Culpada

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Ela era menina da vida, pequena e indefesa, encapada de inocência que a fazia pura pela tragédia simples de ser. Ela sentiu de um jeito que o tempo não pode explicar. Logo ele, que tudo responde. Era algo concentrado, de forma que milênios não justificariam sua composição. Era um amor quente, que tomava conta de todo o ser, deixando seu calor transbordar pelos pequenos dedos afoitos que percorriam a tênue estrutura com uma mistura de curiosidade, carinho e desejo. Com as digitais, sentia a textura macia daqueles pulsantes tecidos.

Aquele momento era somente deles, o mundo a sua volta se silenciava para ouvi-los e toda a memória residia naquele instante: o eterno presente do toque. Seus dedos percorriam todo o corpo, analisando com dedos clínicos, cuidando para que nenhum detalhe passasse à sua visão de apaixonada, que vê em pequenos fragmentos realidades inteiras.

E então ela o apertou. Porque precisava comprimir aquele sentimento com um gesto, era necessário justificar aquela torrente de desejo que de dentro dela nascia. Seus carinhos sufocavam e apertavam de uma maneira que seria absurda e cruel se não estivesse sobre o léxico da pureza, no campo da inocência. Era a força destrutiva do excesso, era a ignorância do completo.

O barulho tinha parado e só restavam suas mãos desajeitadas, mensageiras da realidade de seus afetos. “Mas o que você está fazendo!” – veio a voz da mãe, rude pela autoridade, chocada pela visão. O pequenino pássaro já estava morto e endurecia nas frágeis e indefesas mãos de criança curiosa. Ela não resistiu apenas em vê-lo cantar em sua gaiola e o tirou de lá porque precisava sentir. Ao sentir, ela entendia sem precisar de explicação. À medida que a sensação lhe preenchia, a compreensão era instantânea. Na linguagem dos sentidos não há memória, por isso todas as sensações resumem todas suas complexidades na simplicidade de serem boas ou ruins. Aquele toque tinha sido o melhor que ela queria oferecer. Porém, uma lucidez inflamada e dolorida lhe tomara e com horror constatou o resultado da entrega aos seus sentidos: a morte. Não havia sido por maldade, a ignorância na forma de inocência é linda e nunca ninguém entenderia aquele tipo de amor, tão exclusivo quanto uma experiência.

Seus olhos foram tomados pelo remorso e se inundaram de culpa. Uma das formas da felicidade é a ausência de dúvidas. Naquele momento em que ela o acariciava ela não tinha perguntas, apenas respostas. O fato de sua felicidade ter a alienado até o extremo queimava suas retinas. Ela já não sentia, apenas pensava e já não entendia. A culpa é a penitência dos maus. Sentia aquela evidência que tinha sido amada e morta por ela já fria e enrijecida, como o resultado de uma conta errada. Será possível condenar a inocência pelas suas consequências?

A realidade não dava escolha, e isso foi entendido tarde demais. Sua qualidade era mortal, sentir demais havia provocado algo ruim e com isso lhe ocorreu o medo de tocar, de se aproximar e de manter perto qualquer coisa que fosse estimada. Sabia que seus dedos sufocariam com o desejo de afagar, tinha consciência que o que de mais precioso e íntimo que ela podia oferecer era letal. Teve medo, sentiu um calafrio tão rígido quanto o pequenino corpo do pássaro e entendeu. Foi tomada por um pavor de ter de viver em um mundo onde sua felicidade pudesse depender da dor. As lágrimas não caiam mais e num silêncio mórbido que preenchia seus pensamentos aceitou o fardo de ser eternamente culpada por si.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Fi disse:

    Gostei. A princípio li outra coisa e depois me senti culpado por ter pensado daquela forma.

  2. Alessandro disse:

    “You dress me up, I’m your puppet
    You buy me things, I love it
    You bring me food, I need it
    You give me love, I feed it …
    …But look at my hopes, look at my dreams
    The currency we’ve spent …”

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