O poema do pulsar

em

Escuta, eu te disse! – Aquela risada estridente e despretensiosa que só a Experiência sarcástica pode dar fincava as palavras com violência em meus tímpanos – Você cisma comigo e depois volta com essa cara séria que eu, particularmente, não gosto. Vem cá meu filho, fica mais perto de mim. Fazia movimentos rápidos com a mão direita enquanto a esquerda segurava sua taça. O barulho de suas pulseiras me irritava, me aproximei para que aquele som parasse. Escuta em silêncio, disse ela contendo o sorriso, a gente já sabe desse niilismo barato que a vida aborta e que nós humanos chamamos de tempo, esse fogo com nome de vida que ascende dentro de nós e só faz queimar e queimar e queimar, reduzindo tudo a cinzas, mas é assim que as coisas são! – Ela abriu dez centímetros de risada com seus lábios que eram como uma cicatriz da felicidade, naquela face tão avermelhada quanto o vinho que bebia.

Seu tom de deboche era mais penoso que suas verdades, ela prosseguia. Eu sei que há em você um desejo de fazer algo grande, alguma coisa altiva, que seja benéfica ao mundo. Chama de arte essa conduta que faria bem a quem você nem conhece, levando esperança, modificando um pouquinho que fosse a forma perturbada de pensar das pessoas, eu sei que você quer trabalhar para a evolução. Mas meu filho… amor não é brincadeira não e duvido que seja uma evolução! Impressiona-me você novamente escorregar e voltar para mim com essa cara de cão sem dono. Com tua alma coberta de chagas, você não tem nem coragem de olhar nos meus olhos tamanha vergonha que contradizer-me lhe causa. Mas eu avisei, foste tentar novamente, pah! Voltou a gargalhar por algum tempo e depois disse séria: quebraste a cara!

Distanciei o falatório da Experiência de perto de mim, deixei muda aquela voz com meus pensamentos pesados e com um som que subiu a minha memória em forma de canto, algo que me impressionou em uma noite em que me entreguei às volúpias da alma. Estava deitado por cima de outro corpo, minha cabeça encostada noutro peito e ouvi nitidamente as batidas do coração desta pessoa. Que beleza aquilo me causara, que magia aquilo significou! Sem perceber eu sorria para aquela percussão de vida, alegrei-me com a harmonia que vibrava dentro de um peito tão silenciosa e tão vital, pensei então, o que é a vida senão uma constante contração e expansão, é exatamente a ação que este músculo, que nos traz a vida e isso por si só já é grávida de significados, faz de forma tão sábia, tão sucinta e reduz toda a complexidade da vida em dois movimentos como um poema perfeito. Por uma noite inteira ouvi a melodia da vida repetindo sua perfeição poética, sonora e simples, dentro deste caótico mundo de afetos que existe dentro de nós.

Olha pra mim! Aquela voz estridente e seu comportamento que era sempre efusivo eram como um anzol que varava minha alma no mar de reflexões, puxando-me com força à superfície da realidade. Você sabe que só tem a mim e seremos nós dois, sabe que eu nunca abandonaria você em hipótese alguma, então porque foges assim?  Sabes que o Amor é extremamente caprichoso e não nos responde, sabes muito bem, pois eu mesmo já lhe disse, que o silêncio nutre mais que a ação o genioso Amor! A reciprocidade que tanto se busca nele é uma ilusão, exatamente esta ilusão é que dá a força a ele, escuta-me!

Eu sabia que a Experiência era única, era como a sombra, ela sempre acontece em primeira pessoa e sempre fiquei de incomodado com a paixão que ela tinha por mim. Meu desconforto era epistêmico, já repararam que pathos é o mesmo radical para paixão e para patologia? Não sabemos lidar com os excessos, que é a origem de pathos, acho que por isso os dois causam danos, a Experiência deseja o excesso sempre, ela não reconhece os limites e a falta de limite é a perda. A grande felicidade é desviar nossos olhos de nós mesmos, apenas quando nos colocamos em segundo plano podemos enxergar de verdade o mundo, pois aí que o mundo nos enxerga de verdade. A Experiência é muito eu. Somos extremamente focados em nós mesmos, este foco nos dá este caráter frio, porque viver é uma forma de dor, é morrer a cada instante, é abandono e perda, nós humanos não sabemos lidar com isso, estamos condicionados, naturalmente, a fugir da dor e procurar o prazer, mas isso é errado, na verdade, fazemos isso de forma errada, nós escolhemos não nos afetar pela vida para fugir da dor e nos preservar, mas veja só, não nos afetar é negar o afeto, e afeto é sentir, condição vital para ser vivo. Nietzsche diz que o esquecimento de si é o que faz nascer si mesmo, talvez o Amor seja esse esquecimento de si e a Experiência seu entrave.

Eu sou o que você é verdadeiramente, retrucou a Experiência a me ver em silêncio. Eu sou a composição de você! – Resolvi romper minha relação com a Experiência, conhecer-me não é repetir-me, é inventar-me na constante pulsação da vida. Mandei ela se calar, o que sabes do amor? O que sabes da vida? Não pedimos por ela, não pedimos por nada, a vida é uma tragédia, e não por ser ruim, muito pelo contrário, ela é uma tragédia porque ela é inevitável, ela acontece mesmo que você não queria, então não há porque tentar controlá-la, a Experiência é uma neurose que vive na contração eterna, tentando fazer apenas que o coração contraia e viver deste movimento. Mas eu ouvi em outro peito, em um momento que eu me esqueci de mim e percebi naquela hora que a vida também é expansão. Ouvi nas batidas do coração o poema da vida e que expandir e contrair-se tem que acontecer sempre, pois é assim que a vida funciona.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s