Como me tornei estúpido*

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Eu era inteligente demais para entender a sabedoria que há no supérfluo. Foi por mimetismo e com muito esforço que pude compreender. Envolto numa alienação da ignorância eu estranhava o que chamavam de nobreza por classificá-la como parca e desta forma o mundo inteiro me parecia um dicionário com significados trocados. Aceitava a diferença resignado e procurava os atalhos na imaginação para, como um artista, desenhar a realidade que mais me agradava. Na tentativa de suportar o peso que o alheio tem no particular, fortaleci minhas desculpas com argumentos irredutíveis e esculpidos a diamante, para então coibir novas ações e manter meus erros com roupagem de acertos, pelo menos às retinas sociais, da mesma forma que uma crítica esconde as deficiências de um crítico.

Todo o ideal é uma mentira. Corremos atrás dos nossos sonhos mesmo sabendo que a realidade é seu antônimo. Ignoramos isso. Qual é o gosto do impossível que nos vicia na eterna expectativa? Por que a felicidade é daqueles que sonham? O dom da consciência é o presente mais perverso da natureza, pois infeliz é aquele que percebe o tempo, a anacronia é a única coisa que concede a felicidade. Crescemos com ciência disso, mas quando ouvimos não tínhamos a maturidade de entender. Por exemplo, as histórias infantis. Elas têm um começo e um final sempre muito semelhantes e se engana quem pensa que isso é uma desatenção. “Era uma vez” e “viveram felizes para sempre” concentra o cume da mais erudita filosofia de vida. Felizes para sempre isenta o tempo assim como “era uma vez”, e ensinam isso como fantasia… talvez a felicidade seja fantasia. A poesia encantadora das palavras é o fato delas ensinarem por meio da experiência e não da expressão por si só, por isso cada uma tem um sentido único para cada pessoa.

A minha aguçada percepção atrapalhava o Grande Objetivo. Perceber demais não é ser sagaz, mas sim indiscreto. Os questionamentos eram a ebulição das ideias que geravam mais interrogações do que pontos finais. Comecei a acreditar que minhas necessidades não eram reais – seriam elas um sonho? –, e assim pensei em decifrar o que de fato era necessário para me banhar dessas águas com o intuito de dar sentido às coisas. Foi assim que comecei o processo de me tornar estúpido. Corrobora com isso o fato de que grande parte dos pensadores classifica a ignorância como uma benção. Mas sempre achei que havia algo fundamental para se atinar nesta questão que passava despercebido.

A necessidade, por sua vez, tem uma hipocrisia inerente a ela porque o que verdadeiramente importa está sempre abaixo do que é realmente agradável. Por ela ser assim tão vazia, criamos mais e mais desejos com carga de essencial para enriquecê-la. A simplicidade do necessário é irritante à inteligência. Gosto de observar a criança que mostra com sinceridade nossa dificuldade em separar o necessário do desejoso. Criança: animal com pouco conhecimento que sorri com uma facilidade bem maior que os adultos. Quando chegamos à fase da maturidade, muitos se lembram desta estupidez com uma nostálgica saudade. Ignorar é filtrar. O que te faz diferente de quando você era criança? Conhecimento. Hoje sabemos que o conto de fadas é mentira, que o Papai Noel é mentira, que não existe um mundo encantado. Se o conhecimento nos tira o brilho que os olhos pueris produzem, por que almejá-lo? Acreditar é a sabedoria mais estúpida que existe.

Não é simples ser estúpido e é preciso muita habilidade que, ao que me parece, muitas pessoas já nascem aptas a isso. Mas elas perdem grande parte do espetáculo, pois a consciência é o que dá o valor. As coisas perdem o valor quando não são traduzidas para o abstrato mundo das palavras. Ou seja, é preciso ter conhecimento da própria ignorância, ela deve ser uma escolha. Eu achei um atalho especial para isso. Einstein tem a célebre frase de que a mente que se expande não volta ao seu estado normal, e ele tem razão, mas isso não quer dizer que a erudição não pode ser burra: muito pelo contrário, ela deve! Para eu conseguir chegar à néscia felicidade precisaria de algo que simplificasse todo o universo em um ponto, que reduzisse as possibilidades para vislumbrar um único caminho, algo que traçasse o destino, que me fizesse sorrir mesmo que não tivesse graça, algo que desse ao oxigênio uma fragrância mágica.

A dica me veio da literatura, que certamente é uma das mais supérfluas atividades do homem, pois sob o ponto de vista da necessidade ela é um capricho, um mero adorno que homens cultos usam como instrumento para desejos maiores. Não há nada mais ignorante que a beleza. Ela é quem vai salvar o mundo, como afirma Dostoievski. E por acaso você já reparou como é lindo o amor? Esse est percipi (ser é ser percebido).

* Este título é emprestado do livro de Martin Page.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Alessandro disse:

    ler os seus escritos aqui, virou sentimentos byronianos que reescrevo aqui e multiplico em meu blog:

    That man of loneliness and mystery,
    Scarce seen to smile, and seldom heard to sigh —
    and
    He knew himself a villain — but he deem’d
    The rest no better than the thing he seem’d;
    And scorn’d the best as hypocrites who hid
    Those deeds the bolder spirit plainly did.
    He knew himself detested, but he knew
    The hearts that loath’d him, crouch’d and dreaded too.
    Lone, wild, and strange, he stood alike exempt
    From all affection and from all contempt

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