Viajante

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É preciso? Com certeza você também deve ter percebido alguma coisa de todas as suas experiências. Não é possível passar anos incólume no mundo, sem perceber nem que seja o mínimo de seu mistério. Mas este que quero compartilhar eu acho que é o maior deles. Algumas coisas já são sabidas, outras vamos descobrindo, e no geral tudo acaba parecendo nada. Pode parecer loucura ou balela, mas a contradição é uma falha da natureza, é encontrar a imperfeição no perfeito da vida. Com os fatos se sucedendo começamos a distinguir essas nuances que não são novidades para ninguém: o tempo se passa e as coisas não mudam. Nossa compulsão por novidades entra em desespero com a monotonia e cria sombras atrozes. A fome de sensações é insaciável.

Assim como eu, por experiência, você provavelmente é uma pessoa que entende a maioria de seus limites; sabe que não se pode esperar muito, e que quanto menos esperar mais fácil vai ser se impressionar com o que chega. Vemos tantas coisas… percebemos que ser é muitas vezes desenvolver uma ideia de ser, ao invés de realmente ser. Vemos que no sorriso temos o cúmulo da ignorância, para sorrir não se pode pensar e isso é estupidamente maravilhoso. Vemos também que o amor é o lado bom da dor, dessa ardência que é o tempo que corrói a saúde da existência. Sabemos muitas coisas que preferimos esquecer. Aí é que pergunto: é preciso? Preciso de necessário ou preciso de exato?

Bom, vamos deixar disso. Quero te contar uma história, provavelmente não será a melhor que você ouviu, tampouco a pior. Mas você já se acostumou a não aguardar grandes coisas do que você vê ou se policia para isso e, se já tiver apanhado o bastante dos anos, saberá que na vida evitar os males é colher o bem. Antes de começar, vamos supor que suas lembranças tenham se derramado nessas linhas e te impeça de ver ao fundo as palavras grafadas, mas mesmo assim mantêm um ar íntimo, familiar. Dessa forma, a breve história (histeria ou alucinação) terá um sentido mais especial, pois será como uma experiência sua, será vivência, e como característica de toda a vivência, ela deixará um rastro em você. Sim, um rastro, não uma marca. Rastros podem ser percorridos, marcas apenas visualizadas, e a intenção aqui é que você possa andar por essa história sempre que quiser:

Tão incrível como um suspiro, era aquele olhar de criança. Sua presença era um acúmulo de antologias, era distraída e distante ao mesmo tempo em que era detalhista e sagaz; era pontual com os outros, mas vivia em atraso consigo. Sempre se apresentava em um plano secundário, como uma pessoa de valor, mas nunca deixava de lado seus interesses, como alguém mesquinho. Tendeu à poesia – dizia sua mãe –, só podia, com aqueles olhos sonhadores, não saberia viver sem ser em sua própria definição. Platão expulsava os poetas de sua República, talvez por medo de quem brinque com a verdade, que é coisa séria na filosofia, até hoje os poetas são expulsos da sociedade, pois na literatura nada é sério, a poesia toca onde não deve ser tocado, por isso é ignorada. Naquele caso, a ardência dos versos era o suficiente para que a criação não passasse despercebida, mesmo em um solo infértil, os olhos pueris criavam lótus onde quer que se focalizem suas retinas milagrosas. Qual era o segredo daquela leveza em meio ao peso?

Não importa falarmos sobre o cotidiano desta vida que estamos relatando. Ele pode ser o meu, o seu, de alguém em um estado muito pior, de um idoso com doença terminal, de uma grávida de um futuro assassino, de um grande inventor. O palco sempre será o mesmo, a novidade da história são os olhos que a leem, é o sentimento que se perde nas entrelinhas, quando uma palavra aparece após a outra e dá sentido a algo até então desconhecido, é o entrelaçar das existências.

Conheci essa pessoa que cantava à toa em uma curiosa casa da Rua Sebastião. Cantava em meio à miséria e isso me despertou interesse. Rodopiava e cantava com a sabedoria dos gestos, a arte dos sinais, a linguagem da felicidade, e assim embriagou o tempo que só se faz passar. Aquilo me era estranho, aquela forma livre em meio a tantos cárceres que a realidade abriga. Aquilo que nos é estranho nos parece mais real que o óbvio. Por isso aquela forma de viver em um mundo que continuamente repetia seus pecados e suas virtudes era quase que alienação que eu observava com certa inveja. Mas sua alegria se fez entender. Quando sua mão quente me tocou, esse toque tinha algo. Não foi meu corpo que ficou leve, mas sim as coisas que se tornavam mais pesadas. Tão pesadas que o peso do meu corpo não se comparava ao do mundo todo, era como se cada milímetro de universo fosse mais denso do que eu. Naquele momento as coisas tinham ganhado sentido, e o peso da significação dava-lhes algo que eu jamais vira antes, lhes dava forma e utilidade. Aqueles que acreditavam no talento passaram a acreditar nos sonhos, quem acreditava no tempo passou a valorizar a lembrança, quem era nada passou a ser tudo.

Contudo, só pode ser um mistério. É uma ausência presente, não se sabe o que, mas se sabe que existe. Se é preciso? O que é necessário é ser exato, porque viver não é preciso quando se pode navegar.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Alessandro disse:

    Ó estas palavras. O senhor é prosa por dentro. Por fora, surpresa. Como diria Veríssimo: EUfemismo, TUfão.

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