Semelhantes distintos

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Sou feito de necessidades, medos, tragédias e frustrações. Acredito que são nestes valores que se concentra a fórmula da minha felicidade…  ou melhor, fiz com que destes, que eram predominância em minha alma, se fizesse a composição de meus sorrisos. Quando ouço dizer que ninguém é igual a ninguém sou tomado por uma certeza que de certa forma me eleva na mesma proporção que me fere; eu sempre busquei similaridades que me identificassem nas vastas probabilidades da existência, entretanto, minha intimidade se mostra tão íntima que compartilhá-la tem um caráter tão excêntrico que se torna indecente; doutro lado eleva-me pela satisfação em ser único, em poder ter identidade em que nada deste âmbito faz real relevância.  A resultante disso é um posicionamento similar a um dique, uma constante limitação de uma torrente farta de uma individualidade que impede, mascara, critica e inibe. A dor da existência, como eu gosto de referir.

Digo dor porque essa visão foi adquirida com uma grande porção dela e como recompensa me concebeu uma relação muito boa entre as vidas que vão trilhando independentes a minha volta, com laços de respeito e entendimento que por minha parte são bem resolutos. Nesta adaptação da vida, fazer caber esta inquieta alma em um corpo me é dolorido. Entrementes, me perco em meu silêncio, faço dessa ausência o momento de maior riqueza interior, plantando reflexões que me trazem caminhos como frutos. Esses silêncios são mais frequentes do que eu gostaria que fossem, o que de certa forma me punge, uma vez que entendo que compartilhar é o único meio de fazer existir, portanto, as coisas que existem e não são compartilhadas são como um feto dentro do útero: invisível, porém visível;  liberto, porém limitado; grande, embora pequeno. O desconforto físico que uma mulher carrega numa outra vida dentro de si é da mesma forma quanto às ideias. Este silêncio gera futuros grávidos que muitas vezes se abortam pela falta de sua concretude. Minhas palavras mudas não tocam e com isso não podem ser entendidas, reconhecidas, complementadas e não há culpados a quem se possa apontar, corrigir ou modificar, restando-me aguardar pacientemente uma natureza que não seja surda a minha.

E tudo é muito cheio de detalhes e, particularmente, detalhes me fazem perder muito tempo. Gosto de apreciar, ver as minúcias, entender os pormenores, decifrar as entrelinhas, associar, elaborar, reinventar. Enfim, perco tempo com a propriedade de perdê-lo! Porque, na verdade, eu acho que nunca perdemos tempo – estamos sempre a ganhá-lo. O tempo estabelece uma troca conosco, nos damos a ação e ele nos concede a experiência,  não tem vantagem, tem consequência apenas, e os olhos de poeta são voltados inteiramente à contemplação na poesia da vida.

Essa igualdade me consome pela ausência. Para conseguir existir realmente preciso ancorar todo o meu eu ao meu redor, mas não encontro os encaixes e me abate ser este amalgama indefinível pela falta de semelhança. Uma peça com defeito que utiliza a mesma percepção aguçada e a forma hiperbólica dos seus sentimentos para si mesmo, sendo um carrasco muito mais voraz e abrupto que a própria vida. Para diluir, perco-me a ludibriar a alma com sonhos, onde não sei quem frustra quem; se eu causo frustração ao sonho ou se eles causam em mim.

Olho-me como um estranho em frente ao espelho e com retinas de juiz percebo as marcas que o tempo desenha em meu rosto. Linhas tortas que esboçavam remanescentes emoções. Contentou-me ver que a concentração das linhas era ao lado dos olhos e não acima, próxima à sobrancelha (que indicava que havia mais sorrisos do que carranca em minha história).  E acostuma-me a ideia da busca, amedrontando pelo buraco que causa minha imersão, um buraco tão fundo que passa despercebido à grande maioria desatenta… e os grandes – Ah! Os grandes existem e vejo muitos em locais mais fundos que eu – seguem caminhos similares, mas são tão distintos que não podem ser iguais, tendo apenas a indiferença que a apática compreensão nos deixa em comum.  Foi me perdendo que, de repente, um sentimento veio para mim tão claro que esse tipo de luz deve ser similar àquela que fazem os bebês chorarem ao nascer, deve ter a mesma dor de queimação do contato dos olhos virgens com o ambiente fora do útero materno, deve ser tão desconfortante quanto o abundante lacrimejar quando um corpo estranho penetra nossas vistas, pois foi assim que senti esse renascer, como se tudo que diz respeito a mim mesmo fosse virgem.

Eu acreditava que a busca fosse a verdadeira forma que fazia a vida ser boa, e de fato a busca é mais rica que o ato de alcançar. Mas um lampejo tornou claro para mim uma situação que mudou essa visão. Todas as pessoas buscam, buscam e buscam intensamente a felicidade, porém elas seriam mais felizes se não o fizessem e seguissem outra conduta. Então, resolvi fazer uma metodologia para enganar a natureza, que instintivamente egocêntrica busca satisfazer a si própria.

Imagine que você é a felicidade do outro, imagine que ao invés de buscar a própria felicidade nós nos esforçássemos para sermos a felicidade do outro, como se todos nós fossemos o destino ao invés da busca, e assim as pessoas seriam muito mais alegres e viveriam de forma muito melhor. Descobrir isso me transformou em sorrisos e com eles passei a modificar meu propósito. Apenas uma questão levantou-se: para tornar real meu pensamento eu precisaria de semelhantes, mas meus semelhantes são tão diferentes que fui obrigado a vestir de esperança a tragédia da vida com a finalidade de salvar o propósito da existência. Minha conclusão vai muito além do descritivo e sugiro que você também tente, pois a experiência de minha conduta pode afirmar com certeza que a felicidade é extremamente contagiosa.

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