Em busca de Sherazade

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O que precisamos é de um destino. E aí que tudo começa a complicar porque a falta de orientação tende a nos levar ao caos. Sou adepto da filosofia de que o futuro nada mais é que a decorrência do que fazemos hoje. Há injustiças, sempre, mas se fizermos nosso melhor diariamente o futuro será consequentemente bom. Apesar da complexidade de percepção do que é bom ou ruim, a simplicidade da lógica é algo que me intriga, mas talvez isso aconteça porque nem sempre a resposta é aquela que queríamos ouvir. A experiência me conduziu à perpétua busca, porque a realidade mata uma esposa por noite.

Por hábito aumento as sensações. De alguma forma tenho impressão que as coisas têm maior impacto sobre mim. Com isso, às vezes, o que digo acaba parecendo exagerado, mas é de verdade. A hipérbole é meu eufemismo, precisei desde cedo policiar os sentimentos e aprender a anestesiá-los de modo que eles não fossem mais fortes, para que eu pudesse seguir a simples lógica sem interferência dos desejos.

Nesta caminhada aprendi a verdade e não nos demos bem, desconfio que ninguém gostaria dela, por isso enveredei na busca de Sherazade. Repare que no abraço mais apertado ainda há uma distância que nem toda a força do mundo pode aproximar. Sempre existe, por menor que seja, um pequeno vazio que impede a verdadeira união. A física é inflexível quanto a isso: dois corpos não ocupam o mesmo lugar. Estou aprisionado neste vazio. Na distância inexorável que há entre duas matérias, o verbo é o abraço que trata de unir almas. Isso faz com que as palavras fiquem infinitamente acima de qualquer força da natureza, pois nem mesmo os átomos têm o poder de criação contido em uma frase.

O que é a palavra senão uma histeria do desejo? Uma expressão de uma realidade absurda que só ganha lógica quando está acompanhada da fé, a mãe de todas as incoerências. Os homens profanam o verbo deturpando-lhe o sentido, fazem isso através de atitudes que fogem do discurso, e esquecem que é nele que se forma o pensamento e que sua estrutura é a matéria-prima para a compreensão. Há um vazio, como no abraço, entre o dito e o compreendido, a verdade se esconde aí .

Há um labirinto de mistérios que distancia as coisas. Na tentativa de me aproximar pedi para a esperança perscrutar os longos corredores que faz o eu ser diferente do você e nisso eu cai. Neste vazio é fácil se perder, pois falta a certeza do caminho e quando a dúvida aparece, dissipa-se a ilusão. Quando senti a gravidade da tentativa o peso se multiplicou e a queda foi profunda. Tentar é a busca de um sonho, é a construção de um desejo, neste caso as palavras dão suporte para conter o peso que o invisível mundo das ideias tem. Elas são as únicas que desafiam e abraçam o abstrato escondido na individualidade, traz à luz a própria raiz. Doutro lado, nos percalços das expectativas velamos a esperança, isso faz com que quão mais intenso for um desejo, mais fundo ele pode ser enterrado. Entende o perigo da hipérbole? A fé é uma arma que leva a alma com as asas da esperança a destinos desconhecidos e pode ajudar a não despencar neste abismo que há entre nós. Sherazade nos ensina do que o amor sobrevive.

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