A lição

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Era aula de literatura e a julgar pela expressão dos jovens em sala ninguém parecia muito interessado ou contente com isso. Era o primeiro dia do professor, além do entrave da estreia e serem alunos totalmente desconhecidos, a sala era problemática, tinha um histórico não muito amigável com a disciplina. O último professor que assumiu o posto perdeu o controle durante a aula e num acesso de raiva espancou com palavras aquela turma. A crítica sincera e pura do antigo mentor não foi bem vista pelo orgulho dos estudantes que acima de tudo pagavam um alto valor por aquele ensino. O novo professor sabia do histórico e tinha certeza que seu último colega tinha sido afastado pela injustiça, que muito provavelmente aqueles jovens mereceram cada injúria e dizia isso por já ter tido seus vinte anos, não é fácil controlar a juventude. Reto e firme nos seus valores pessoais, o professor sentia uma culpa inocente que gerava um desconforto por estar naquele posto, era como se concordasse que pudessem ser como são, sua presença ali era a vitória de uma classe sobre a razão de um professor. Ele tinha um compromisso em ensinar, mas isso só funcionava quando a outra parte estivesse disposta a aprender e era esse o grande desafio.

Na juventude, a inocência pueril que nos acompanha na infância pode estar no fim do seu ciclo de vida, mas ainda respira. Seu pulso é fraco e neste estágio decidimos se sufocamos a inocência ou damos asas a ela. Este processo é silencioso, mas intenso. A inocência nunca morre, mas entra em coma por vezes e em algumas pessoas nunca mais acorda. Escolher prolongar a vida da inocência tem um preço alto, se vale a pena é outra história. Mas se engana quem pensa que a inocência é doce como um sorriso de criança, ela é extremamente cruel e isso se dá simplesmente porque ela não tem responsabilidade. Quem é inocente pode ter feito a maior atrocidade do mundo, mas não tinha aquela responsabilidade, logo, não carrega o fardo da culpa. A verdadeira inocência é a ignorância. Aqueles jovens ainda eram inocentes, por mais que merecessem as palavras do professor severo que maculou seus pequenos egos inflados, não tinham culpa por serem o que eram, apesar de haver muitas controvérsias em uma afirmação dessas. O que o antigo professor se esquecera é que ele mesmo talvez fosse um instrumento para colorir aquele quadro ainda em formação que era a psique dos alunos. O novo professor sabia disso e sem dizer uma palavra encarou os alunos com severidade, colocou seu material em cima da mesa, se dirigiu meticulosamente até a porta e com uma carteira vazia colocou ela contra a maçaneta, trancando-a do lado de dentro, ninguém do lado de fora conseguiria entrar desta maneira. Os alunos ficaram apreensivos com a estranha atitude, o silêncio fazia um ruído ensurdecedor, eles sentiam medo e também curiosidade.

O professor abriu sua mala, retirou livros, três no total, mas sempre olhando para os alunos com expressão grave, depois de espalhar seu material sobre a mesa ele retirou o último item educacional de sua mala: uma granada. O som da surpresa dos olhos adolescentes arregalados trouxe uma gélida atmosfera na sala, ninguém ousou dizer uma palavra, mas todos estavam tensos nas carteiras, o novo professor poderia ser um louco, poderia ser que ele nem fosse realmente professor, alguns olhavam a porta bloqueada pelo lado de dentro ao mesmo tempo em que fitavam a granada, ainda com pino, na mão daquele homem. Sua voz era suave e ele disse: Mantenham caladas a merda de suas bocas, o dinheiro da mensalidade de vocês não pode protegê-los disso aqui (levantou a mão com a granada), o que acontecerá a partir de agora dependerá de vocês. Vim explicar sobre a paixão, sobre o amor, mas vocês estão preocupados com a medíocre vida que levam e não entendem, muito menos dão seriedade ao amor, sei que ao menos amor-próprio vocês têm de sobra, ameaçando ele, eu tenho o controle de suas atenções.

A extraordinária calma que havia na voz do professor parecia evitar o pânico, imobilizados pela surpresa, as injúrias estavam despercebidas, além da hierarquia presente entre aluno e professor, naquele caso havia o respeito que o medo impõe, o professor brincava com as palavras e com o pino da granada, a condição de pavor inferiorizada os alunos, os faziam realmente aprendizes. A submissão é nobre nesses casos. – O que é o amor?, perguntou de repente para um aluno que estava visivelmente apavorado. O medo o paralisara, mesmo que ele soubesse a resposta, as palavras não viriam. O professor bateu a granada na carteira do aluno, não com força, mas com intensidade suficiente para causar um susto em toda a turma. – Milhares de pensadores e poetas quebraram a cabeça, desmembraram dicionários e almas para tentar mostrar o que é a avassaladora paixão, a vilã e salvadora dos poetas, daqueles que sentem, dos únicos que vivem, e você está a sentir neste momento tudo isso que séculos tenta se explicar. Essa imersão, esse mergulho no seu pavor é a face do amor; é a consciência da falta de controle, quando a situação foge do domínio da tua razão e é uma possibilidade remota, muitas vezes de perda. As velhas vadias e religiosas que acham que entendem de bondade sabem muito bem disso em temer Deus… quando eu era mais jovem sempre me perguntei qual a relação que havia no temor e na adoração divina, não me entrava na cabeça como algo que era para ser amor, poderia ser também medo. Você agora sabe como isso é possível.

Com calma caminhou entre os alunos – Eu tenho uma novidade para todos vocês. Não é bem uma novidade, mas não falamos muito disso. Todos nós não passamos de terreno para vermes. A morte chegará para cada um de nós e contra essa certeza não há nada que você possa fazer. Seja por esta granada, seja pela vida, somos descartáveis, crianças. Se você não fez sua vida ser extraordinária, azar o seu, porque somos doentes morrendo a cada segundo, o destino é uma navalha afiada que divide sua alma enquanto sua crença diz que você vive. Mentira! O fruto maduro de hoje é a proliferação de vermes do amanhã, o suicídio é para poucos. Agora vocês querem entender sobre o que é amor, até um dia perceber e ver com seus próprios olhos que aquela vadia que você amou só queria seu caralho, deve estar dando para outro com um pau maior, e onde está a poesia da vida? Aquelas juras e aquelas crenças? Aqui? (balançou a mão com a granada). Silenciou a tempo dos participantes digerirem as informações, segundos depois disse – Quero que vocês se levantem, vamos. Fiquem em pé. Tímidos, levantaram-se e ficaram ao lado da carteira. – Quero lhes contar um segredo – disse se dirigindo para o centro da sala – preciso que se aproximem, vamos, sem medo. Todos obedeceram. – O mundo está doente, as pessoas estão imersas em uma insanidade e cada vez mais impregnadas com isso. Nós vamos entender essa doença, não faremos parte da histeria gerada pela modernidade, entenderemos a vida e daremos o valor que ela merece, vamos descobrir a paixão que move o mundo e quer vocês aceitem ou não, senhoras e senhores, o verbo é que rege esse caralho, a opinião é o verdadeiro Deus dos Homo Sapiens. O que vamos entender aqui é como vale a pena viver, é que decifrar a linguagem é viver um mundo de significações que emociona o mais descrente, o mais incrédulo, o mais castigado pela vida. Vida bandida, é senão uma despedida constante. Encontrar poesia aí é nossa missão como seres. É mais que se emocionar com o pôr do sol, é compartilhá-lo.

Os alunos sentiam-se hipnotizados pela elouquência ironicamente calma daquele professor, ele sabia o que estava fazendo. Pela primeira vez ouviram algo verdadeiramente, através do medo e do terror encontraram a paz que há em se doar sem interesse, pela primeira vez sentiam-se apaixonados pela própria fascinação, a sensação eufórica da descoberta de um segredo. Entendiam através da experiência enquanto o professor falava sobre os poetas; discursava de Otelo e o ciúmes; explanava do orgulho do próprio ego citando Dorian Gray; falou dos homens e suas mentiras através de Machado de Assis; contou-lhes o que Cícero pensava de amor; citou Fernando Pessoa para falar de personalidade; trouxe, enfim, a magia que há na literatura quando o leitor e o personagem se encontram nas emoções. Entenderam a interpretação como um valor mais profundo que a visão, pois o olhar crítico lhes dava identidade, transformava as massas em sentidos entendíveis, cheios de valores e viam-se ali, porque também eram ricos e isso não lhes dizia sobre a condição social, eram mais que uma simples massa.

Depois que todos confiavam naquela explosão que o professor conduzia com as ideias, ouviram o timbre de sua voz mudar, como se encarnasse algo superior e sem olhar para ninguém o professor se pôs a recitar – “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces; Estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse quando me dizem: “vem por aqui!” – O professor fez uma pausa dramática e lentamente continuou – “Eu olho-os com olhos lassos, há, nos olhos meus, ironias e cansaços, e cruzo os braços… E nunca vou por ali… A minha glória é esta: criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade com que rasguei o ventre à minha mãe. Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos… se ao que busco saber nenhum de vós responde por que me repetis: “vem por aqui!”?”

Eu digo a vocês, vem por aqui, sei o que querem saber, confiem em mim, o que lhes cito foi José Maria Reis, já cansado da vida e dos horrores da experiência. Ele tem as próprias razões e dou crédito a ele. Vamos descobrir que não há nada mais forte que a razão e ainda mais à frente nós vamos descobrir que ela é pura emoção. É a poesia que rege a vida. “Viver ultrapassa qualquer entendimento”, que esta aula sirva para que vejam que apenas quando somos rebaixados por qualquer autoridade, seja ela medo ou também a admiração, é que podemos entender sobre qualquer coisa. Não há felicidade maior que aprender. A vida nos escorre a cada segundo, sejamos sempre aprendizes, lembrando da disciplina que devemos ter para estar sempre nesta condição. Errar é fundamental. A ousadia que o mundo das ideias traz às nossas mentes é avassaladora, tudo se torna menor. Há tanta confiança no engano que o torna poético, errem comigo confiando em mim, na próxima aula vou querer ouvir sobre vocês. Quero que tragam o verso que os defina, encontrem e leremos na próxima aula. E foi assim que o novo professor se tornou o mais querido e estimado pelos alunos.

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