Não há segredos no segredo

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As escolhas. O doce ou o salgado, o claro ou o escuro, o mais delicado ou o robusto; todas elas são nossos reflexos interiores e nos ensinam sobre nós mesmos, não há como mentir nas preferências, algumas nós fazemos e nem sabemos ao menos o motivo, estas trazem à superfície aquilo que encobrimos com o multifário de nossas opiniões. Cresci em uma casa que havia muitas pessoas estranhas, minha mãe era dona de uma pensão, por isso jovens, viajantes, perdidos, peregrinos e diversas espécies da natureza passavam por ali. Com o tempo você se acostuma a ter pessoas que você nunca vira na sua cozinha ou ocupando seu banheiro e acho que isso contribuiu para que eu tivesse uma formação mais humanitária, coletivista. Dificilmente mantinha contato com os hóspedes que por lá passavam, mantínhamos sempre aquele sisudo respeito que há ao desconhecido, viam-me como um funcionário, por mais que eu não fizesse nada além de morar de baixo daquele teto.

Seguindo minha vida normalmente, fazia o possível para tampouco ter contato como me interessar pela vida destes transeuntes, porém um deles estimulou minha curiosidade, justamente por suas escolhas. Tratava-se de um rapaz magro e de voz baixa, que apareceu por lá com palavras firmes e decididas, à procura de um quarto. Foi no meio do jantar que ele resolveu aparecer numa garoa intensa de agosto. Atendi a porta porque minha mãe se ocupava em servir os outros hóspedes. Chamou minha atenção que não havia bagagens, a não serem livros que carregava numa espécie de carrinho de feira, num primeiro momento pensei que era um vendedor, percebendo depois que se tratava de um cliente. Havia um quarto que coincidentemente havia vagado naquele dia, precisava ser arrumado, mas o rapaz não se importou com o pormenor e resolveu ficar naquele mesmo dia, pagou um mês adiantado e se enfurnou no quarto, recusando-se a jantar.

Por mais ou menos cinco dias seguintes eu não o vi, inclusive me esquecera dele quando em uma manhã, ao ir à cozinha pegar café, encontrei um pedaço de papel sobre a mesa com uma frase que eu havia gostado, o papel dizia “A minha parte que morde, morde a todos e sorri. Acontece querida, que você tem pouca carne. E eu, muitos dentes”, achei interessante aquilo e fiquei por um tempo olhando com um sorrisinho no rosto quando fui surpreendido por aquele rapaz que me observava não sei há quanto tempo. Percebendo que eu assustei com a presença dele, ele apenas sorriu e apontou para o papel em minha mão e disse que havia esquecido ali, devolvi sem jeito e elogiei o conteúdo, o que foi retribuído com um aquiescer breve com a cabeça.

Deste dia em diante comecei a reparar que este rapaz quase nunca saia de seu quarto, nem nas refeições coletivas da casa, e observar suas escolhas. Às vezes, tarde da noite saia e voltava depois de algumas horas. Comecei a cumprimentá-lo sempre que o via e simpatizava com ele, achava interessante alguém conseguir conviver por tanto tempo com a solidão. Quando eu o via, sempre havia uma de duas coisas em suas mãos, quando não as duas: livros ou bebidas. Ele sempre acordava mais cedo que todos da casa, minha mãe disse-me um dia que “aquele moço estranho” esquecia sempre algumas folhas pela manhã na cozinha que ela tratava de lhe entregar. Curioso, investi em minha análise, acordei mais cedo e encontrei realmente algumas folhas na cozinha, que continham reflexões muito interessantes. Claro que minha mãe ao pegá-las nunca as leu e só repassava ao proprietário. Comecei a todas as manhãs ver o que ele deixava e tive a impressão que sua estada por lá e aquele esquecimento não eram à toa.

Em minha perscrutação, identifiquei uma pessoa excêntrica e extremamente boa. Era como se levasse ao máximo o dogma de “amar ao próximo” por uma via alternativa de “odeia a si mesmo”. Como se com a neutralização de seus desejos e vontades ele pudesse expandir sua percepção ao outro, compreendendo-o. Muitas coisas interessantes ele deixava e elas mudaram minha visão de muitas percepções, como por exemplo, a visão de gostar e amar. “É preferível gostar a amar. Além de mais sincero, é mais sábio pelo equilíbrio intrínseco. Convivemos mais tempo com o que gostamos do que aquilo que amamos. Gostar nos tira a obrigação que vem com o amar. Elimina os porquês que o amor de forma maçante indaga sem parar e desgasta nossa razão a ponto de nos reprimir, como que por autodefesa de preservação” dizia um dos papéis.

Um dia, eu mesmo fui devolver a anotação que eu encontrara na cozinha pela manhã, função que eu delegava à minha mãe. Era uma tentativa de me aproximar, pois a cada dia me encantava mais com aqueles pensamentos que eram longe da minha vida de funcionário, regrada e cheia de cotidiano. Ele foi solícito, observei aquele quarto cheio de livros e vazio, com folhas por tudo que é lado, talvez fosse compreensível que alguma lhe escapasse. Fui direito e perguntei-lhe qual o motivo das anotações “esquecidas” na cozinha. Ele abriu um sorriso malicioso e experiente, perguntou-me se eu gostava delas. Assinalei afirmativamente com a cabeça e ele me convidou para entrar naquele canto desorganizado e que cheirava a tabaco. Ele tinha algo de selvagem, talvez fosse a liberdade excessiva dele que dava a impressão de ter sempre ironia em suas palavras, aqueles seus olhos apáticos, não sabia definir ao certo, mas era um conjunto de características, este lhe dava um poder embriagante, o poder de fazer qualquer coisa.

Conversamos bastante naquele dia e me atrasei no trabalho, era evidente que eu o via como um sábio e tinha ido como um aprendiz em seu quarto, falamos com uma intimidade que dispensava tempo por um compromisso mútuo de interesses coletivos, eu preenchia uma necessidade dele e ele uma minha. Neste entendimento, divagamos. No dia seguinte não havia papéis na cozinha, bati em seu quarto, mas ninguém me atendeu, achei estranho e fui trabalhar. No final do dia minha mãe disse que ele havia partido, mas que esquecera um livro em seu quarto. Fui resgatá-lo, havia um pedaço de papel que caiu de dentro do livro assim que eu o ergui, na folha dizia. “Somos criados para viver e não para pensar. E viver tem sido comer, cagar e entrar no cio. A meu amigo com carinho.” O presente era o Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego, não havia reparado que o mês desde o nosso primeiro encontro havia vencido.

Durante a leitura me deparei com uma resposta de uma das perguntas que essa experiência me causara. Um pedaço de papel dizia com uma letra instável. “Foi por vaidade. A sociedade é a máscara da vaidade. Tudo é vaidade. Por isso o outro nos é fundamental, porque nossa imagem e criação é fruto do pensamento alheio. Ela é a angustiante busca de nós no olhar do outro, eu encontrei-me em ti e é isso que vale a pena”. Senti falta do meu amigo, amava encontrar seus pensamentos em minhas manhãs, não simplesmente gostava e sim amava, porque eu entendia que não nos resta muito a não ser amar uns aos outros e fazer aquilo que nossa espécie mais entende: tirar todo o equilíbrio da sobriedade da natureza.

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