Peregrino

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Zeca tinha decidido. Em uma semana os preparativos do seu plano entrariam em ação. Caso perguntassem, ele não saberia definir aquilo que lhe movia e a única coisa que sabia é que tinha uma tendência a sentir demais as coisas. Sabia disso porque tudo para ele se tornava inexplicável; todo o vocabulário do mundo era raso para classificar seus sentimentos. Conseguiu executar seu plano com perfeição, pelo menos fazia um dia que não havia sido encontrado. Em trajetos gostava das paisagens; adorava ficar olhando pela janela as pessoas que não conhecia e imaginar o que elas estariam pensando ou inventar-lhes histórias. Conhecer para ele era sempre uma decepção, sua imaginação tornava tudo muito mais interessante do que a realidade. Em uma movimentada estação resolveu sentar, era uma antiga e glamurosa arquitetura britânica, havia um ar de nostalgia e modernidade que se mesclavam de uma forma harmônica no coração daquela cidade cinza, gostou tanto daquele lugar que resolveu ficar ali por alguns dias.

Seus olhos míopes se apertavam para observar atentamente a porta automática que costuma se fechar após um aviso sonoro. Pessoas e mais pessoas saem com seus rostos amorfos e passos rápidos. Depois a máquina parte novamente em intenso movimento e com um som que cala tudo em sua volta, trazendo um vento que despenteia os cabelos. Novamente: pessoas se acumulam, algumas com malas, outras absortas em seus fones de ouvidos, algumas leem, outros olham para tudo e para nada. Zeca observa com uma atenção de analista, sentado naquele banco de plástico duro como se esperasse alguém. Foi quando um esbarrão tirou a sua concentração. Era Juca, menino-malandro, mais velho, experiente de rua, era o dono do pedaço, toda a molecada respeitava aqueles olhos castanhos e grandes que pareciam de personagem de anime. Ninguém sabia quantos anos ele tinha, talvez nem ele, mas aparentava uns 15 e tinha um meio sorriso permanente em seu rosto que esconde algo que não se pode ver num primeiro momento. Aquela expressão sempre incomodara a Zeca, era como se fosse uma camada superficial que ao mesmo tempo era densa, o bastante para impedir que qualquer olhar mais apurado mergulhe na essência. Juca tentava ganhar a simpatia de Zeca que se reservava a evitá-lo, já que não ia com a fuça dos mais populares.

Zeca era magrelo e tinha um rosto sagaz. É difícil afirmar olhando para seu modo pueril que alguém possa ter chegado tão ao fundo com apenas 13 anos. Mas a vida ensinava que a linha do tempo é a mesma da oportunidade, e este trajeto fizera dele um grande conhecedor dos males da vida por meio da dificuldade. Foi dessa forma que ele aprendeu que qualquer virtude se dissolve nas necessidades. Zeca fez o que todo menino da sua idade um dia pensou: fugiu de casa. Pegou sua pequena mochila e foi sensato nas escolhas: só o necessário. Dois pacotes de bolachas de água e sal, três camisetas, duas bermudas e cuecas. Depois se chamou de burro por ter esquecido as meias, ficando somente com o par que vestia.

Andava pelos trens, metrôs, ônibus, sem destino. Atirava a si mesmo cada vez mais distante como criança que joga brinquedo do berço para medir a própria força. Nas viagens, gostava do caminho e não da chegada ou partida, o trajeto para ele era o melhor de qualquer destino. Juca, aquele que tinha tirado a concentração de Zeca, parecia de alguma forma entender por sinais aquela história de vida, talvez ele reconhecesse seu passado naquela solidão arisca e entendia Zeca mais que ele próprio pelas similaridades de algumas escolhas.

Outro trem. Zeca olha para o lado e vê Juca procurando o que ele estava olhando, com cara de interesse fingido, satirizando sua expressão. Não era a primeira vez que ele tentava se aproximar. O meio sorriso se tornou completo quando percebeu que estava sendo observado, aqueles olhos luminosos saudaram o novato na estação, como um rito de passagem. Sinal sonoro. Zeca pensou sobre o partir, em sair dali e ir para outro lugar, não queria ser importunado. Sua busca era o ir sem caminho para encontrar algo que não sabia o que era. O trem partiu. A estação ficou vazia, lentamente Zeca olhou para frente e Juca lhe disse sem o meio sorriso no rosto: Tenho amigos, você pode ficar com a gente. Zeca ignorou o comentário, tinha problemas com a palavra ficar e amigos, por isso fugia de si mesmo. Em silêncio, levantou, se afastou de Juca na distância de três a quatro passos e disse sem virar para trás: Tudo o que precisamos é de desculpas.

Juca não entendeu. Na verdade Zeca havia pensado em voz alta, tinha dificuldade em se fazer entender. Não há melhor argumento que uma desculpa. Era disso que tentava se livrar, uma desculpa para ser feliz, uma desculpa para viver, uma desculpa para amar. Juca, sem dizer nada, ficou de pé, com o meio sorriso intacto nos lábios, e se afastou – Zeca saberia encontrá-lo se assim quisesse.

Zeca tinha costume de nutrir apenas sentimentos que lhe preservassem, aquele caso não era um deles. Sua estada na antiga estação seria breve e efêmera como amor de verão. A ideia é sempre melhor que a realização, pensou. Poderia dizer que o errado foi partir, da mesma forma que não foi correto abandonar seu quarto naquela madrugada em que tinha de tudo, cuidados a afeto. Zeca era fascinado pelo erro, pois assim as coisas lhe eram explicadas, no contato. Ele precisava dos porquês e essa era sua desculpa. Olhou para a estação e viu Juca e outros meninos distantes, brincando entre si. Outro trem havia chegado, estava na hora de partir e continuar a imaginar a realidade.

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