O futuro nunca chega

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Não havia nada de concreto em minha vida, exceto meu passado imutável e revelador. O presente se desfazia em um instante transformando-se nesta história, enquanto o futuro flertava comigo por meio de sonhos e esperanças como um romance platônico. Fustigava-me o cotidiano e o seu repassar dos dias que eram tão semelhantes que se pareciam iguais, encostados a mim com uma intimidade amiga e tenra, fazendo com que eu sentisse o leve, porém esmagador, toque que a acomodação tem sobre os espíritos libertários. A liberdade engana muito mais que a escravidão, ela entorpece aquele que quer voar com falsas asas que nunca se abanam, porém existem inertes. De fato, a história nos distingue e forma como pessoa, é uma porção concreta do que somos (talvez a única) numa forma intangível, mas mesmo assim a única coisa que temos. Ao mesmo tempo o que foi não é, mas aquilo que é sempre foi.

Algo me faltava, algo que eu não percebia, mas sentia a ausência, o espaço vazio em que os pensamentos ecoam em uma torturante repetição. O homem suporta a qualquer coisa, menos o vazio. A fome ensina isso de um modo prático, ela é a resposta biológica para esta conclusão. Eu não suportava aquele nada que me arrastava a um perpétuo presente efêmero e fugaz. Depois que identifiquei esta falta em mim eu tive outro problema. Acontece que meu mais notável defeito é ser exagerado e desta fonte diversas quimeras se formam, e assim o vazio cresceu com meu exagero de forma a preencher todo meu ser. Estava cheio de nada.

Um dia encontrei uma faísca nesta escuridão através das palavras de um senhor que eu não conhecia. Eu estava em uma fila de banco e ele estava à minha frente. O senhor era falador e eu estava próximo, não me deu muitas escolhas a não ser ouvir o que ele tinha a exprimir. Ele contava seus planos de aposentadoria, de mudar-se da grande cidade para uma área rural e viver calmamente. Foi quando o lampejo me veio e abriu meus olhos para o meu vazio: um objetivo!

Não havia nada grande com que eu me preocupasse, eu simplesmente passeava pelo tempo sem um foco. A angústia é a falta de propósito, e eu precisava de um para eliminar o desconforto, queria um motivo para a vida e não vivê-la como um caminho para a morte. Sempre pensei no final, o momento em que a consciência se finda e guarda a contradição do futuro: ela chega quando morremos. Para muitos a morte é um mistério, não para mim, eu sei exatamente como irei morrer.

Morrerei de ataque do coração. Sempre achei esse nome poético e sublime, deveria ser uma honra morrer de ataque do coração. É como se o coração rebentasse e não suportasse as próprias emoções, é a vitória da alma sobre o corpo. Mas não é pela poesia da nomenclatura que morrerei disso. Desde pequeno meu coração me dera estes sinais, acelera-se de modo preocupante com as mais inocentes sensações: uma pessoa esperada que finalmente chega, uma palavra forte que escapa de lábios importantes, um carinho repentino quando menos se espera; pequenas surpresas faziam meu peito explodir em uma arritmia que me parecia uma dança. Eu sabia que este seria meu destino guardado lá no futuro inalcançável, esperando a hora certa para ser presente para então ser um eterno passado.

Mais barulhento que um trovão é a palavra bem colocada, e a do senhor desconhecido me fora de grande reverberação. O objetivo que me faltava dava ao meu presente uma liberdade superficial com um sabor de prazer no tempo, uma anestesia que minha alma sentia com a ausência dos compromissos, porém me indagava de modo peremptório sobre meu sentido, sobre minha existência e me cobria de culpa, uma culpa de viver por viver. Uma nova angústia se formava com a resolução, agora faltava um caminho a percorrer.

A busca do caminho é muitas vezes mais difícil que percorrê-lo, quando enfrentamos uma vereda desistir é trabalhoso demais, por isso a escolha deve ser feita com cautela. Meus olhos são atentos aos riscos, fitei o mais perecível dos objetivos como foco, o mais frágil e ao mesmo tempo mais forte elo da nossa humanidade. Perscrutei bem ao fundo de tudo para identificar este tesouro que seria o guia de minha vida e decidi que ele seria o sorriso. Não o meu, mas sim das pessoas. Se eu pudesse ser o motivo, ser um argumento positivo, ser a alegria no rosto de um amigo, ser uma esperança dentro de um caos, ser um caminho, isso já poderia me realizar. São nossos olhos de poeta que extraem a beleza da realidade, quero esta visão de beija-flor que extrai o pólen das flores. Estava ciente da dificuldade de alcançar verdadeiramente meu objetivo, mas é o perder que torna a conquista interessante, o desafio torna leal o esforço. Paul Valéry dizia que, mesmo Sísifo, ao empurrar o seu rochedo na sua eterna penitência, não fazia um trabalho inútil. Ele cultivava os seus músculos… isso me faz pensar que o esforço é a única ação carregada de justiça, e caso o caminho que eu escolhi me traga sofrimento, não tem problema, não nos resta muito a não ser amarmos uns aos outros e este esforço teria uma justiça bela e pura, sem discriminação. Se o homem suporta tudo, menos o vazio, eu decidi preencher o meu buraco com boas lembranças e dessa forma o meu futuro chegará, em forma de memórias e fragmentada em diversos corações.

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