A virtude

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Tinha um sorriso bobo na cara que não saia com nenhum tempo ruim. Aquilo irritava a irmã mais velha, como um motivo a mais para os atritos e rivalidades constantes nestes laços sanguíneos. Na verdade uma tem é inveja da felicidade espontânea e injustificada da outra. A mais velha de tudo entendia, menos a irmã, e questionava-se como a caçula vivia dada aos sorrisos ao mesmo tempo em que era sempre feita de besta pelos outros. Aquela felicidade infundada e sem motivo a revoltava como uma conta que não batia. Esperta, sabia que a lógica diz que todo resultado é o conjunto de uma equação, no entanto, a resposta daquela não fazia sentido algum em seu julgamento. Essa motivação era o que bastava para fazê-la exercer os poderes educacionais que seu posto lhe concedia; foi provocar a caçula a fim de alertá-la dessa sua imprudência em ser assim tão ‘desligada’, como se quisesse colocar culpa naquela alegria sem sentido. A missão foi fácil, a mais nova sempre acredita no que lhe dizem e caia no logro da mais velha sem hesitação.

Oi, o que você está fazendo? Nada, imaginando coisas. Você sabia que quem imagina coisas pode transformar a imaginação em realidade e ser engolido? Quando isso acontece você nunca mais volta ao mundo real, cuidado hein! – Com os olhos arregalados a mais nova exclamou – Sério, mana?! Eu se fosse você arranjava outra coisa para fazer, conheço uma história de uma menininha… nem vou contar pra não te assustar. Mas eu tenho uma sugestão: a mamãe pediu para eu lavar a louça e varrer a casa, você poderia fazer para mim, além de me ajudar você não corre risco de ser engolida pela imaginação. Boa ideia, mana! – A mais velha não acreditava como sua irmã podia ser tão estúpida e acreditar em uma história tão sem pé e nem cabeça, sem ao menos questionar! Resolveu inventar mais coisas para provocar alguma reação na irmã – Antes eu preciso te alertar uma coisa; você não pode quebrar nenhuma louça, senão acontecem tragédias com quem usou aquilo que foi quebrado, precisa ter muito cuidado. – Com um olhar sério e determinado a irmã fez um gesto afirmativo com a cabeça reforçado com um singelo biquinho, como quem aceita uma importante missão – E tem mais: nunca conte a mamãe que você lavou a louça e limpou a casa, há um monstro no ralo que escuta tudo e não gosta de crianças que falem disso com os pais.

Em cima de uma cadeira para alcançar a pia, a mais nova cumpria a missão concentrada, enquanto a mais velha olhada com um sorriso de contentamento nos lábios. Sabia que não devia abusar tanto da irmã, mas encarava aquilo como um corretivo, o que justificava sua ação e tirava a malícia de seu ato, sentiu-se na obrigação de também cumprir seu propósito de ensinar. Quando a mais nova terminava de varrer, a mais velha encostou do lado e decidiu abrir o jogo.

Você não percebe que foi feita de besta? E de novo? Que todo mundo te faz de besta porque você simplesmente não questiona? .. Não vai me dizer nada? .. – Bufou irritada – Ninguém é engolido pela imaginação, não existe monstro do ralo, eu inventei tudo só pra você fazer minhas obrigações – A mais nova sorriu, daquele jeito débil que afetava a mais velha, que apesar de se sentir vitoriosa por ter delegado suas responsabilidades ficou extremamente irritada por não atingir o propósito de constranger a irmã, isso acendeu-lhe a ira – Você ta rindo de quê? De ser feita de otária? – A voz calma e doce da mais nova foi mais alta que a revolta da mais velha – Eu sabia. – Disse timidamente e com orgulho da sua certeza – Então você sabia e mesmo assim fez?… escuta, então além de burra você é louca, né? – A mais nova olhou sem rancor a rispidez da irmã e a questionou – Quem no mundo tem mais fé que um louco? Aponte um! A loucura é o extremo da individualidade, eu não sou louca apesar de preferir acreditar em você mesmo sabendo do contrário, mas confiando que você é minha irmã, não me faria de besta, deve ter motivos que são bons para você. Por isso amo cada loucura mesmo que seja a sua, porque toda a loucura é amor e o verdadeiro amor é felicidade, queria te ver feliz. Menina, você tem problema! O que você diz é tudo sem sentido! – Cortou a irmã sem nem dar ouvido ao que ela dizia – Muito pelo contrário mana, o sentido quem tem somos nós e se você não o encontra em minhas palavras significa que elas ultrapassam sua compreensão, e não necessariamente que não tenham sentido, elas têm sim, e muito. – A mais velha saiu sem ouvir, debochando de um modo infantil a mais nova que havia feito todo o serviço que ela devia fazer.

Ingênua, esqueceu que dessa forma os pais poderiam saber toda a verdade, já que agora toda a situação estava explícita. Apesar disso, os pais nunca tiveram ciência do episódio e não foi pelo esquecimento da caçula. Ela simplesmente decidiu não contar nada antes mesmo da mais velha perceber do risco da situação. Arrependida pela possibilidade da repressão dos pais, foi se desculpar por ter agido assim. Mas ela foi surpreendida quando, como resposta, ouviu que não havia necessidade de dizer, para não se preocupar com isso. Com medo que a mais nova mudasse de ideia, o assunto nunca mais foi comentado. Este esquecimento seletivo vibrava com ardência no interior da mais velha. Por muito tempo ela ficou incomodada com a confiança que lhe foi dedicava, pensou no absurdo que é confiar assim, tendo a consciência que tudo era conversa fiada.

Conhecer e errar forma um tipo de consciência que faz alguém ultrapassar o aquilo que é, representa a semente da esperança que raros possuem. A pequena era livre quando era feita de boba, isso não a tornava burra e curiosamente a colocava em uma posição de vida mais intensa e menos angustiada. Aquela estupidez da meninice era superior a todo o conhecimento que a mais velha tinha, porque a sabedoria da mais nova não lhe tapava os olhos para ver o mundo com originalidade, para se perder nas possibilidades e assim deixar levar-se à felicidade que existe em cada segundo. Vive de verdade quem esquece o que sabe, pois o insciente tem, sem saber, a maneira mais completa de sentir uma experiência. Nisso a pequena era especialista, por isso irradia vida em seu sorriso e a mágoa estava sempre distante daqueles olhos brilhantes. Ironia, não? Mas a ironia é o traço permanente da consciência. Espertinha essa inocência.

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