Além do amor

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Ele estava lá, naquele ponto em que a agonia já se configura em uma permanência estável que mal pode ser classificada como angústia e os olhos têm um brilho perolado que não é de esperança. É um brilho diferenciado, fosco, obtuso, mas mesmo assim um brilho. Aqueles olhos penetrantes com fortes convicções, razões e que acreditam entender tudo da vida… ledo engano, quanto mais descobre menos sabe e de alguma forma entendia isso. Todo esse acúmulo de experiência, vida e marcas que as pessoas iam deixando em sua estória pesavam de forma que suas pálpebras pareciam cansadas e idosas.

Lembrou-se do mito da águia e fez uma analogia com seu estado. Diz-se que a águia ao chegar a certo ponto de vida faz uma dolorosa escolha: opta pela morte com suas garras já gastas e seu bico calejado ou então se isola no alto de uma montanha e começa a se automutilar, arranca suas penas com o bico cansado, depois suas garras e por último fricciona o bico até arrancá-lo, para assim renascer e dobrar sua expectativa de vida. Sentia-se assim, no cume de uma montanha observando o mundo enquanto reflete sobre sua escolha.

Sua garganta estava seca, com uma sede do infinito, com um desejo do eterno e imortal. A natureza nos mostra a todo o momento a morte, mas era essa obviedade que lhe incitava à fuga, não há nada mais humano que fugir e sentia-se Homem na sua profundidade de sentido, porém via-se alheio, queria mais que seus semelhantes e doía-lhe chamá-los desta forma, uma vez que sabia ansiar mais, desejar mais, com uma saudade de algo que não se sabe o que é e, não a entendendo, via-se num labirinto de corpos e memórias.

Pensou se a esperança era capaz de ser felicidade, se era suficiente para construir uma morada segura para sua alma, pois não queria as paredes rígidas do medo, que protegem de forma eficaz, mas impedem o vislumbre do horizonte. Ele queria ver além, analisar o que estava depois e isso não era uma simples ansiedade, desta tão comum que se encontra nesta espécie racional que tem uma voracidade à finalidade das coisas, que se esquece de degustar o durante. Ele queria contemplar, era amigo do tempo e não inimigo e via em seus traços uma obra de arte que desenhava a tragédia de viver, contrariando assim a corriqueira vida que luta contra cronos e seus dogmas absolutos.

Viver é suportar o insuportável, é enfrentar a gravidade que é grave, que puxa para baixo, que te faz mergulhar num abismo de tentações que sempre está ao alcance dos olhos para testar-nos. Via tudo isso e almejava o progresso, o bom, as ações positivas, porém sabia da impossibilidade de ter apenas um dos lados e estava pronto aos dois, separando o joio do trigo. A decomposição de sentimentos do passado vinha lhe assombrar, decidiu enterrá-los para sempre abaixo do epitáfio do esquecimento para poder engravidar com existência o futuro, não queria a interferência pretérita que nos arrasta à experiência e enfada a alma. Deixou cair de cima do cume lágrimas que mais se pareciam com cadáveres de sonhos destroçados pelas frustrações. Lembrou dos rostos cinzas que sorriam uma alegria descartável de um vazio de cartaz publicitário e viu-se perdido entre a semelhança. Isso lhe pungia de modo atroz, pois acreditava no amor, mas não no amor dos homens, para ele amar era outra coisa. Esquecer de si é lembrar-se de ser humano e ser humano é amar. Esquecer de si é a base para amar na forma máxima e plena. Porém o amor do enlace é apenas egoísmo, pois o objeto amado só faz sentido se considerarmos o emissor. Ele via no afeto dos homens apenas a doença e por isso acreditava estar além.

Decidiu então morrer; morrer para a realidade e viver para o amor.

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