A liberdade do jardineiro

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Sua infância teve cheiro de terra, brincadeiras levadas, sujeira da natureza e sorrisos de alegria. Seu pai era jardineiro e o levava junto ao trabalho, já que a mãe também batalhava pelo sustento da família e não podia ficar com o menino. O ofício de jardineiro permitia que o garoto ficasse à tarde, após o colégio, em companhia do pai, e ele tinha como principal diversão construir castelos de terra e criar rallys imaginários enquanto o sol castigava seu pai.

O menino enxergava com admiração inocente e pueril as mãos hábeis do velho jardineiro, imaginava que as flores eram amigas dele e que elas o idolatravam, fertilidades de uma imaginação de criança. Para impressioná-lo, se empenhava nas construções de terra para arrancar um sorriso em meio ao suor daquele rosto sério. Na época, era primavera e o jardim explodia em cores e odores, uma beleza que satisfazia até mesmo os olhos menos sensíveis às exuberâncias naturais; aquela aquarela pintava o retrato da harmonia, do cuidado, do zelo e da dedicação do trabalho deste paciente jardineiro, e este esforço brindava os olhos de quem quer que fosse com uma surpreendente exalação de vida.

O jovem se impressionava com as cores e com o resultado do trabalho que aqueles frágeis e singulares encantos demandavam. A beldade de cada flor e a incrível composição que faziam quando olhadas em conjunto eram de um prazer misterioso para seu raciocínio simples de garoto que se atentava apenas à beleza e ao sorriso. Decidiu então entendê-las a seu modo, e, para mostrar o orgulho de sua hereditariedade, disse resoluto ao velho: quero aprender jardinagem! A sabedoria do velho jardineiro e sua paciência tinham sido construídas como as plantas que semeava, a custo de dedicação e com um crescimento gradual, passo a passo, até chegar a seu esplendor. Ele pressentia que aquele pedido não fazia sentido e aquele trabalho delicado não era para aquelas enérgicas mãos de criança, mesmo assim não era homem de se dar por intuições, para ele eram os fatos quem comprovavam e o pedido teve mais força que sua própria opinião, além do que, ensinar não lhe custava.

Querer é sempre o passo mais infantil de um desejo e é incrível como isso pode nos persuadir abstendo-se do uso da lógica e da coerência. Há uma educação que não pode ser ensinada e que reflete a maneira com que lidamos com a vida. A inexperiência pode desnudar esta verdadeira e natural essência que nos predispõem. O velho jardineiro tinha essa ciência e sabia que havia algo no desejo do filho que ele não conseguia identificar e que muito provavelmente nem o garoto sabia. Querer aprender jardinagem tinha outro objetivo que não era cuidar das plantas. Olhou seu filho de cima abaixo com expressão rude respondeu secamente o garoto: se entendêssemos antes de querer as coisas talvez nossas vontades mudem. Você quer mesmo aprender jardinagem? O garoto tinha um rosto firme de sonho a ser realizado e mantinha a afirmativa em suas palavras. Está bem – concluiu o velho jardineiro, a partir de hoje te ensinarei.

Guiado pela mão do pai, o filho era exemplar na poda e nos cuidados, não havia uma pétala que passasse despercebida, nenhuma planta fora maltratada nem por acidente. O velho jardineiro sentiu vergonha por ter pré-julgado o filho daquela maneira, mas o fez por conhecer a natureza da criança e ainda tinha um desconforto em relação a tudo. A observação para o velho tinha mais mérito que seus achismos, deixou de lado as velhas preocupações e convenceu-se que o desejo poderia de fato transformar.

O garoto começou a ajudar o pai, sempre com supervisão, e desempenhava o papel muito bem. Um dia, em uma atípica tarde, a mulher do jardineiro, mãe do garoto, teve um mal-estar e precisou ser socorrida. O menino ficou sozinho responsável pelo jardim enquanto o pai foi buscar a mãe no trabalho para deixá-la repousando em casa, afinal, o velho tinha confiança que o garoto aprendera bem o ofício e logo estaria de volta.

Sem a presença do pai, o garoto distraía-se facilmente com as borboletas e a diversidade natural que um formoso jardim pode apresentar, até que seus olhos curiosos fitaram um pássaro tão colorido quanto às várias pétalas daquele espaço. O pássaro pousara em uma árvore a uma distância que apenas os olhos podiam contemplar. Suas asas eram um espetáculo quando abertas e o menino se apaixonou por aquilo. Dado à liberdade, identificava ali seu próprio voo uma vez que para os sonhadores as asas são sempre mais atrativas que as raízes.

Forçava o animal a voar de um lado para outro apenas para vê-lo em movimento, sentia-se feliz, realizado, ia atrás do pássaro por todos os cantos do jardim. Pequenas e plenas alegrias da meninice. A imaginação é a única realidade do homem de qualquer idade, naquele momento o voo era sua verdade por mais impossível que lhe fosse. Essas verdades são sempre incontestáveis e a realidade das verdades inventadas estão no desejo, e não no teor. A fantasia do jovem jardineiro com seu pássaro colorido teve um fim com o berro de seu pai que se surpreendeu ao voltar para o trabalho. O encanto do garoto pelo pássaro fizera com que, ao ir atrás do animal, ele se esquecesse das plantas. E assim, sem notar, o garoto pisoteou as flores, desmanchou arranjos e, o pior, fez com que o tempo comprovasse o pressentimento do pai, que sabia que a força de um desejo inocente não pode ser maior que a natureza de alguém.

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