Correnteza

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Dizem que história de pescador é mentira por excelência. Mas nem todas. O que acontece com frequência é que as pessoas não costumam entender a pureza de um verdadeiro pescador, por causa disso apontam como hipócritas suas experiências. Mas não são. O mar é sempre generoso e nunca nega o peixe, isso para um bom observador é um tipo de sabedoria que talvez esteja além de muitas naturezas.

Certa vez no horizonte de uma praia havia uma humilde embarcação que flutuava no mar sempre no mesmo lugar. Diziam que o habitante daquele barco era um antigo pescador local, homem que há muitos anos morava à beira-mar com sua esposa e vivia do que ele lhe provia. Após a morte da mulher, isolou-se naquela singela morada. Por anos a imagem daquele horizonte era tingida por aquela solidão ondulante, independentemente de chuva ou sol.

Na mesma época, um famoso pintor descansava de um intenso período de criação, foi recarregar suas energias em uma praia para fugir da rotina massacrante em que havia se envolvido. Fitando o nada, olhou aquele mesmo barco, que parecia abandonado. Não deu importância para aquilo até que no 3º dia sua curiosidade de artista o inquietou com aquele fato estático.  Para artistas tudo tem significado, aquele detalhe era um exagero. Soube pelos moradores locais o histórico do mistério, algumas versões eram de forma exagerada, outras poéticas e ainda tinham algumas insanas e incoerentes. Enlouqueceu de amor, perdeu o gosto pela vida e até crenças absurdas de que a mulher dele virara sereia; tudo é dito pelos lábios populares. Apaixonou-se pela fantasia e resolveu retratá-la.

Foi o quadro mais triste que ele fez da vida dele. A solidão inquieta do pescador era um mistério e uma mensagem. O quadro retratava uma infinidade de cores que misturavam céu e mar em uma coisa única e disforme, com apenas um barco abandonado numa imensidão de cor, como um ponto escuro que indica um cancro em uma radiografia.

O pescador está acostumado a não ter um chão fixo, já um artista é o inverso, precisa tingir, marcar, mostrar, precisa de um solo para as raízes de suas sementes. O mar é o único lugar que torna o sempre e o nunca verdadeiros, por mais mentiroso que isso possa ser. Ele é sempre o mesmo e sempre diferente, o que se perde no mar nunca mais volta ao mesmo lugar, mas sempre estará lá.

Naquele amanhecer algo de estranho tinha acontecido. O barco sumira, e não só ele, o pintor também. Encontraram apenas o quadro com sua solidão sombria e o deserto no horizonte. Dizem que na ânsia de entender aquela dor flutuante, o artista entrou no mar hipnotizado por sua paixão e se perdeu naquele nada. O barco, no desejo de ser contemplado, se desprendeu para salvar o pintor, mas se esqueceu da correnteza… por ela foi levado. Nunca mais os dois foram encontrados, o que ficou deles foi apenas um retrato, uma memória, uma arte. Com isso, aquele momento que foi único, transformou-se apenas em mais um.

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1 comentário Adicione o seu

  1. ... disse:

    Firme… Com ritmo intenso… Se for pra sentir tem ser intenso, tem que se atirar, tem que ser de uma força sem igual. Suas palavras, seu compasso, seu jeito… Admirável a força que vc tem e que brinca com os sentidos. Um dia, quando crescer… Quem sabe… Ou não. Como sempre faz a gente ficar com a respiração ofegante, descrente, de como consegue roubar tantos sentidos.

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