O pecado da luxúria

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Eu vou morrer no final dessa história, essa é a certeza que se passa na minha cabeça e talvez na de todos nós, ou deveria. A morte é a única certeza que temos na vida, por isso eu sempre fui partidário do “tudo morre”. Nada é eterno. Aterrorizante saber isso logo quando se entende o que é viver, pois o sempre é o que queremos, apenas na esperança é que podemos tecer sonhos. Eu já não sonhava há muito tempo.

Até o dia naquela manhã mantinha uma dúvida quanto sua identidade, alternando suas nuvens carregadas ao mais cerúleo azul. Eu me mantive sentado e fumando enquanto ela andava de calcinha pela casa sem dar atenção ao pudor. Eu apenas conseguia sorrir com uma languidez só encontrada em moribundos ou em gente que não tem esperança, e pensei, elas conseguem viver como? Pensei sobre minha esperança, onde ela se direcionava e não encontrei resposta.  Pois é, eu conseguia sobreviver, mesmo sem tê-la. Enfim, olhei no relógio e já era tarde, até quando essa menina que eu nem lembrava o nome iria continuar na minha casa? Fui simpático, avisei que ela tinha que ir, sabe como é, meus pais me visitariam, disse que eu ligaria, anotei o telefone dela sem nome, não queria que ela percebesse que eu havia esquecido esse pormenor, quando ela se foi eu rasguei o papel.

Se a definição de vício é a repetição fora do controle de um hábito, talvez fosse correto me enquadrar na categoria. Sexo era para mim a poesia que os poetas encontram no amor, depois de pensar bastante sobre o assunto eu decidi que o mundo é matéria e que ela é a maior expressão de realidade. Vivi uma vida inteira, mais de trinta anos e nunca ninguém conseguiu tornar real o que era o amor. Tinha uma visão à Schopenhauer, “amor é um prazer negativo”, e ainda eu tinha olhos mais afiados que este. Pensava até que ponto outra pessoa era a resposta para a felicidade, algo que sempre achei um absurdo. As pessoas passam a vida procurando às outras porque aprenderam assim, porque a dependência ainda é a forma mais concreta do amor. Parece que elas mantêm um cordão umbilical atado a qualquer coisa que seja maior que elas e vivem frustradas por isso. Eu tinha meu modo, não o modo que me ensinaram, e fiz questão de mostrar a diferença entre mim e o mundo através do meu sorriso. Sorriso vazio, sem esperança, mas, pelo menos, sincero. É como Manuel Bandeira já disse, os corpos se entendem, as almas não.

A esperança é uma desculpa da infelicidade para habitar um corpo com um otimismo fúnebre, isso eu não queria para mim. Por mais denso que fosse o pensamento, ele só pode ser real quando eu o materializo, a vida é um grito da natureza, por isso não há silêncio que não seja a morte, a vida é material, subjetivo é essência. Os dois têm sua importância, claro, mas por mais subjetivo que seja algo, isso precisa ser expresso em matéria para existir. Amor é palavra, sexo é atitude. Sabia que no fundo tudo era procriação, ou seja, sexo, apenas porra, uma gozada. Lembro-me de uma festa em que cheguei a esta conclusão. Na verdade, aconteceu assim. Cheguei entre meus amigos e o tema era o meu predileto, sexo, e a discussão entre eles formaram dois grupos. Eu me juntei a mais dois que acreditavam que tudo acabava em sexo, e outro grupo, a maioria, contestava isso. A discussão ia seguindo associações que chegavam a ser engraçadas. Como, por exemplo: azul – azul calcinha – sexo. Tudo ia para o sexo. Um deles tentou apelar para ícones de pureza e inocência e chutou criança, levou apenas gargalhada de todos, o que incluiu a sua, ao lembrar-se de como elas eram concebidas.

Aprendi a respeitar os limites do corpo. O corpo sempre quer mais e além de que ele pode suportar. Podemos andar, falar, mas o que queríamos mesmo é voar. Aprender sobre os limites que nos findam a uma existência resumida é fundamental para que possamos entender até onde podemos ir e dentro dessa delimitação, existir. O amor é o desejo além das limitações do corpo, enquanto o sexo é o que ele realmente pode fazer. Minhas teorias e filosofia eram o que eu chamo de praticidade, um suporte para a estabilidade e que sempre me foram eficazes para manter aquele sorriso sincero no rosto. Mas tudo foi posto em dúvida com uma palavra: a doença. O que é  a doença senão uma punição? Uma partícula microscópica, um vírus, algo que passa aos olhos humanos sem ser perceptível, aplacou meu corpo com uma força que me fez vacilar. Como poderia algo que eu não consigo ver, uma “não matéria”, ser tão violenta? Aquilo era um castigo ao meu modo realista de encarar o mundo.

Já era tarde demais para prever alguma melhora ou um estado mais estável. Os sintomas apenas cresciam e deixavam a situação ainda mais aguçada. Comecei a ter esperança, algo que até então tive dificuldade para perceber, mas é realmente quando o desespero nos toma que o absurdo parece mais viável. Mas ela era tão frágil, podre esperança, que a desistência tinha tomado um corpo que a transfigurava em milagre. Começou com um simples desvio de atenção, dificuldade de raciocínio, que foi evoluindo para repentinos lapsos de memória que pareciam tirar minha mente da órbita terrestre. Uma transfiguração mental que teve a origem em estímulos externos, relacionados à suplência de meus costumes levianos. O meu vício tinha sido a causa, o excesso é fatal, sempre. O pecado da luxúria já tinha minha alma. Como eu sabia isso? Eu tinha certeza. Logo eu que sempre acreditei na existência material, encontrei minha própria alma e vi como a subjetividade é poderosa, como o toque ressoa, como a palavra afeta. A degeneração rápida do meu corpo, meu estado cada vez mais lânguido, dava à minha doença um diagnóstico certeiro: era amor. Aquilo iria me matar.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Marcel Justo disse:

    Que texto foda, só isso. Preciso ler isso todo dia.

  2. Heber da Silva disse:

    ok, to impressionado com cada uma dessas linhas, parabéns! Excelente conto!
    E maldita seja toda subjetividade na terra! onde que se encontra um antídoto para ela! acho que reforçamos as esperanças todo dia antes de deitar e me esforço para aprender ter mais coragem. E a realidade há de vir de dentro, isso eu tenho certeza! E o sexo, ah seu poeta…
    parabéns denovo!
    Binho =)

  3. ‎’o que pode um corpo’, perguntou o francês numa de suas aulas de filosofia, quando a dor e o amor, estes velhos nossos temas, seus alunos trazíamos nos olhos crepitantes de desejo e inquietação. Silenciou como quem esconderá verdades, como quem nos lançaria a mais dúvidas que respostas. O corpo pode tudo o que a pele suportar, disse entre dentes e suspiros. Ele pode desde as novas cores em todas as horas do dia até a mais profunda escuridão da noite da alma. Lembrou-nos que o orgasmo não nos tira o fôlego, ele nos mortifica pois nos faz provar a sensação de puro fluxo, etéreos. Sem sermos este corpo que sofre as mazelas da densidade, nos perdemos. E balbuciou no final, para uns poucos escutarem ‘o amor nos mortifica, pois nos renova.’

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