Aprendendo a viver

em

Era como se a existência resolvesse se contrair ignorando minha presença e dessa forma me apertasse com uma força incômoda. Eu sentia esvair aquilo que me envolvia, a fluidez que era meu conforto e me conservava e nutria. O calor que me preenchia começou a perder seu ardor e intensidade, sendo levado para um caminho onde o expelir orientava. Havia algo que brilhava, porém era tênue, mas por momentos se intensificava. Meu frágil e pequenino corpo começou a sentir o toque que o vazio proporcionava na compressão; a pele escorregadia exercia uma pressão que não me dava controle e fui me desprendendo do mundo que conhecia para desaguar no desconhecido. Tudo ficou branco, uma abrupta força puxou-me e meu corpo se encheu de sensações, a dor foi, e sempre é, a mais intensa. Gritei sem saber o que era gritar, senti em meu peito o dolorido contato com a atmosfera e aquela claridade me impedia de tudo. A luz também machuca. Naquele dia aprendi sobre o desapego.

Minha vida, que sempre fora o apego, conheceu então a sensação da perda e sua dor – …e que dor intensa! –, nove meses num invólucro de vida que se romperam num repente sem aviso, salvo a opressão da existência expulsando meu conforto para se apresentar de outra forma.  Porém a experiência me foi rápida, assim como a adaptação pulmonar da um feto, o desapego caminhou rapidamente para um apego. Os braços de minha mãe, futuramente seu peito e carinho foram apegos assim como o espermatozóide se apega ao óvulo, o homem à mulher, o oxigênio à vida, o amor à ilusão.

Foi assim que cresci, escolhendo alicerces que sustentariam minha estrutura e dessem forma à minha identidade, percebi que minha segurança tinha raízes profundas na estabilidade, na afeição; que apenas a devoção pode encontrar a fé; que o encanto é o enlace da alma a um suporte onírico; que a fidelidade é, antes de tudo, compromisso com o equilíbrio. Lembro-me do dia em que sai de minha casa; minha mãe, muito devota, deu-me um terço para me proteger enquanto nos despedíamos no portão em que minha infância fora fincada, mesmo ciente da minha falta de religiosidade. Aquilo foi um dos rituais mais lindos de minha mocidade e que recebi. E me apeguei àquele amuleto como um símbolo da sorte, sempre que sentia algum tipo de desamparo eu resgatava o terço e com mãos fortes o apertava: era conforto instantâneo, não havia nem o que pensar. A lembrança trazia a animação que as frustrações do cotidiano me tirava e dava força para continuar.

Um dia, acidentalmente, quebrei este terço. Numa mescla de indignação e vergonha ocultei o fato e chorei com os pedaços e as pequenas bolinhas do terço que voaram em todas as direções, como se tivesse agredido um abraço de minha mãe, um tesouro que ela deixou para mim. Consternado, juntei o que restou e guardei-o em um local seguro. Mas algo ainda me incomodava, preservar não era esconder, ao trancar o símbolo do meu afeto eu o perdia lentamente, sufocando-o. Para guardar é preciso estamos em contato, era necessário que eu o tocasse e apertasse para sentir a intensidade da afeição. Escondê-lo era um ato repugnante do meu egoísmo de preservar. Vi então a doença do apego, misturando a minha necessidade com o vazio que mora em nosso interior.

Senti que precisava me libertar daquilo, porém a libertação era o desapego, aquele cordão umbilical do sentimento precisava e pedia ser cortado. A dor, sempre ela, marcou também este momento. Senti novamente a realidade se comprimir para me levar a outro caminho. Notei que havia um padrão, sempre que uma importância se perdia algo era ganho, e, quase sempre, era uma nova realidade.

Não considero que eu tenha desapegado, apenas troquei o apego, como sempre o fiz. Nem a meditação alcança o desapego, o nada é uma das formas mais cruéis do desespero de apegar-se. Minha existência é interligada e busquei o apego porque nele é que reside a paz, seu oposto é a negação da natureza do homem que é parte de um todo, desapegar-se é cultivar a apatia, é sorver da vida sua energia. O desapego opcional é dor sem aflito, não sofrer a angústia da perda é como não conceber a existência, daí vem minha aversão à sabedoria que prega esta prática inumana.

O apego é afeto e este é o único modo de se chegar à alegria, que é bem diferente que felicidade. A alegria é permanente enquanto a felicidade é momentânea, fragmentada. Há muita facilidade em alcançar o nirvana pelo desapego e a efemeridade da felicidade e destes vêm o verdadeiro inferno. Pois ao reconhecer o próximo, reconhecermos nós mesmos e para isso é necessário ter coragem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s