O melhor em nós

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Há uma eternidade na lembrança que as pessoas sempre buscam. Não há nada mais valioso no mundo dos homens que a lembrança, não importa qual seja, boa ou ruim, o importante é não cair na escuridão do esquecimento que tange a morte na sua forma mais inquietante. O desejo de ser imortal é a grande questão da humanidade que nunca entendeu a finalidade das coisas. Por que da vida se quem nos aguarda é a morte? Esta é a questão que move filosofias, crenças, estilos de vida e que quando dorme a pressão de ser, nos inquieta e perturba a alma em interrogações que suspendem nossos corpos.

Para burlar a finitude, o homem descobriu o amor. Antigamente, os homens procuravam ressarcir a pobreza da matéria com o enriquecimento da alma, mas uma sabedoria estúpida vem fazendo um papel importante na concepção destes seres. Criaturas de olhos cansados, mas com brilho de eterno sonhador, vislumbravam o que se pode ver em Macondo. O prazer da repetição e dos rituais, como uma maneira de fincar na história ocasiões que se eternizem, que mostrem identidade. O mundo quer a todo o tempo se alterar, é uma ansiedade em uma forma diluída e concentrada, que nem se percebe, mas clama a todo o tempo para ser atingido. De todas as desgraças da natureza, o homem tem a mais bela, que carrega a riqueza de toda uma espécie: a fé.

Toda a admiração é uma incapacidade, caso contrário é inveja. Disse Mark para o amigo Roger, com sua voz grave e hálito embriagante, justificando seus atos através de uma crítica – e eu admiro você sem inveja, completou. Depois de uma pausa, disse olhando para seu copo de cerveja – Quanto de inveja há na admiração? Roger permanecia mudo e contemplativo como um bom bebedor de cerveja fica depois da sexta garrafa, fixava suas olheiras no amigo taciturno que se esforçava para alegrar-se com a ocasião. Aquela era a despedida de solteiro de Roger, no dia seguinte ele estaria atado aos laços do matrimônio e isso lhe dava a inquietude que a ansiedade costuma causar ante uma grande novidade ou mudança. A esta altura, a despedida de solteiro tinha só os dois, numa mesa de bar de plástico com diversas bebidas abandonadas pelos outros que já haviam partido, deixando-os como únicos sobreviventes junto aos garçons que já limpavam o local para encerrar as atividades. Roger pensava no futuro e Mark se lembrava do passado, suas experiências amorosas tinham sido todas desastrosas e não conseguia concordar com o casamento do amigo, ao mesmo tempo em que se esforçava para não desencorajá-lo acreditando que suas experiências não podiam ser o reflexo da realidade, acreditava que todo mundo tem direito à ilusão e que ele era obsceno demais para se dar ao luxo de enganar-se assim, para ele, sua visão ia tão além das coisas que elas perdiam a magia que se encontra na fantasia dos olhos das crianças.

Roger guardava mágoa de Mark pela recusa de seu convite em ser padrinho da cerimônia, sua resposta ríspida estava em sua memória. A recusa feita verbalmente acompanhava um cartão negro que dizia em letras grandes e vermelhas uma frase de Anne Hébert: “O casamento é o mesmo medo partilhado, a mesma necessidade de ser consolado, a mesma vã carícia na escuridão.” Felicidades ao casal, Mark. Roger leu com um sorriso lateral e amigável quando recebeu, conhecia Mark e já esperava palavras como estas vindas dele, mas admite ter sido surpreendido com a recusa e tentaria uma última vez persuadi-lo ao contrário. Espantou-se também por ele ter optado por uma citação. Logo ele, tão eloquente nas palavras, mas entendeu que a escolha tinha sido apenas para transferir a responsabilidade de um pensamento não tão otimista em relação ao seu futuro, ele procurava um argumento. Aquele cartão parecia um aviso e não um cumprimento.

A diferença entre Mark e Roger era que um entendia das coisas enquanto outro não entendia de nada. A história dos dois era errante, marcada de pecados. Mas será que alguém já parou para pensar o quanto de virtudes há dentro de um único pecado? Não importa. A repetição e o esquecimento eram parte da trilha destes seres que frente à eternidade amaldiçoada divergiam tanto de opinião acerca de um mesmo assunto. Um deles tinha aquele brilho jovial nos olhos que maturidade alguma pode tirar. Feitos para resistir, o tempo transformava-os e eram resultantes de pontos de vistas, pois as experiências eram similares, o que as particularizava era a maneira de vivenciá-las. Roger era mais forte, forte demais para se deixar derrotar e cair de joelhos enquanto a monotonia lhe mostrava o futuro sem propósito nem direção.

Há algo mais provocador que uma pergunta? Mark já estava embriagado e pensava alto para o amigo que se preparava para refazer o pedido. Roger aproveitou o pensamento do amigo e perguntou novamente se ele queria ser padrinho da cerimônia, Mark por sua vez apenas olhou para lado, sem expressão definida e disse que aquela não era uma história de amor, era uma história de medo. As palavras de Mark machucavam a fé de Roger, que olhou sério para o amigo como nunca havia feito e vomitou: Muitas vezes na vida as pessoas tentaram tirar sua fé, como você faz agora comigo, a dor que sentimos é mais real que a vontade que temos de acreditar, mas nem por isso eu irei desistir. É difícil recomeçar, mas há algo mágico quando prendemos nosso coração em alguém, pois sempre buscamos o melhor em nós e constantemente queremos ser melhores, com isso encontramos a eternidade, pois para sempre seremos melhores e a pessoa amada será nossa lembrança protegida do tempo e do espaço. Cabe decidir se você nasceu para viver ou existir, a diferença entre eles é a autonomia que um exige e que o outro dispensa. Ao terminar, Roger estendeu ao amigo o par de alianças, que prontamente foi resgatada por Mark que olhou entre lágrimas o amigo e disse: é possível entender o amor desde que ele extraia o melhor de nós, até amanhã, e obrigado amigo.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Pessoa Jr disse:

    Um dos meus preferidos… não canso de ler

  2. Pessoa Hjr disse:

    Estranho ler os textos em outras épocas, este ainda continua sendo o meu preferido. Nunca deixe de presentear o mundo com sua mágica modesta e necessária. Sempre adorei ver o mundo com seus olhos e nunca vou me cansar disso… Esta viagem sem precedentes é infinita que todo mundo sente quando lê… Obrigado por sempre moldar e refazer os conceitos, e não esquece. Felicidade Sempre

  3. Pessoa Hjr disse:

    Ainda Único, atemporal e carregado daquilo que vc transborda de mais puro, Humanidade… meu preferido não importa o tempo…

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