A escolha

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Aquele ambiente rústico e sem capricho, em uma movimentada esquina de transeuntes ocupados, foi o cenário para surpreender quem julgava não se surpreender com mais nada. Pequenas mesas de plástico que eram usadas como um altar dos boêmios e confessionário de diversas naturezas, como também para contemplação, imaginação, tédio e encontros, assistiu ao começo do que pode ou não ser um romance.

Ele estava do outro lado da rua, em frente a este boteco corriqueiro enquanto esperava o sinal de pedestres mudar do vermelho para o verde. Foi assim que se distraiu com dois cães que brincavam doutro lado da rua. Imerso naquela imagem, suas bochechas se contraíram involuntariamente, esboçando um sorriso que foi quebrado por uma voz doce que lhe disse “moço… o sinal abriu”. Suas vistas foram de encontro à melodia daquela doce vibração sonora e seu olhar cruzou-se com o brilho de retinas alvas e puras. A surpresa calou a educação em agradecer a gentileza e a moça de rosto sorridente continuou seu caminhar.

Petrificado pela admiração repentina, percebeu que o semáforo para os automóveis já ia se abrir enquanto a moça que lhe dirigira a palavra já estava quase noutra esquina. Pôs-se a atravessar rapidamente com os olhos fixos naquelas madeixas douradas como o sol que se escondia naquela tarde monocromática. Os cães que outrora brincavam descompromissados com os perigos de uma grande e agitada cidade saíram em alta velocidade sem se preocuparem com as pessoas que por lá passavam. Afoitos pela brincadeira, o maior dos cães ao correr se chocou com aquela que era o ponto de atenção do rapaz, derrubando-a em meio à poeira e sujeita da metrópole.

Aquele cão não poderia ter sido mais conveniente, era o ensejo que o rapaz precisava. Mais rápido do que ela pudesse perceber, ele já estava ao seu lado, com a mão estendida, com uma satisfação no olhar por estar novamente na encantadora presença daquela mulher desconhecida e que por isso era tão fascinante. Ela apenas sorriu ainda no chão e aceitou cordialmente a ajuda. – Machucou? – A indagou. Ela apenas meneou a cabeça e com a mesma doçura na voz que ainda estava na memória dele como melodia proferiu um singelo “obrigada”.

Tomou fôlego e coragem para dizer quase que gaguejando a ela que se sentasse em uma das mesas daquele plástico duro, para que assim pudesse se recompor e aproveitar para tomar um suco com ele. O convite embutido na preocupação era de alguma forma esperado pela moça. Ela o olhou quieta em seus pensamentos. Havia pedaços e fragmentos do passado que dizia coisas sobre encontros. Lembranças de outras situações que convergiam com aquela. Encontrou o cheiro ruim da decomposição de sentimentos que ela cultivou com algumas pessoas mas que morreram desnutridos e sem atenção. Tudo isso era passado, mas quem disse que o passado não vive no presente? Para ela o presente só existia por causa do passado e por isso perscrutava sua história como quem buscasse autorização para suas vontades.

Mais rápido que sinapses, diversos pensamentos lhe passaram à mente. A moça pensou em tudo que já vivera e tudo que há para viver com a simplicidade de um gênio; Ela não via saída na repetição que o mundo cismava em seguir à risca de nascer, crescer e morrer, e seus olhos estavam sempre fitando a morte que é incômoda a quem busca o para sempre.

Ela buscava, ele também. Se a vontade fosse a resposta para todas as questões, não teríamos dificuldades para quase nada. Quando conhecemos algo, raramente temos escolhas. Por isso ela tinha a resposta do convite antes mesmo dele ter sido feito. Enquanto isso, o semáforo voltava a se fechar, da mesma forma que abria, ignorando o casal.

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