Modo de preparo

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Nem sempre é assim que as coisas procedem, sorte ou não de Vanderleia, o acaso lhe favoreceu. Ela estava ansiosa com sua urgência de vida e precisava preparar um almoço especial. A ocasião pedia; Enzo, seu namorado, levaria os pais para almoçar na casa dela e anunciaria o noivado. Havia planejado tudo há semanas, como uma boa esposa que queria aparentar cuidou especialmente do cardápio para conquistar os sogros: uma receita secreta de família.

O esperado dia já começou agitado, o relógio marcava uma hora de atraso. Apesar do susto, estava satisfeita por ter acordado espontaneamente, já que pela madrugada uma queda de energia desligou o despertador programado para gritar às sete.  Era muito importante tudo estar dentro dos conformes e sem nenhum erro, afinal, os pais de Enzo observariam tudo, analisando a capacidade de Vanderleia como mulher, pessoa, dona de casa e mãe dos futuros netos. O contratempo gerado pela falta de luz fez com que ela se apressasse para ir ao mercado e pegar os ingredientes necessários do menu do almoço.

Naturalmente tencionada ao perfeccionismo, estava preocupada em fazer do melhor jeito, da melhor forma e nas melhores circunstâncias. A receita escolhida para o almoço era segredo de família que sua avó havia escrito a punho, ingredientes e a forma de fazer, ela dizia que não tinha mistério, bastava seguir o que fazer que o sucesso era certo, a única instrução que ela firmava não poder ser esquecida era que os ingredientes deveriam ser frescos, por isso Vanderleia reservou a manhã para comprar a lista. Saiu apressada carregando entre os dedos as informações, comprou tudo e conferiu para ter certeza que não se esquecera de nada, já de volta em casa sentiu na pele que a pressa é inimiga da perfeição, perdeu justamente a lista de compras com o modo de preparo, provavelmente no caixa do supermercado.

 Para quem mantém o hábito de acertar sempre o erro é muito além que um simples acidente, é um pecado. Estava duplamente ferida, uma pelo compromisso próximo e a outra pela história emotiva daquela receita. A culpa, se má administrada, pode se tornar o entrave de qualquer evolução por tirar o foco e fomentar a autocrítica destrutiva. Ela sentia muita culpa por sua desatenção. O suor lhe corria a face ao observar que os ponteiros do relógio eram seus inimigos, era incogitável sair novamente para ir atrás de um papel que possivelmente já tinha sido dado cabo. Falar com sua avó também era outra impossibilidade, estava tudo dando errado justo no dia que ela planejou acertar em todos os detalhes.

Ao mesmo tempo em que o combinado não dá errado, a vida mostrava que ela era difícil de negociar, tudo é dinâmico demais e é muito grande para se controlar, mas uma leve prepotência intrínseca a nossa espécie nos faz acreditar poder ter total domínio das situações. Vanderleia sentia, de fato, o amargor pelo fracasso de seus planos traçados com tanta dedicação, nada saiu como ela estava esperando e ela precisava se virar. Um erro parecia nunca vir sozinho, o atraso anunciou o que o esquecimento da lista atestou, temia agora que essa sucessão de falhas se repetisse no sabor do seu prato.

Colocou a mão na massa. Durante o preparo, seus pensamentos entraram em profundos devaneios; refletiu que refeições e pessoas têm muito em comum, todos os ingredientes do mundo estão disponíveis, todos acessíveis para formar sabores, a diferença está no jeito de combiná-los e a intensidade de cada um, isso que dá a individualidade, porém é algo que só o conhecimento pode fazer. Deste ponto de vista, todos os pratos e todas as pessoas têm potencial para serem deslumbrantes, lembrou-se que havia esquecido seu conhecimento num caixa de supermercado.  Vanderleia encontrou nesta impossibilidade seu tempero. A tese de que o imprevisto poderia ser mais perfeito do que o planejado caía como uma luva para o momento de Vanderleia, que teria que transformar aqueles ingredientes em um almoço prazerosamente inesquecível. Estava no campo do incerto da sua ignorância, e tudo que é incerto lhe era sinônimo de frustração, não confiava o suficiente em si para saber que a incipiência é o berço da inovação.  

O erro não é um desastre, pois tudo que é perdido tem seu ganho, nada é inteiro o suficiente para ser puro, coisas ruins nem sempre são totalmente más, eis o exemplo. Vanderleia, no medo e sob a pressão de um encontro importante, juntou seu desanimo em uma motivação de fazer algo novo, saiu do seu protocolo perfeito de acertos e certezas para arriscar na criatividade. Reinventou a receita, pegou os ingredientes e combinou de acordo com sua sensibilidade. Tensa, é verdade, mas fazia o melhor que podia por estar mergulhada na culpa de seus erros passados, ruminando-os.  

Tudo que ela havia experimentado estava delicioso, mesmo assim não estava segura se agradaria o paladar da família de Enzo. Outro imprevisto: os visitantes se atrasaram. Festejou o tempo extra numa atenção minuciosa ao visual da casa; nada de bagunça, nenhuma sujeira. Chegaram exatos sessenta minutos depois da hora combinada, pensou se era necessário reaquecer a comida na tentativa de reavivar o frescor. Durante o almoço só se ouviam exclamações de prazer, todos estavam encantados com o almoço, ou nas palavras da mãe de Enzo, com o “dom” culinário da nora.  Mas a verdadeira surpresa que tomou conta da mesa foi quando Vanderleia anunciou a todos seus planos. Acontece que ao ser forçada a cozinhar ela reviu também os ingredientes que a compõe, reparou que não estava sentindo o sabor necessário da vida por não combiná-los da forma certa. Não era apreciada no seu total.

Refletiu quanto suas possibilidades haviam sido limitadas por causa da inflexibilidade de sua obsessão por acertar sempre. Enzo era um acerto, mas não havia amor ali, havia o certo, tanto quanto uma fêmea escolhe o macho pela proteção e não pela afeição. O susto quando o erro nos toma é uma surpresa autêntica. Este imprevisto desmascarou muitos vícios de personalidade de Vanderleia, fazendo-a perceber que não era aquele o sabor que ela queria para sua vida. Vanderleia resolveu diminuir o sal de sua dieta, rompeu com Enzo naquele almoço, precisava sentir o sabor do verdadeiro, não aquela vida muito temperada, que torna tudo tão artificial.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Reinaldo disse:

    O texto ficou bom, gostei especialmente do final, diferente… estava pensando sobre o climax, e a epifania ocorreu no momento de perda, a personagem se viu obrigada a improvisar e repensar sobre a rotina que muitas vezes representa estabilidade e não progresso. Esse erro acontece com frequencia na sociedade moderna, a arte de saber lidar com situações problemáticas do dia-a-dia torna o homem experiente e confiante porém muitas vezes acomodado.

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