Cadáveres

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O silêncio fala. Sua constância soa como uma crítica, uma ofensa que nos inquieta e incomoda. Muitas pessoas tentam fugir daquilo que o silêncio diz, camuflando com barulhos sua voz. Não que o silêncio seja algo que se possa ouvir com os ouvidos, é um falar de sentir, talvez ele seja a forma mais perfeita do dizer, e ele diz muito, pois se pensarmos bem a fala é um instrumento de comunicação e entendimento, quando isso é feito por meio do silêncio há uma evolução entre a sua presença e a do mundo. Não é como se não houvesse palavras, o problema é justamente o oposto, existem muitas delas, o difícil é sincronizá-las e tecê-las para formar algo harmônico, que compusesse uma frase. Geralmente, aqueles que têm o olhar mais demorado sobre as coisas devem ter uma noção mais exata que este tipo de relação com o que o universo tem a dizer. O silêncio é (ou deveria ser) a ausência, e ela por sua vez é aquilo que faz o mover. O homem é movido pela falta e carência, terreno onde pulula o desejo, a existência só existe no movimento, inclusive há diversas teorias disso e, claro, não concordo plenamente por mais plausíveis que sejam e por mais que eu simpatize com seus autores. O fato é que minha profissão mostra o contrário dessa correlação, trabalho com um tipo de coisa que as pessoas não gostam muito de falar, mas que não precisa ser dito para existir.

Cadáveres são a falta de vida, a total ausência do movimento, porém existem e quem lida com eles sou eu. Ser um médico-legista tem seus “arghs” de aflição, e realmente autopsiar cadáveres que sofreram mortes violentas (assassinados, acidentados e suicidas) não é muito ideal de se comentar num encontro, ou num jantar. Então sempre respondia “médico” quando indagavam minha profissão. Na verdade a excentricidade sempre foi um dos meus pontos fortes e profissionalmente não seria diferente. Há uma exclusão na excentricidade que me faz sentir vivo, há na individualidade uma percepção mais sensorial de vida, mesmo que me cercasse de morte, aquilo era para mim algo vivo, pois penso seriamente que o objetivo da vida é a sua mesma certeza, ou seja, morrer. Notava que aquilo não era algo naturalmente aceito, as pessoas ao saberem do meu ofício ficavam um tanto atônitas, sem esboçar nenhuma reação de aprovação ou reprovação, apenas estranhamento. A não sensação é uma das sensações mais interessantes que eu conheço, ela é propulsora e ao mesmo tempo infértil, deixa-nos à mercê do estímulo, que pode ser como asas ou correntes que nos atam, um pequeno empurrão que pode nos fazer cair em um abismo ou alçar voo e, ao contrário que se pensa, ela é bem mais comum do que pensamos. Pelo critério excêntrico, minha incomum profissão era meu ponto de refúgio que fazia eu não me sentir um esquizofrênico. Não ser dos mais comuns me incomodava bastante, mas hoje os cadáveres me ajudaram muito a lidar com a diferença entre mim e o mundo, eles são terapêuticos e vitais para eu trabalhar essa compreensão de personalidade.

Mais um dia corriqueiro e já eram três da manhã, dia de plantão e eu estava sonolento, a cafeína tentava me manter acordado, mas ela não tinha tanto efeito sobre o cansaço que o ócio tende a me causar. Foi assim que um colega salvou minha madrugada alertando-me que acabara de chegar um cadáver baleado, jovem, mulato, 27 anos, cinco furos no peito e um mais acima no pescoço. Fui atendê-lo e me senti um pouco mal por festejar o aparecimento de uma morte. Era um homem grande, esses costumam dar mais trabalho, são bem mais dificultosos para manusear e a quantidade de sangue torna meu trabalho mais lento. Não tive pressa, com precisão fiz um corte da garganta até o púbis, em seguida, desprendendo a pele do tórax, localizei facilmente os artefatos seguindo-os pelos furos externos e retirei-os anotando minuciosamente na planilha que seria encaminhada à perícia policial, depois de remover com cuidado cortei as costelas para ter acesso às entranhas e esvaziei aquele corpo. Não me interessava pela ficha dos cadáveres, o corpo me dizia mais sobre eles do que qualquer histórico feito por um terceiro.

Já peguei cadáveres decapitados, outros que pareciam um quebra-cabeça de tantas partes, alguns torturados, outros amarrados com fitas adesivas nas mãos e nos pés, pessoas queimadas, afogadas, uma infinidade de atrocidades que as pessoas acreditam só acontecer em filmes e que beiram ao inumano, mas que chegavam até mim como prova da brutalidade animal da nossa natureza perversa. No córrego que desaguava o fétido necrochorume da violência de uma grande cidade, o Instituto Médico Legal, a tragédia era como rotina e por isso a normalidade era sempre o horror, e quando isso acontece acabamos nos acostumando com o horror.

Foi nesse ambiente, pouco a pouco, corpo após corpo, que compreendi algumas verdades imutáveis e constatei o excesso da falta humanidade que punha meus olhos em contato com tudo aquilo que eu abominava, com a crueldade que me brindava com aqueles corpos sem vida, evidências da destruição. Sempre nos olhei como uma arma mortífera, um maquinário natural, uma arma biológica. O corpo, o homem e sua inteligência, a raça mais evoluída sobre a esfera terrestre era para mim um agente modificador da realidade que tinha a ação como principal munição. Este acelerador de realidades é uma potente munição destrói qualquer credulidade, pois a fé necessita da estática, por isso não há fé no homem e sim em alguma coisa que seja externa a ele. Tenho consciência que meu trabalho deixaria qualquer pessoa totalmente cética do mundo, mesmo se ela vivesse apenas um de meus dias.

É como ver as pessoas por dentro, posso dizer isso melhor que qualquer ser nesta terra, elas fedem e toda a beleza é apenas metafórica. São nesses corpos mutilados que trabalho minhas diferenças, pois sei que por mais distinto que seja eu do outro, por dentro somos iguais. Isso não é acaso, muito menos um fato, isso é praticamente uma penitência que a humanidade leva consigo. Somos o resultado de um reflexo distorcido, o desejo de não ser o outro nos marca e isso nos identifica, pois não sê-lo é um modo de ser, por isso nossa vida se aprisiona nas críticas, no conceito e no preconceito. A busca da identidade é a negação do próximo, mas o grande conflito vem quando só conseguimos ver essa identidade e ela só pode ser formada a partir do próximo. O que nos difere é o mesmo que nos marca como semelhantes, dessa forma as pessoas tornam-se insubstituíveis, e não pelo que elas são, pois é sabida a aberração que é a inteligência no mundo, mas sim pelo que se tornam. Ser igual é nossa maior diferença e no fundo todos nós somos a mesma coisa. Foi assim que deixei de olhar o outro como outrem e procurei enxergar as semelhanças ao invés das diferenças e talvez tenha começado a entender um pouco mais a frase que revela uma plenitude espiritual que está longe de ser alcançada: “Ama a teu próximo como a ti mesmo“.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Vou ter que reler este texto para compreende-lo totalmente. E até pegar outros conceitos que passaram desapercebidos por mim.
    Mas gostei. Lembrou-me “A mentira é perfeita”. Outro que tenho que reler. Que tem tantos conceitos que não consegui pegar todos.
    Se me faz pensar é bom. 🙂

    Gostei principalmente do olhar para “deixei de olhar o outro como outrem e procurei enxergar as semelhanças ao invés das diferenças”. Isso mostraria a tantas pessoas o quanto elas são tão sujas e fracas quanto, muitas vezes, julgam os outros.

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