Pequenas grandezas

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É quase mágico quando as coisas se combinam com coesão, como se tecessem um poema da realidade que dissesse por si só apenas conclusões que nos evitam às tediosas perguntas racionais. É quando a sensação se torna tão completa que já nos brinda com a resposta antes mesmo da dúvida. Fred desfrutava disso enquanto aspirava o delicioso cheiro do pó de café em plena às 2h da manhã, aguardando a cafeteira fazer o trabalho dela. Estava sem sono e o café era tão corriqueiro que ele não associava o fato de não dormir a isso, jurava de pés juntos que a cafeína não lhe fazia mais esse efeito. No entanto, estava em pé madrugada a dentro sendo que deveria estar dormindo para acordar novamente em menos de 6h. Pensava em coisas aleatórias navegando na realidade, mas divagava sempre em rumos que contornavam os maremotos.

Nem velho e nem novo, 35 anos, sem saber o que era sexo desde os 32, quando pagou uma puta pra se livrar da última seca. Fred era trabalhador e explorado, ainda que a exploração já seja inerente ao termo trabalhador em muitos casos. Solitário, amante de ópera e de poemas da estirpe de Camões, pouco convencional para discutir entre o pessoal do trabalho, por exemplo. Não era do tipo social, era um cara na dele e não gostava de sair em badalações. Não se lembrava da última vez que recebera uma visita em seu minúsculo apartamento alugado. Tinha um gato e ele era uma ótima companhia. Falando assim até parece uma vida sôfrega. Na coletividade, os traços da felicidade são distintos ou, no mínimo, previsíveis, todos estes são distantes da realidade de Fred, mas se olharmos de verdade para ele nós vamos reparar que ele sorri.

O riso entrega um segredo. Aquilo que nos faz sorrir revela o íntimo, é a característica do homem que resulta um raciocínio, é como uma contração involuntária dos músculos através de um estímulo. Alguns atribuem o riso ao escárnio, à superioridade, outros à harmonia e prazer, o riso de Fred passeava entre o menosprezo ao silêncio da sua realidade e o deleite da imaginação. Não se deve ensinar a sorrir e muito menos se acostumar com isso, o riso natural é quem diz sem mentiras, aquela expressão de Fred era autêntica.

Tomou seu café olhando o céu na janela, as estrelas tão brilhantes e o lirismo do mistério da distância de sua luz, que aos nossos olhos é sempre estática por mais que navegue; viu com interesse a ausência nas ruas, é curioso como tudo parece realmente dormir pela noite, até o vento é mais brando para não acordar as sombras. Pensou em assistir a um concerto, mas censurou sua própria ideia que ousava ainda mais dentro da própria ousadia de negar o sono e não se preocupar com isso. As orquestras o acalmavam, mas aquela música não o faria dormir, pois sua atenção ficaria voltada nela até a última nota. Seu contentamento era ver aquelas diversas pessoas, com seus variados instrumentos, todas compondo uma beleza sonora através do trabalho em conjunto. O maestro regendo aquelas pessoas e a harmonia daquilo representava, a seu ver, a vida em grupo na sua máxima perfeição, em que todos seguem uma base e conseguem em seu espaço produzir o belo sem interferir na arte do próximo, fazendo do conjunto uma obra.

Algumas vezes lembrava com saudades de algum sonho de que tinha sido acordado pela luz do dia. Percebeu assim que já deu muito valor para as coisas erradas, entendia a saudades como um castigo que as boas memórias deixaram, ao mesmo tempo, a experiência de vida explicava que o único passado valioso é aquele que fica no presente, e seu presente era sereno e desperto como a noite dos insones. Entendeu assim a verdade dos frutos de uma fé, soube que por mais doce que possam ser, invariavelmente eles apodrecem. Passou a cultivar sementes, elas sim são eternas e sempre fazem brotar, mas elas têm seu preço, só crescem com a dedicação. Ao terminar seu café foi à cozinha, já resoluto que tentaria sonhar novamente. O modo de Fred sorrir denunciava o quanto ele era diferente, a sensação de ser um completo estranho entre seus semelhantes distancia ele dos outros, mas ele aproveitou esse espaço para plantar, sorria disso. Havia uma pequena grandeza que lhe fazia encontrar a alegria pura. Ele tinha a imaginação que fazia dele alguém melhor para si mesmo e para o mundo, usava aquilo de uma forma tão perfeita que era pouco ruidoso e bastante plácido. No barulho, nada pode ser ouvido com precisão e o silêncio absoluto é mais estrondoso que qualquer alarde. Ele fazia som, mas era imperceptível aos menos atentos, naquela paz entendia sua alma e fazia dela tão grande que o mundo era pequeno em seu império. Ele se tornou o impossível. Mas nada vence o relógio que não dorme, o cheiro do café já havia se dissipado e ao apagar a luz sentiu um cheiro ruim, percebeu que o cesto de lixo estava cheio. Antes de dormir resolveu jogar fora o lixo, no momento em que Fred se livrava de seus próprios restos teve um remorso, pensou na lixeira que para estar limpa, precisava estar vazia.

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