Obra de arte

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Os traços do rosto são como as densas linhas de poemas que sonhadores tecem com as letras em rimas e estrofes. São diversos, profundos, expressam todas as emoções dentro de limitações que parecem ter o infinito à disposição. Um rosto é tão parecido com outro e ao mesmo tempo é tão singular… creio que seja uma brincadeira de mau gosto, um objeto que nega a própria definição, pois é único e diverso; como a correnteza de um rio que nunca é igual, mas é sempre a mesma. O semblante nada mais é que uma tela em branco que a alma usa para desenhar as sensações e expressões. Estes retratos fascinantes da natureza também enganam, a si próprio ou aos outros, mas isso não interessa, pois nada passa aos olhos de Elliot.

Ainda sob efeito da melodiosa voz do homem que tentava convencê-la, Margaret não acreditava no que estava a ouvir. Sabia que não era linda, porém não se achava feia, tinha a ciência de não ser o padrão social que as revistas e a televisão impunham. Mesmo assim lhe parecia chacota o fato de um artista querer retratá-la, ainda mais naquela abordagem duvidosa, enquanto ela estava no supermercado fazendo compras. Aquele estranho homem que se aproximou na bancada das frutas tentava convencê-la que o artista, cujo nome nunca ouvira falar, Elliot Tenant, era o principal visionário daquela época, um pintor considerado um Michelangelo da pintura moderna. Ela nunca entendeu de artistas. O rapaz tinha revistas que continham reportagens que sustentavam sua palavra, e enquanto Margaret as olhava tentando não demonstrar interesse, ele prosseguia.

Elliot tem uma rara doença nos olhos e é isso que o faz singular. Ele consegue ver o que realmente são as pessoas por trás da máscara do rosto, que tem todas as expressões para macular o verdadeiro ser. É um dom que lhe custa caro, já pensou nunca ser enganado, saber sempre da verdade através do olhar e das coisas? Uma vida sem ilusões deve ter seus prós e contras… O homem refletiu e fez uma pausa, não conseguiu escolher as palavras certas e para retratar o cotidiano de Elliot, enfim prosseguiu. Todas suas obras são imagens que quase não se parecem humanas, apesar delas serem retratos das pessoas que posam para ele. Ser observada por aqueles olhos é uma honra e um desafio, aquele que é retratado por este pintor tem sua vida transformada, muitos ficam em choque a primeira vez que vê o próprio retrato, é como se fosse o espelho da sua essência. Os modelos são mantidos em segredo, por isso procuramos muito bem quem chamaremos, fazemos uma longa seleção e triagem, estamos estudando você assiduamente há pelo menos 3 meses. Ele mesmo a escolheu. Inclusive sugeriu que eu falasse contigo em um supermercado para que você se sinta segura em público com esta história que pode parecer sem sentido a princípio, mas é um convite muito importante.

Apesar de se sentir assustada com o fato de estar sendo seguida às escondidas, no seu íntimo, ela se sentia lisonjeada. A observação é o princípio da fascinação, esta ideia deixava Margaret suscetível a aceitar a oferta. Cuidar também é observar, sentiu-se importante. Estava curiosa e essa era a vitória da abordagem do estranho rapaz. A partir daí, ambos, arte e artista, tinham um elo que não pode ser facilmente quebrado. Soube mais sobre o homem que queria retratá-la, ele não saia de casa por conta da saúde, era muito sensível à luz e qualquer clarão poderia cegá-lo. Era um homem que pouco dizia, viu a imagem do artista nas revistas e ficou impressionada de como era diferente, ele tinha olhos de cor vermelha, de uma clareza perturbadora que lembravam os de coelhos. Sua expressão séria ou neutra tinha algo de calmo e de brutal, era difícil de interpretar. Os olhos de Margaret não tinham aptidão para se aprofundar na epiderme e encontrar a alma, ficou com a incógnita da fotografia para si. A ideia de ser olhada por aquelas lentes enudecedoras lhe fez sentir uma vergonha espontânea de intimidade. Teria ela coragem de ver sua própria essência através da arte deste homem?

Saber o que se esconde atrás dos risos, lágrimas e sentidos, observar verdadeiramente um semblante é uma viagem que pode remeter aos mais diversos mundos. É possível ir por todas as emoções nas curvas de um sorriso, no surpreender das sobrancelhas, na contração dos músculos dos olhos. Talvez as coisas que estejam escondidas queiram ficar escondidas, há muita alegria na descoberta. Perguntava-se, após deixar-se convencer a conhecer tal artista, até que ponto aquilo era um dom. Lembrou-se de uma frase de Lacan, “Ir além da cena não é ver mais, é ser obsceno”. Instintivamente tocou seu rosto de modo a perscrutar um segredo, num súbito sua expressão parece ter descoberto algo, quis descer do carro.

Para ser atendida precisou se alterar e após intenso protesto Margaret saiu do veículo. Alguns poderiam pensar que ela sentira medo de ser olhada e descobrir a medíocre verdade sobre si mesma. Mas isso não é totalmente verdade, ter uma ideia de si é essencial, mesmo que no fim sejamos apenas o que o outro percebe. Margaret sabia que as possibilidades têm moradas no desconhecido, o saber extingue, já o desconhecido ensina. Ela queria ser ignorante, queria aprender. Não queria a sabedoria daqueles olhos obscenos, pois é na ignorância que se sonha e que se acredita, Elliot veria tudo e seria obrigado a retratar o que somos, e somos muito. Há bastantes coisas ruins no tudo. Ignorar é deixar de lado um conhecimento, e o que é a felicidade senão esquecermos quem somos?

Aquele quadro jamais ficaria belo, ela teria a alma desprendida do seu corpo e seu rosto seria apenas uma carcaça. Queria ser descoberta e não exposta, a observação deve ser um interesse e não um experimento. Sentiu nojo de ser esta arte e não quis ser. Queria a inocência, aquela encontrada no amor, sempre a fugir do explícito para se mostrar apenas no íntimo. Sentou em um café e refletiu sobre seus traços, desejou que eles fossem desenhados por olhos que ignorem. Um retrato feito assim lembrará apenas o melhor que há em nós, e esse retrato projetará as curvas mais belas, os traços mais rebuscados e desta forma interpretativa será a essência da arte, com o mistério em ser eternamente belo onde tudo está destinado a fenecer.

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