A mentira é perfeita

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Eles eram perfeitos. Quem os via no dia a dia não duvidava disso. Dividiam um apartamento de dois quartos no centro da maior cidade do país, ambos estavam lá para estudar e passavam o dia inteiro fora fazendo a mesma coisa em locais diferentes. Aquilo tinha sido obra do acaso, Pedro conheceu Marília assim, no improviso. Ele precisava ir para a cidade estudar e ela também, este único fator em comum entre eles foi o suficiente para fazê-los ter muito mais em comum. De certo, o acaso só é acaso porque ninguém havia pensado sobre aquilo, e se alguém tivesse pensado naquilo não seria tão perfeito quanto era, porque planejar já é um erro. Eles chamavam isso do milagre do acaso.

Ambos eram atores e tinham a vida pautada na dramaturgia. Representar era mais que uma profissão ou estudos para eles, viam a representação como Vida, com “v” maiúsculo de substantivo próprio. Tinham como filosofia a existência como uma performance da natureza e para eles o corpo era a forma, a ferramenta, que comunicava-se com a plateia chamada tempo e um público que atendia como lembrança. Como toda a paixão que é forte, eles viviam intensamente suas crenças. Pedro não conhecia Marília que por sua vez não conhecia Pedro, mesmo já estando morando há um ano embaixo do mesmo teto, sempre que se encontravam no apartamento eles faziam uma cena. Era total improviso, falavam-se como se conhecessem há anos, faziam um roteiro ali na hora, sem papel, fazendo o ensaio ser a obra final (pois não se ensaia para viver, apenas se vive). Mudavam seus nomes vez ou outra, mas quase sempre usavam os seus de batismo nas cenas. Faziam vozes diferentes, sotaques, trejeitos e manias, eram verdadeiros atores, e assim eram livres, pois eram desconhecidos um ao outro e conhecer é dominar. Eles nunca haviam falado a verdade porque eles não tinham verdades, as cenas nunca acabavam, nunca começavam. Sempre tinha sido assim: uma cena, um papel, um personagem. Desconhecidos perdidos entre a realidade e a ilusão.

Foi assim desde o dia que se cruzaram. No dia que ela chegou ele sabia que era uma jovem que iria dividir o apartamento com ele e que ela fazia teatro. A conhecida história de amiga de um amigo de um amigo. Tomado pela ansiedade esperou por uma tarde inteira e quando, finalmente, ela chegou (com duas horas de atraso) cheia de malas, ela foi logo dizendo: Pedro, vou precisar ficar aqui um tempo, me envolvi com uns caras errados e tive que sair da cidade. Parecia aflita, agitada, tinha a voz trêmula. Contou sobre seu envolvimento com traficantes que agora queriam a cabeça dela depois de um golpe que ela havia dado, coisa com muita grana, lamentou em colocá-lo “novamente” nesse tipo de situação, mas garantiu que ele estava seguro, assim como no “passado”. E começaram desde então a sempre inventar as mais mirabolantes histórias quando conversavam, teve uma vez que ela disse que estava grávida e eles comemoraram, outra vez era Pedro que ia se matar, mas ela impediu, num outro dia era ela, que era tetraplégica e Pedro se atrasou bastante para chegar à aula porque teve que ajudá-la a executar diversas tarefas.

Nesta brincadeira de realidade eles perdiam a identidade. Não quem realmente eram, perdiam aquela de todo mundo, aquela consciência do ontem que nos forma hoje, a lembrança como marca de identidade. Para eles nada era perdido, apenas ganhavam todo dia uma nova vida, pois todo o dia era um nascimento diferente. Era quase que infantil vê-los representando coisas, sobretudo era uma escolha dos dois, que se entendiam numa forma que dispensa explicações, trocando as justificativas por ações. Se a realidade é amarga e a ilusão é doce, eles diluíam a áspera vida com mentiras adocicadas.

O animal homem é uma adaptação, ele nasce para se adaptar ao mundo e tem a reprodução como finalidade. Marília e Pedro reproduzem arte diariamente para mostrar que estão vivos, que vencem a luta já perdida que é a vida, a cada dia animam o inanimado, dão formas para a imaginação. Se você não reproduz, você não se adaptou, afirma Darwin, e o jeito mais poético de adaptar a forma corpo à realidade mundo é a mentira. Reproduzir é uma mentira, é criar de você algo que não é seu, um filho é a combinação de dois genes que forma um terceiro, assim também é uma ideia, uma atuação. Aquele que consegue mentir melhor sobrevive, e mentir para eles é criar. Nenhuma arte é verdade, se for ela deixa de ser arte para ser vida.

Eram seres compostos de medo e como resposta a isto eles fugiam de si mesmos dentro das reproduções da mentira. Não se sabe quando, em qual cena, em que ângulo ou qual a câmera que havia captado, mas um terceiro personagem estava quieto à espreita aguardando sua fala, um personagem tão improvisado quanto os roteiros que nunca tinham início ou fim, um personagem misterioso que se chamava amor. Era um sábado de manhã quando Marília viu pela janela um dia cinza, levantou-se e abriu a porta do seu quarto e viu que havia um caminho de rosas que saia de sua porta em direção à sala. Havia uma carta explicando detalhadamente toda a história que eles haviam passado juntos, palavras que encheram de lágrimas os olhos de Marília, era uma história perfeita. Ao lado havia um anel com um pedido de casamento.

A palavra nos ajuda a criar a linguagem para explicar o mundo que vivemos, a linguagem da razão busca a verdade, a linguagem do corpo o contato. Nessa busca entre uma verdade e um contato ambos tiraram suas conclusões. Amaram-se em mentira porque a mentira é perfeita e a mentira do amor é a única duradoura. Viajaram juntos para celebrar a união, adotaram aqueles apaixonados personagens como permanentes. Foi quando viram que já não sabiam o que era mentira ou verdade, dessa forma resolveram apenas ser. Ambos têm muito sucesso no âmbito profissional, atualmente.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Clap Clap Clap Clap e muitos outros claps.
    Aplaudi de pé. Com tesão.
    Que história, quantos conceitos bem trabalhos, bem escritos, bem feitos.
    Clap Clap Clap de novo!

    A vida é um teatro. Só que não tem roteiro, não permite ensaios. É uma eterna peça de improvisos.

  2. heberdasilva disse:

    “…era uma história perfeita.” ( palmas!!! )

    ta foda hein! fantástico, parabéns fabinho! 🙂

  3. Perfeito!
    Um conto envolvente e diferente. Inúmeras são as vezes em que precisamos desse tipo de fuga, dessa falta de compromisso com o real que acaba por fazer da vida algo diferente. No teu conto, para Pedro e Marília, foi como se a mentira tivesse não somente aproximado os dois, mas salvo alguma coisa em suas existências. Essas interpretações preencheram lacunas, fazendo dos dois algo mais! Muito bom mesmo!!!

  4. Emilize disse:

    Clarice é foda!!!!olha o que ela fez com vc !!!

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