A última carta

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A felicidade nunca me foi confortável. Na paz eu sempre encontrei o tédio; doutro lado, o conflito produz uma verborragia que simplesmente ocupa o espaço vazio. Esse não ser em ser eu não sei se é algum tipo de problema ou benção, acontece que já fui muito fundo, já mergulhei na profundidade das águas escuras do próprio eu sem medo de morrer sem ar, como se me suicidasse em mim, quis ir ao máximo para encontrar minha própria alma para me entender em busca do aforismo grego escrito no Oráculo de Delfos, já que não entendia nada que estava a minha volta. Nesta busca, quando achei que sufocaria de tanto eu, eu finalmente encontrei. Vi aquilo que eu era e entendi, de uma vez por todas, as coisas que em minha volta estavam. Não vou lhe contar. Talvez um dia. Mas não vou lhe contar agora. Sou feito de segredos, não que eles sejam especiais, mas por serem segredos eles se tornam especiais. Este é meu segredo.

Escrevo para dizer sobre o seu pedido. Não sou tão linear com interrupções, por isso utilizo esta carta, dessa forma você não poderá me interromper. O que você me pediu é justamente o oposto do que sou. Antes preciso que entenda: tenho uma aversão aos compromissos, pois quando nos compromissamos com algo perdemos a espontaneidade, pois na obrigação as reações são embutidas. Meu sorriso seria um compromisso e não uma sensação. Nomear é limitar o caos que um sentido possa ter. Realmente é uma pena que nem todos consigam viver sem a definição. Quanto aos meus silêncios, estes são espaços para a atenção. Atenção que uso para perceber você. Mas não quero te confundir, pois na verdade perceber você não tem a ver com você, e que se diga de passagem: nada nunca tem a ver com a gente. Acontece apenas uma sinergia de desejos que põem objetivos em sintonia. Por isso que, a não ser a fome, nada é eterno, amor. Porque ninguém, verdadeiramente, tem nada a ver com isso. Eternidade não tem nada com o tempo, eternidade é intensidade.

Não posso dizer muita coisa sobre mim, já que não consigo querer. Nossos desejos nos definem por não saberem mentir, mas eu simplesmente não os tenho. Como posso eu querer algo enquanto a mudança é viver? Escolher seria um assassinato à vida. A adaptação é a pulsação da natureza, e toda pulsação é um movimento de contração e expansão. É movimento.

Foi ao entender minha diferença que vi a utopia da igualdade. Nada é igual, talvez essa seja uma das minhas maiores diferenças: eu perco muito tempo nos detalhes. Duas maçãs, por mais que sejam maçãs, são diferentes. A igualdade é uma busca desesperada pelo egoísmo. Foi em busca da igualdade que Narciso apaixonou-se pelo seu eco refletido na lagoa, morrendo na poesia de sua beleza. O similar é mais interessante, tem o melhor da igualdade com a surpresa do novo. Não nos transforme em uma só coisa, não somos iguais, o conjunto é uma individualidade profanada.

Desta carta você entenderá aquilo que você quiser entender, nunca compreenderá a verdade dela, compreender é uma questão de se doar, temos que deixar de ser a gente mesmo para entender, caso contrário colocamos uma mácula na sapiência. Quem consegue se abandonar tanto para isso? Tem uma coragem no abandono que me fascina. A covardia de se submeter é a coragem de abandonar. É preciso ter a frieza (que é o abandono do humano em nós) de um cirurgião que corta e disseca; o verbo é a anatomia do sentido.

Acabou? Não. Enquanto tivermos memória não terá acabado. O presente é uma questão de perspectiva, não? Saudades não nos diz sobre distância, mas sim sobre ausência. É possível sentir saudades de algo que esteja presente. Muito provavelmente quem não consegue saborear uma lembrança é por pura falta de imaginação. Eu queria querer… mais. Minha alma é modesta e frugal. E quando esses desejos vêm desejar é como se eu tivesse colocado açúcar demais no café, o amargo se esconde no melado e me pergunto para onde ele foi. Não tenho problema com açúcar, mas com excessos.

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