Quando você partiu

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Talvez ele quisesse sentir o quanto de qualquer coisa havia no vazio ou apenas tinha uma obsessão pela profundidade a ponto de atirar-se em qualquer abismo. Não sei ao certo, mas algo ali lhe dava um ar solitário nos olhos que tinha um contraste com a ternura que seus traços expressavam. Sua rigidez escondia uma tristeza que eu sabia, inclusive tinha ciência que havia muito esforço para ele ser o que era, entendia que as emoções ali ocultas eram uma das formas da dor e inteligência, que guardam toda a sabedoria do mundo. Sua tristeza é uma espécie de dor que não se sente, mas lateja; que não tem ardência. Sabia também que aquele sorriso irônico não passava de vergonha, inocente como criança surpreendida em repressão.

Senti o peso de mim sobre minha carcaça e não pude me mover quando ele saiu, como se com ele, eu partilhasse o peso de ser eu mesma. Olhei as taças com os eflúvios de Baco que estavam sobre a mesa e senti o leve aroma de volúpia que envolvia o ambiente. Ele estava úmido de uma sensação que meu paladar não distinguia, mas era entorpecido de densidade. Com olhos foscos pela tácita noite, eu tentava encontrar a marca de seus lábios na taça que ele deixara como eu: abandonada. Em vão, ao ranger da porta tudo se esvaiu e não tive mais força para a busca. A noite já morria e de minha poltrona conseguia observar pela janela o horizonte; a escuridão se dissipava como uma nódoa no céu com um tom de melancolia. As nuvens formavam pinturas que me entretinham pela grandiosidade em contraponto com a leveza de seus movimentos, aquele caminhar despertou em mim o desejo de igualdade e motivei-me, mesmo sentindo o peso absurdo da minha existência imobilizar-me como num pesadelo da catalepsia. Quis caminhar e respirar um pouco de ar puro da manhã, sair daquele apartamento que me levava sempre às lembranças, indo ao encontro à silenciosa aurora que se formava para pensar no que eu havia me transformado.

Andava a passos curtos e sem nenhuma direção, olhava com atenção minuciosa os detalhes das sombras se movendo com a manhã que chegava, observando-as reparei em mim que muitas marcas ainda existiam por detrás dos fatos e decidi que ainda não havia acabado. Em mim ainda estava viva uma esperança e fui atrás dele para que, em última instância, ele assassinasse o sentimento que prendido se debatia em mim. Não queria sozinha deixar aquilo se decompor e banhar meus sonhos com chorume, precisava partilhar toda aquela sensação de desamparo que me fora causada com a repentina partida.

Fui decidida a casa dele, sabia que sua educação era maior que a vontade de não me ver e abusaria disso para que minhas palavras fossem ouvidas, para que eu despejasse o cadáver de minhas intenções puras e por isso, tolas. Exatamente isso: sua densidade não acompanhava a simplicidade, não aceitava ser feliz por ter sido cercado de um mundo não tão colorido, mas esquecia que a poesia que tanto louvava era um colorir em meio à monocromia da realidade, queria fazê-lo acreditar nisso e mantinha-me disposta a queimar meu corpo no fogo da sua incredulidade para provar meus sentimentos. Suas suposições eram o traço da astúcia e pelo mesmo motivo não poderia ser amor, pois amar é isentar-se dos julgamentos. Sabia que sua paixão por argumentos era maior que sua estima à imaginação, porém seus olhos brilhantes não poderiam mentir que suas retinas eram imersas em um universo onírico, e por isso infeccionava-se com o real que era, simplesmente, inalcançável para ele.

Ao chegar à frente do prédio dele um vento frio me veio como presságio. Emudeci meus pensamentos que ecoavam dúvidas, mas não havia nada a perder já que tudo estava ausente. Toquei seu apartamento sentindo minha pulsação nos dedos, ele sabia, antes de atender, que era eu. Sua recepção foi como o mundo: seco, sem ternura. Pedi para subir, seu silêncio me angustiava e depois de um tempo o barulho do portão abrindo foi um leve alimento para minha frágil esperança que já se manchava de arrependimento. Entrei no elevador e olhei-me no espelho, estava horrível, maquiagem borrada ainda das lágrimas, cabelos despenteados, olheiras e expressão cansada, a roupa do dia anterior ainda em meu corpo me pareceu imunda. Quando a porta do elevador se abriu a entrada do apartamento estava escancarada, à minha espera. Entrei com cautela e em silêncio, o ambiente era envolvido por música, calma e confortável, e ele estava sentado esperando com aquele olhar doce, incrédulo e questionador.

Expliquei-me… e como o fiz. Falei muito enquanto ele apenas me olhava, sem me interromper, mesmo quando meu discurso ofendia as atitudes que ele tomava. Disse sobre a inocência que lhe faltara, sobre o quanto poderia fazê-lo feliz e desobstruir seus possíveis medos, sobre tudo. E de tanto falar eu mesma percebi o que sua boca não dizia ou disse e eu não poderia escutar por não entender. E me assustei. Seus olhos se encheram com minha nítida surpresa e então ele se levantou e me abraçou com força. Muitas vezes, para não dizer sempre, o outro nos é necessário de uma forma tão fundamental apenas para que possamos reconhecer a nós mesmos.

Ele me olhou profundamente e eu estava envergonhada, virei o rosto e baixinho arrisquei a perguntar a única coisa que poderia ser dita ali. “Por que você não perdoa a realidade? Por que você não cria a sua própria através desse perdão?” ele me largou e caminhou em direção à janela, suas palavras eram obscenas demais para serem dirigidas frente a frente. Até hoje elas ecoam em minha mente: o preço do perdão é alto… de tanto perdoar, hoje não posso mais acreditar.

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