secas como a desilusão, crianças que cresceram e se esqueceram de quando nasceram, mas ao fundo sabiam que aquilo tinha sido dor. O parto é dor, ela sabia, tinha tido filhos e aquela era a maior das dores do mundo, ao mesmo tempo, o parto é a maior prova de amor que um ser humano pode prover. Por que o amor doía tanto, se perguntava.

A acuidade foi momentaneamente uma catarse, doravante esta reflexão, fez no seu amor-próprio uma fonte da sua libertação, como motivação de suas vontades. Queria amar-se acima de tudo para que pudesse dedicar sua vida a este amor, ou seja, a ela mesma. Logo, ficou confusa, pensou que seu amor era ignóbil, pois o amor-próprio era aceitar que ela era melhor que qualquer outro ser humano, era fruto da comparação, um julgamento sem escrúpulos, sentiu-se triste por subestimar o mundo a sua volta engrandecendo a si própria para buscar a felicidade. Aquilo lhe pareceu injusto e inadequado, porque além de tudo não podia definir sua vontade, o que ela queria de verdade para ser feliz? O quer era ser feliz? Sentiu-se uma adolescente confusa em relação ao mundo. Entrou em um bar, o primeiro que viu e pediu um uísque, sem gelo, mal o garçom havia virado ela gritou com ele, pediu para trazer logo dois, tinha pressa, perdera 50 anos da sua vida sendo mãe e mulher e não tinha sido ela mesma. Com olhos assustados, o garçom atendeu àquela senhora, ou melhor, senhorita.

Séneca defende a embriaguez dizendo que ela é útil ao homem com alma inquieta, pois ela dissipa preocupações e pode curar a tristeza. Elis virou os dois copos e com olhos cheios de lágrimas, pelo alto teor alcoólico, deixou o dinheiro em cima da mesa e saiu meio cambaleante pelas ruas. O amor-próprio não era a solução, era na verdade a desigualdade entre os homens, como poderia ela usar de algo assim para conseguir se amar, precisava de outro modo de encontrar o amor nela mesma sem que fosse necessário menosprezar os outros, pois seria mais anos vivendo na mentira, isso ela não queria mais. Olhou para aqueles espectros das vulvas raivosas, aquelas pessoas que eram semelhantes e ao mesmo tempo tão diferentes e devido ao não costume com o álcool já estava vendo as coisas com dificuldade, não estava certa de seus pensamentos, dormiu num banco de praça.

Voltou para sua casa depois de várias horas longe, com uma grande dor de cabeça e sua bolsa revirada, alguém lhe roubara o dinheiro. Sozinha novamente como rainha em seu palácio sem súditos, sentiu algo profundo que não era bom e nem ruim, mas era o suficientemente grande para encher seus olhos de lágrimas e fazê-los transbordar. Não era pelo roubo, nem pela humilhação de ter dormido num banco de praça, não foi pelo abandono da casa e nem pela solidão, não foi também a falta de amor que a fazia se sentir como estava se sentindo, na verdade o amor era apenas um dos meios para obter aquilo que alimentava a alma e ela não conseguia, fazendo sua essência viver na miséria, sentindo fome de afeto, desnutrindo seu eu. Entre seus soluços sem argumentos começou a rir e gargalhar. Ria alto e poderia ter acordado a vizinhança com sua despreocupação em exteriorizar o que de repente havia lhe crescido. Limpou suas lágrimas, tomou um banho e sorrindo estava nua na frente do espelho penteando seus longos cabelos. Ela estava diferente e transformara a sensação de seu amor-próprio pelo do amor de si, que era muito diferente, reconhecia-se como ser humano, como dona de suas vontades, reconhecia-se agora em frente ao espelho. Reconhecia-se, coisa que não fez neste meio século de vida, e reconhecer é o alimento da alma. Com 50 anos, pariu a si mesma.

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1 comentário Adicione o seu

  1. ftrabbold disse:

    Cara… Isso é mto bom.

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