A tragédia da mansão Celtonite

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Era confortável. Há muito tempo que não se sentia assim. Ele observou os móveis no lugar, a ausência da poeira, a organização dos livros, sofás sem vincos ou dobras de um sentar desajeitado, toalhas simetricamente esticadas sobre as mesas, tudo em seu devido lugar e sob seu mais completo controle; um intenso prazer lhe percorria por isso. A casa tinha um silêncio revelador de quem já tem uma voz rouca de tanto contar histórias, um calar que soava mais como uma mentira que se ocultava envergonhada, pois muitas vezes o silêncio também é uma forma de mentir. Diversas pessoas haviam passado por ali, muitos empregados já o serviram naquele casarão velho, porém o trabalho nunca tinha sido bom o suficiente para permanecerem em seus cargos, muito pelo contrário, alguns até levavam coisas sem autorização, tesouros e preciosidades da intimidade da casa, e outros tinham atitudes nada éticas. Faz parte, dizia Alexandre Celtonite com um sorriso prazenteiro, que tinha fé em sua vasta experiência de vida e por isso não via prazer fora da casa.

O senhor Celtonite era extremamente sistemático. Ganhou com a vida o hábito da organização vendo que, desta maneira, evitava o desgaste. Uma das coisas que o tempo lhe mostrou foi que com os danos que a casa teve ao decorrer de sua história ela tornou-se mais segura, como se a experiência fosse um amortecedor do impacto que a realidade exercia sobre ela. Manter o controle dava trabalho, intenso por sinal, e se ocupava disso. Há tempos havia desistido de terceirizar esse tipo de serviço, ficando si próprio responsável por manter tudo em seu devido lugar. A conformidade tinha sido adquirida com a ordem, fruto de rigorosos hábitos. Senhor Celtonite era um conformado dentro de sua rotina e tinha noção de sua normalidade, fazia inclusive questão disso. Observava com certa perspicácia os outros que passaram pela residência e chegava a uma conclusão que talvez seja lógica: todos os funcionários que por lá estiveram mantinham a plena convicção de serem excepcionais e únicos, quando na verdade isso era a coisa mais comum e esperada de se acreditar. Essa atitude levava-o a pensar que as pessoas realmente não eram iguais, mas eram simplesmente apenas mais uma. Ele gostava de dizer-se normal e não mantinha as expectativas acima de suas capacidades como via com frequência no discurso dos outros. Via nas definições alheias profundas exigências que eram expectativas que nunca se alcançavam.

Era resignado, não tinha quase nenhuma coragem, mas era um homem obstinado e convicto, o que de fato é muito mais duradouro que a coragem em si, só que com um teor menor de poesia e muito mais realista. Isso lhe dava virtudes, pois a força moral é, em grande parte, uma simples covardia de ter vontades próprias, e deste medo em ser-se nascia um casto respeito pelo outro que buscava reciprocidade.

Muitas pessoas batiam em sua porta para oferecer os mais diversos produtos, viam uma luxuosa mansão do lado de fora e imaginava que o dono daquela casa tinha bastante riqueza. Porém, nada fazia com que a porta se abrisse mais que 30 graus, sempre protegida com uma corrente que impedia uma maior abertura. Nada o interessava. Afinal, nada é interessante quando não se está interessado e cada dia menos o senhor Celtonite se atraia pelo mundo de fora, cultivando apenas a exuberância do interior dos cômodos. Essa apatia lhe dava um rosto sem expressão que era sempre um mistério para os vendedores que tentavam persuadi-lo. O rosto esconde diversas linhas que olhos mais atentos conseguem ler emoções que palavras por vezes não podem exprimir, mas daqueles traços nada se lia, portanto nenhuma oferta demorava em sua porta.

Das janelas acompanhava o mundo, mas tinha certa resistência a abri-las, pois acreditava que a poeira invadiria o interior da casa, sujando o esforço do seu brio; que o vento abalaria seus frágeis adornos, cuidadosamente colocados para dar vida aos inanimados espaços; que talvez algum inseto, pássaro ou qualquer tipo de animal entrasse pela exposição das janelas. Desta forma era bastante raro que a luz natural estivesse ali, sendo a iluminação sobretudo escassa e suficiente.

Em uma noite fria enquanto lia as páginas amareladas de um romance, o senhor Celtonite sentiu a necessidade de acender velas para ampliar a iluminação e enxergar melhor as palavras a fim de compreendê-las mais. Distraído nestas leituras e reflexões deu espaço à tragédia. Uma das velas caiu e o fogo se espalhou com ferocidade, provocando um calor e um clarão que lhe deixou sem ação. Ver queimar o seu mundo era de um absurdo que nunca houvera imaginado. O fogo se aproximava e o calor fazia sua pele arder, correu para a porta e a moradia já ardia em chamas. Conseguiu em tempo sair pela entrada e hesitante deu apenas três passos além da porta. De repente, ele notou que não era ele mesmo. Sua visão de vida limitava-se a um palco que era sua casa. Tudo era teatral naqueles olhos fantasiosos, fazendo do dia a dia uma grande história, independentemente do gênero ou estilo, é apenas uma história em que se viu como um protagonista sem cenário e os figurantes… ah! quantos figurantes. Quando sentiu seu corpo fora da casa percebeu que o mundo acontecia perfeitamente sem ele e ali não havia um papel especial para sua atuação.

Como dito anteriormente, o senhor Celtonite era covarde o bastante para aceitar um novo personagem e, talvez, corajoso o bastante para não abandonar sua casa. Decidiu voltar, entrar e sistematicamente trancar a sua morada para que ninguém entrasse. Trocou sua liberdade pela sua visão de segurança, apesar de que ambos tendem a se confundir com frequência. Preferiu ter seu corpo queimado junto com o que ele acreditava ser sua identidade a se jogar num vasto e completo nada chamado mundo. Com um sorriso nos lábios ele chorava junto a porta observando o fogo destruir tudo, ele sabia que suas lágrimas não apagariam aquelas chamas. Quem poderá julgar uma escolha tão particular?

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